Seres humanos que acabam se considerando máquinas: eis o grande risco da IA. Artigo de Vittorio Gallese

Foto: Igor Omilaev/Unplash

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29 Mai 2026

"Na era da Inteligência Artificial, o verdadeiro desafio não é construir máquinas cada vez mais semelhantes ao ser humano. É impedir que os seres humanos se tornem cada vez mais semelhantes às máquinas., escreve Vittorio Gallese, neurocientista, em artigo publicado por Avvenire, 26-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A inteligência artificial não é apenas uma nova tecnologia. É uma nova forma de organização da experiência humana. Esse é, na minha opinião, um dos núcleos teóricos mais relevantes da nova encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, que aborda o tema da tecnologia digital e da inteligência artificial, evitando tanto os entusiasmos ingênuos quanto os alarmismos apocalípticos. O documento reconhece com lucidez que as tecnologias contemporâneas estão transformando profundamente não apenas a economia e o trabalho, mas também os processos de tomada de decisão, o imaginário coletivo e as modalidades pelas quais os seres humanos se percebem e percebem os outros. Leão XIV convida a construir uma “ecologia da comunicação” fundada na verdade e na transparência. Convida também a promover uma nova consciência educativa no uso das tecnologias digitais, para que suas grandes potencialidades sejam direcionadas para o bem comum.

Como neurocientista cognitivo, considero particularmente importante que o Papa rejeite uma concepção puramente instrumental da tecnologia. A IA não é descrita como algo externo ao ser humano, mas como uma dimensão já intrinsecamente ligada à nossa vida cotidiana. Nesse sentido, a encíclica toca num ponto crucial: as tecnologias não se limitam a mediar a nossa relação com o mundo, mas contribuem para transformá-la. Modificam atenção, percepção, memória, relações sociais e até mesmo as formas de sensibilidade. A encíclica demonstra grande consciência dessa dimensão quando denuncia o risco de uma "desumanização" produzida pela absolutização do paradigma tecnocrático. O problema não é a tecnologia em si, que o texto reconhece justamente como parte integrante da história humana, mas a possibilidade de que os seres humanos adotem progressivamente a lógica das máquinas como modelo para si mesmos.

Leão XIV aborda, dessa forma, algumas das questões mais prementes da atualidade. O que resta da experiência humana quando a presença do corpo é progressivamente marginalizada? O que perdemos quando as relações com outros seres humanos são substituídas por simulações relacionais algorítmicas cada vez mais persuasivas? E que ideia de ser humano corre o risco de se consolidar quando tudo é medido usando como modelo a sobre-humana eficiência tecnológica? Naturalmente, as tecnologias digitais também possuem enormes potencialidades positivas: podem ampliar o acesso ao conhecimento, favorecer novas formas de cooperação e oferecer instrumentos preciosos nas áreas médica, educacional e social. Precisamente por essa razão, o problema não pode ser resolvido simplesmente opondo humano e tecnológico.

A questão crucial diz respeito, antes, a como queremos habitar essas tecnologias e o modelo de humanidade que escolhemos construir por meio delas. Outro tema forte do documento é a crítica a todas as formas de reducionismo computacional do humano. Leão XIV insiste que nenhuma máquina jamais poderá substituir "em seu esplendor" a magnífica humanidade encarnada. Essa afirmação não deve ser lida como uma rejeição nostálgica da inovação, mas como o reconhecimento de algo que as neurociências contemporâneas confirmam cada vez mais claramente: a inteligência humana não coincide com a simples elaboração de informações. Nasce de um corpo vivo que age, sente, deseja, ama e sofre, e constrói significado por meio de relações concretas com os outros e com o meio ambiente. Disso resulta também a preocupação da encíclica pela concentração privada do poder tecnológico. Hoje, apenas poucos sujeitos econômicos controlam infraestruturas digitais capazes de orientar comportamentos, emoções e opiniões em escala planetária. Não estamos simplesmente diante de um problema econômico ou jurídico, mas de uma transformação antropológica.

As plataformas digitais não organizam apenas informações: organizam a vida das pessoas. Nesse contexto, a contraposição simbólica proposta pelo Papa entre a Torre de Babel e as muralhas de Jerusalém reconstruídas por Neemias assume um significado particular. Babel representa a tentação de uma uniformidade tecnológica que elimina as diferenças e as fragilidades em nome da eficiência e do controle. Jerusalém, por sua vez, torna-se a imagem de uma construção coletiva fundada na pluralidade, na responsabilidade compartilhada e na relação. De uma perspectiva neurocientífica, essa oposição capta um elemento essencial: o ser humano não se desenvolve no isoladamente, mas na cooperação e na reciprocidade. Nós, seres humanos, somos inerentemente relacionais. A ciência atual nos diz que a predisposição para a relação com o outro começa já na fase pré-natal.

O maior risco da IA, portanto, não é o risco, muitas vezes evocado, de máquinas que se tornam "mais inteligentes" do que o ser humano. O risco é que os humanos acabem se considerando como máquinas, que adotem a lógica do desempenho, da otimização e da previsibilidade algorítmica como seu modelo. O que está em jogo não é apenas o futuro da tecnologia, mas o futuro de quem queremos ser.

Por isso, considero particularmente importante o apelo final da encíclica para "permanecermos humanos".

Permanecer humanos significa preservar aquilo que nenhuma automação consegue replicar plenamente: a vulnerabilidade do corpo vivo, a riqueza da experiência afetiva, a capacidade de empatia, a relação com o outro e a abertura a um significado que transcende todo cálculo. Na era da Inteligência Artificial, o verdadeiro desafio não é construir máquinas cada vez mais semelhantes ao ser humano. É impedir que os seres humanos se tornem cada vez mais semelhantes às máquinas.

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