21 Mai 2026
A OpenAI venceu o processo judicial por uma "questão técnica de calendário", sem que a juíza abordasse a questão de fundo.
A informação é de Jordi Pérez Colomé, publicada por El País, 20-05-2026.
O maior julgamento de Inteligência Artificial deste século terminou discretamente, sem muita repercussão. Elon Musk perdeu, e a OpenAI venceu de forma decisiva. Isso se deve principalmente ao fato de o júri ter considerado a queixa de Musk ilegal. Os fatos já haviam se esgotado. Nem o júri nem a juíza levaram em conta a queixa de Musk. É como se a final da Copa do Mundo nunca tivesse acontecido porque uma das seleções não pôde participar. Alguém vence, mas sem saber se realmente mereceu. Estes são os pontos principais:
1. Uma simples “questão técnica de agendamento”.
Foi assim que Musk descreveu, mas se ele levou o caso ao tribunal tão tarde, a culpa também é dele. Musk processou Sam Altman e Greg Brockman, cofundadores da OpenAI, por abandonarem a organização sem fins lucrativos, que criaram com doações do próprio Musk, entre outros, para transformá-la em uma empresa comum. Musk afirma que, ao fazer isso, eles se esqueceram de sua missão inicial: uma IA para o benefício da humanidade, uma que “não nos mate”, nas palavras de Musk durante o julgamento. E, além disso, eles se tornaram milionários às suas custas.
A OpenAI rebateu, afirmando que Musk já havia considerado transformá-los em uma empresa naqueles primeiros anos. Ele também ressaltou que Musk entrou com um processo agora justamente porque o ChatGPT é um sucesso e, se vencesse, teria subjugado um dos maiores rivais de sua própria empresa de IA, a xAI.
No fim das contas, essa tecnicalidade é algo mais do que isso: o júri e a juíza disseram a Musk que, se ele estivesse tão preocupado com a humanidade, poderia ter relatado o ocorrido antes.
2. Sam Altman venceu?
A resposta curta é sim. A OpenAI continuará líder de mercado com o ChatGPT, abrirá seu capital ainda este ano e não precisará se preocupar com Musk por enquanto. Mas o julgamento não pintou um quadro positivo. Musk enfatizou repetidamente como Altman e Brockman se enriqueceram. Os rumores que surgiram os retratam como seres humanos banais envolvidos em intermináveis lutas de poder, como crianças com um brinquedo gigante. Altman aspirava ser visto como um santo e pacificador no mundo da IA. Ele ficará com a imagem de um magnata da IA. Enquanto isso, a Anthropic e o Google continuam a ganhar terreno sobre ele no mercado e nas manchetes.
3. Isto não acabou.
Do lado de fora do tribunal de Oakland, onde ocorreu o julgamento de três semanas, o advogado de Musk, Marc Toberoff, tinha "apenas uma palavra" sobre o veredito: "Apelação". "Esta guerra não acabou. Acreditamos firmemente que o que aconteceu com a OpenAI foi errado em um nível muito básico: você não pode arrecadar milhões de dólares como uma instituição de caridade financiada publicamente e depois, quando lhe convém, simplesmente se transformar em uma empresa com fins lucrativos onde os executivos e membros do conselho dessa mesma instituição de caridade se enriquecem em bilhões", afirmou Toberoff.
4. A grande questão permanece.
Há algo que o julgamento não resolveu: o que a OpenAI fez é possível? Uma organização sem fins lucrativos pode se tornar uma empresa com fins lucrativos sem quaisquer repercussões? Em resposta à falta de um veredito claro, alguns fãs de Musk sugeriram que, a partir de agora, poderiam criar organizações sem fins lucrativos com todos os seus benefícios e, em seguida, lucrar enormemente com elas.
5. Outro problema subjacente.
A IA é um dos grandes debates da nossa época: já está influenciando empregos, universidades, hospitais e tribunais. Mesmo os jovens, que em teoria deveriam ser os mais beneficiados, não a enxergam com clareza.
Ninguém sabe qual será o impacto final, se será bom ou ruim. Mas se o debate central em torno da IA, em vez de se concentrar em como ela curará o câncer ou resolverá o problema energético, passar a se concentrar em quem ganhará mais dinheiro ou conquistará a maior fatia de mercado, haverá muito a perder.
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