Juízo encarnado e mundo comum: Hannah Arendt diante das crises políticas do século XXI. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: “Seleção” de judeus húngaros na rampa de Auschwitz II-Birkenau, na Polônia ocupada pela Alemanha, em maio/junho de 1944, durante a fase final do Holocausto. Os judeus eram enviados либо para o trabalho forçado, либо para a câmara de gás | Wikimedia Commons/Bernhard Walter

27 Mai 2026

As profundas transformações políticas e sociais das últimas décadas recolocaram no centro do debate contemporâneo questões relativas à responsabilidade, ao julgamento moral e à preservação do espaço público diante da crescente burocratização da vida. Nesse cenário, a filosofia política de Hannah Arendt permanece como uma das mais importantes referências para compreender os mecanismos pelos quais a violência pode ser normalizada no interior das instituições modernas e das estruturas administrativas. É a partir desse horizonte filosófico que María Tereza Muñoz Sánchez ministrará a conferência “Juízo encarnado e mundo comum. Banalidade do mal e direito a ter direitos em Hannah Arendt” nesta quarta-feira, 27-05-2026.

Ao revisitar categorias centrais da obra arendtiana à luz das tensões do presente, a atividade propõe uma reflexão sobre os limites éticos da racionalidade técnica, a fragilidade do mundo comum e os riscos políticos produzidos pela incapacidade de pensar criticamente diante das engrenagens institucionais do poder.

A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

No interior das múltiplas e sistêmicas crises que atravessam o século XXI (guerras permanentes, deslocamentos forçados, erosão democrática, naturalização da violência e esvaziamento do espaço público e algoritimização da vida) o pensamento de Hannah Arendt adquire força singular. É precisamente nesse horizonte que a filósofa espanhola radicada no México, María Tereza Muñoz Sánchez, ministrará nesta quarta-feira, 27-05-2026, a conferência “Juízo encarnado e mundo comum. Banalidade do mal e direito a ter direitos em Hannah Arendt”, integrando a terceira atividade da programação do Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. As inscrições e a programação completa estão disponíveis em Colóquio Internacional Hannah Arendt.

A conferência propõe uma articulação filosófica decisiva entre quatro eixos centrais da obra arendtiana: juízo, mundo comum, banalidade do mal e direito a ter direitos. Trata-se de um conjunto conceitual profundamente atual diante de sociedades marcadas pela automatização das decisões políticas, pela burocratização da vida e pela crescente incapacidade coletiva de discernimento ético. Em Eichmann em Jerusalém, Arendt formulou a célebre noção de “banalidade do mal” ao acompanhar o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann. O que a filósofa identificou não foi um monstro excepcional, mas a figura inquietante do funcionário incapaz de pensar criticamente sobre seus próprios atos, reduzido à lógica da obediência e da eficiência administrativa.

Ao deslocar o problema do mal da esfera demoníaca para a incapacidade de julgamento, Arendt inaugurou uma das críticas mais contundentes à racionalidade burocrática moderna. O mal, em determinadas circunstâncias históricas, pode deixar de aparecer como perversidade explícita e assumir a forma da normalidade institucional, da linguagem técnica e da indiferença moral. Essa reflexão mantém enorme potência interpretativa diante de fenômenos contemporâneos como a desumanização dos migrantes, a disseminação do ódio político, os regimes de vigilância tecnológica e as engrenagens administrativas que transformam sofrimento humano em mera estatística.

Dissociação entre ação e responsabilidade moral

A captura de Adolf Eichmann, realizada pelo serviço secreto israelense, o Mossad, em 1960, na Argentina, inaugurou um dos julgamentos mais emblemáticos do século XX. Eichmann havia vivido durante anos sob identidade falsa após fugir da Europa no pós-guerra, inserindo-se discretamente na vida cotidiana enquanto carregava consigo a responsabilidade logística pela deportação de milhões de judeus para os campos de extermínio nazistas. Sua prisão não representou apenas a localização de um criminoso de guerra, mas a irrupção tardia de uma questão decisiva para a consciência moderna: como compreender indivíduos que participaram ativamente de uma máquina genocida sem necessariamente corresponder à imagem clássica do fanático sanguinário?

O julgamento realizado em Jerusalém transformou-se rapidamente em um acontecimento político, jurídico e filosófico de alcance mundial. Pela primeira vez, grande parte dos testemunhos das vítimas do Holocausto foi exposta publicamente diante da comunidade internacional, permitindo que a dimensão concreta da catástrofe nazista emergisse para além dos números estatísticos. O tribunal não julgava apenas um homem, mas confrontava simbolicamente toda uma estrutura de poder fundada na industrialização da morte, na fragmentação administrativa da responsabilidade e na capacidade moderna de produzir destruição em escala massiva por meio de procedimentos técnicos aparentemente ordinários.

 

Nesse contexto, uma das questões mais perturbadoras levantadas por Hannah Arendt refere-se precisamente à dissociação entre ação e responsabilidade moral. Eichmann insistia repetidamente que jamais havia matado alguém diretamente e que sua função consistia apenas em organizar transportes e cumprir determinações superiores. Essa autopercepção burocrática revela uma ruptura profunda entre o ato administrativo e suas consequências humanas. A violência extrema passa a operar mediada por relatórios, tabelas, memorandos, protocolos e cadeias hierárquicas que diluem subjetivamente a culpa individual. O horror moderno, nessa perspectiva, não depende apenas do ódio explícito, mas da capacidade institucional de transformar seres humanos em problemas técnicos de gestão.

Arendt percebeu ainda que Eichmann recorria continuamente a clichês, fórmulas prontas e linguagem burocrática incapazes de expressar qualquer reflexão autônoma sobre a gravidade de seus atos. Seu discurso aparecia marcado pela repetição automática de justificativas administrativas e deveres funcionais. Essa pobreza reflexiva tornou-se central para a análise filosófica arendtiana, pois indicava uma espécie de suspensão da interioridade crítica. O problema fundamental não residia apenas na obediência, mas na incapacidade de interromper os mecanismos de conformidade social para exercer o pensamento como atividade ética. Pensar, para Arendt, significa precisamente criar distância em relação às normas vigentes quando estas entram em contradição com a dignidade humana.

O julgamento de Eichmann também colocou em debate os próprios limites do direito diante de crimes inéditos na história. O genocídio nazista produziu um tipo de violência que ultrapassava as categorias penais tradicionais, pois não se tratava apenas de assassinatos individuais, mas da tentativa sistemática de eliminação de povos inteiros. Surgia então a necessidade de pensar juridicamente os chamados “crimes contra a humanidade”, categoria que desloca o foco da vítima isolada para a própria condição humana enquanto pertencimento político comum. O caso Eichmann contribuiu decisivamente para consolidar discussões internacionais sobre responsabilidade universal, memória histórica e justiça transnacional.

Além disso, a repercussão mundial do julgamento revelou como o Holocausto obrigou a filosofia política contemporânea a reconsiderar profundamente as relações entre modernidade, civilização e barbárie. O nazismo demonstrou que elevado desenvolvimento técnico, racionalidade administrativa e progresso científico não impedem a emergência de formas extremas de destruição humana. Ao contrário, podem tornar-se instrumentos sofisticados de extermínio quando desvinculados da reflexão ética e da responsabilidade política. É precisamente nesse ponto que a análise de Hannah Arendt permanece radicalmente atual: ela mostra que a defesa do mundo comum depende da preservação da capacidade de julgar, pensar e resistir às engrenagens impessoais que naturalizam a violência sob a aparência da normalidade institucional.

Juízo encarnado

É nesse contexto que ganha centralidade a noção de “juízo encarnado”, tema sugerido no título da conferência de María Tereza Muñoz Sánchez. Em diálogo com a tradição kantiana reinterpretada por Arendt, o juízo não aparece como abstração puramente racional, mas como faculdade situada no mundo, vinculada à pluralidade humana e à capacidade de considerar a perspectiva do outro. Julgar significa, nesse sentido, interromper automatismos, resistir à conformidade e preservar a experiência concreta da responsabilidade política. Trata-se de uma atividade inseparável do espaço público e da existência compartilhada.

A ideia de “mundo comum”, igualmente central na reflexão arendtiana, refere-se precisamente àquilo que os seres humanos constroem entre si por meio da palavra, da ação e da convivência política. Contra o isolamento das massas e a fragmentação social produzida pelas sociedades contemporâneas, Arendt insistiu que a política nasce da pluralidade e da possibilidade de aparecer diante dos outros como sujeito de discurso e ação. Quando o mundo comum se dissolve, emergem as condições propícias para formas totalitárias de poder.

Essa problemática encontra um de seus pontos mais dramáticos na formulação arendtiana do “direito a ter direitos”. A expressão surge a partir da experiência histórica dos refugiados, apátridas e deslocados do século XX. Arendt percebeu que os direitos humanos tornam-se frágeis quando deixam de estar sustentados por uma comunidade política concreta capaz de reconhecer seus membros. O verdadeiro drama do refugiado não consiste apenas na perda da casa ou da nacionalidade, mas na perda do lugar político de aparição e reconhecimento.

Ao recuperar esses conceitos, a trajetória intelectual de María Tereza Muñoz Sánchez revela afinidade profunda com as questões mais decisivas da filosofia política contemporânea. Professora da Universidad Nacional Autónoma de México - UNAM, sua produção filosófica dedica-se às relações entre ética, política, democracia, alteridade e pensamento contemporâneo, especialmente no campo da filosofia política e da recepção latino-americana de Hannah Arendt. Sua presença no Colóquio Internacional reforça a dimensão continental e plural da recepção arendtiana, especialmente em um contexto latino-americano atravessado por desigualdades estruturais, violência política e disputas em torno dos direitos humanos.

Uma das facetas da atualidade de Hannah Arendt se apresenta justamente em sua recusa às simplificações ideológicas. Sua obra permanece como advertência contra toda forma de desumanização produzida pela incapacidade de pensar, julgar e agir politicamente. Em tempos de polarização extrema, desinformação massiva e fragilização democrática, Arendt continua a recordar que a liberdade política depende da preservação do mundo comum e da coragem de pensar sem corrimãos.

Mais do que revisitar categorias clássicas da filosofia política, a conferência de María Tereza Muñoz Sánchez convida a interrogar as condições éticas da vida contemporânea. Em um cenário global marcado pela naturalização da violência e pela erosão dos vínculos públicos, pensar o juízo, a responsabilidade e o direito de existir politicamente talvez seja uma das tarefas filosóficas mais urgentes do presente.

María Teresa Muñoz Sánchez é licenciada em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid, Espanha, e doutora em Filosofia pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). É professora titular do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Letras e membro do Sistema Nacional de Pesquisadores (Nível II). Sua pesquisa concentra-se em duas áreas: epistemologia e filosofia política. Em epistemologia, seu interesse centra-se na obra do chamado Wittgenstein tardio; em filosofia política, ocupa-se sobretudo da obra de Hannah Arendt.

Anote e participe!

Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI. Repensar a democracia liberal a partir de Arendt

📍 Profa. Dra. María Tereza Muñoz Sánchez – UNAM – México
⏰ 27/05 | 10h às 11h30min
🎥 Transmissão ao vivo

YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=23DaO9EffSc
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events

📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.

Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/hannah-arendt

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