Mais de 10 milhões de menores na África e na Ásia sofreram abuso sexual digital: “É muito fácil causar muito mal na internet”

Foto: Adelbertus Cahyono/Unsplash

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28 Mai 2026

Em apenas um ano, entre 2020 e 2021, mais de 10 milhões de crianças na África e na Ásia sofreram algum tipo de abuso sexual digital. Um de cada 6 jovens entre 12 e 17 anos foi vítima de extorsão ou chantagem, ou recebeu imagens sexuais indesejadas ou ofertas solicitando conteúdo explícito em troca de dinheiro. Essa é a conclusão de um estudo publicado na prestigiada revista Nature.

A reportagem é de Selva Vargas Reátegui, publicada por El País, 27-05-2026. 

Sakshi Ghai, pesquisadora da London School of Economics and Political Science e principal autora do estudo, alerta que os números representam apenas uma aproximação do problema, que pode ter piorado nos últimos cinco anos, especialmente com a expansão de novas tecnologias como a inteligência artificial generativa. "O atual impacto negativo na internet pode ser muito maior", adverte ela.

Os dados têm um enorme peso estatístico. Trata-se de pesquisas com representatividade nacional realizadas em 12 países: Etiópia, Quênia, Moçambique, Namíbia, Tanzânia, Uganda, Camboja, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietnã. Um total de 11.912 pessoas participaram. O estudo baseia-se em dados coletados pelo projeto Disrupting Harm, conduzido pelo UNICEF Innocenti, pela organização ECPAT e pela Interpol.

Os pesquisadores descobriram que aproximadamente 10% das crianças receberam imagens sexuais indesejadas e 8% receberam comentários de cunho sexual. Cinco por cento foram pressionadas a participar de tais conversas e cerca de 3% sofreram chantagem ou tiveram imagens íntimas distribuídas sem o seu consentimento. A prevalência foi quase idêntica entre meninas e meninos. No Vietnã, a porcentagem de menores afetados foi de 5,5%, enquanto nas Filipinas atingiu os 29%. Os autores salientam que, embora os números variem, qualquer um destes cenários causa graves danos psicológicos, emocionais e até físicos aos menores.

A desigualdade é estrutural

O estudo menciona que a digitalização levou a um aumento nas pesquisas e debates sobre segurança online para crianças e adolescentes. No entanto, esse esforço para proteger menores não tem sido o mesmo nos países do Sul Global. Historicamente, a maioria dos estudos sobre segurança digital infantil tem se concentrado em países ricos, enquanto na África e em grande parte da Ásia eles permaneceram praticamente fora da esfera acadêmica, embora essas regiões abriguem algumas das maiores populações infantis. Na África, mais de 60% da população tem menos de 25 anos, e as Nações Unidas projetam que essa população dobrará até 2050.

Para Nacho Guadix, chefe de Educação e Direitos Digitais do UNICEF Espanha, o fato de os jovens estarem conectados a plataformas globais significa que enfrentam problemas semelhantes, mas com a complicação adicional de todas as outras vulnerabilidades a que estão expostos. "Em ambientes de pobreza, falta de estrutura familiar ou ausência de sistemas de proteção mais desenvolvidos, os efeitos são ainda mais prejudiciais", enfatiza.

Segundo Ghai, uma das principais contribuições do estudo é ampliar o foco para além dos países ocidentais. "A discussão sobre os danos digitais tem sido dominada por alguns poucos países ocidentais. Ter um conjunto de dados como este, que representa outras partes do mundo, é importante para mostrar o quão global e prevalente é o problema", afirma.

A maioria dos casos não é notificada

O estudo também constatou que muitas crianças não denunciam abusos por medo, vergonha ou falta de confiança. No entanto, Ghai destaca que a barreira mais frequente era "não saber a quem recorrer". Segundo a pesquisadora, essa descoberta revela uma lacuna crítica nos sistemas de proteção à infância e na educação digital.

Os dados também mostram que crianças com maior apoio dos pais e conhecimento de onde buscar ajuda tinham maior probabilidade de relatar o ocorrido. "Ambientes familiares seguros e conversas abertas sobre segurança online fomentam a confiança dos jovens para denunciarem", explica ela. Ela também enfatiza a importância de ensinar as crianças desde cedo a identificar esse tipo de violência e onde buscar apoio.

No entanto, alerta que a responsabilidade não pode recair apenas sobre as famílias ou as próprias crianças. "Os jovens e as famílias não podem suportar esse fardo sozinhos", afirma. Por essa razão, defende uma resposta coordenada entre governos, empresas de tecnologia, forças policiais e sistemas educacionais. "Grande parte disso acontece em plataformas específicas, e ainda não analisamos suficientemente como as empresas de tecnologia respondem ou o que fazem para criar ambientes seguros", argumenta.

Além disso, Ghai insiste que pesquisas futuras devem incorporar mais profundamente as desigualdades que afetam crianças em diferentes regiões do mundo. "Precisamos entender como fatores como pobreza, migração, etnia e orientação sexual influenciam essas questões e como os agressores exploram essas vulnerabilidades."

Para Guadix, os esforços regulatórios continuam insuficientes. "Ainda não é fácil verificar a idade de acesso aos seus serviços, e certamente eles não estão adaptados aos estágios de desenvolvimento que permitiriam um uso adequado."

Para Jorge Flores, diretor e fundador da Pantallas Amigas, uma iniciativa para o uso seguro da internet, "a internet é uma ferramenta que pode ser usada com muita facilidade para causar muitos danos". Ele alerta que um dos erros mais frequentes que as famílias cometem é dar dispositivos móveis aos filhos muito cedo e sem preparação prévia. "Os smartphones hoje em dia implicam um maior grau de independência. Eles são distribuídos muito cedo e sem um planejamento." A prevenção precoce em casa e na escola é um importante fator de proteção, "mas nem sempre é feita com a dedicação necessária". "Há famílias que não se importam o suficiente; há famílias que se importam, mas poucas delas realmente tomam medidas."

Além disso, Flores alerta que os desafios digitais estão evoluindo em um ritmo cada vez mais acelerado. "Agora estamos falando de inteligência artificial, deepfakes e novas formas de manipulação. Os riscos estão crescendo tanto em diversidade quanto em velocidade", adverte.

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