O que está em jogo nas eleições de 2026? Artigo de Everton Rodrigo Santos

Foto: Agência Senado

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18 Mai 2026

A democracia está sob ataque, e isso não é um argumento eleitoreiro, mas um alerta sustentado por pesquisas e por padrões amplamente documentados na literatura sobre erosão democrática no mundo

O artigo é de Everton Rodrigo Santos publicado por Extra Classe, 15-05-2026. 

Everton Rodrigo Santos é cientista político e professor titular da Universidade Feevale. Pesquisador e consultor Capes/Cnpq/Fapergs/WVS. Autor de Ciência Política: Lições sobre o jogo do poder.

Eis o artigo. 

Brasil irá às urnas em 2026 na condição de quarta maior democracia eleitoral do mundo, em uma disputa que ganha peso especial no cenário internacional. Este pleito ocorre em um momento em que diversas democracias no planeta enfrentam processos de autocratização, isto é, dinâmicas pelas quais regimes democráticos passam a adotar características cada vez mais autoritárias. Nesta perspectiva, é importante lembrar que a democracia não avança de forma linear, mas em ondas.

Ondas 

A primeira onda democrática ganhou força ainda no final do século 19, impulsionada pela ampliação do voto. A segunda onda emergiu no pós-guerra, quando o voto feminino se consolidou e o nazifascismo foi derrotado. A terceira tomou corpo a partir das transições democráticas na Europa e na América Latina e se espalhou com a queda do muro de Berlim. Cada uma dessas ondas foi seguida igualmente por ondas reversas. Nós estaríamos hoje vivendo a terceira onda reversa, em curso desde o início do século 21, marcada pela erosão democrática e pela ascensão de uma extrema direita global, da qual o trumpismo tornou-se um dos símbolos mais visíveis.

É dentro desse contexto que o eleitor brasileiro fará suas escolhas. Segundo o relatório V Dem, há uma piora da democracia no mundo: 74% da população mundial vive sob regimes autoritários, enquanto apenas 26%, em democracias. Os dados da The Economist ressaltam que os Estados Unidos perderam o status de “democracia plena” para “democracia imperfeita”, recuando 0,2 ponto em relação ao ano passado. Nas pesquisas conduzidas pela WVS (Pesquisa Mundial de Valores), observamos, longitudinalmente, que o apoio específico à democracia também enfraqueceu no mundo, em particular no Brasil. Guardadas as diferenças metodológicas entre pesquisadores, há uma convergência crescente em apontar que essa onda reversa não surge ao acaso, mas é impulsionada por fatores estruturais, entre eles, estão:

Desigualdade

A desigualdade, que neste início do século 21 aumentou no mundo, manifestou-se de forma peculiar: os ricos ficaram mais ricos, enquanto os pobres ficaram menos pobres. O resultado foi o esmagamento da classe média, que viu os mais ricos se distanciarem e os mais pobres avançarem sobre ela. As classes médias foram as que mais perderam postos de trabalho, devido à substituição de tarefas rotineiras pelas novas tecnologias e pela inteligência artificial.

Mudança de valores

Somado a isso, o avanço de direitos da comunidade LGBTQIAP+, negros e mulheres, tem provocado uma crise de masculinidade. Homens que perderam renda e status alimentam a “macho-esfera”, os red pills nas redes sociais. Facilmente reconhecidos nas ruas do país, são, em geral, de meia-idade, dirigem picapes adesivadas com bandeiras enormes do Brasil ou dos EUA, têm encontrado sentido político no voto na extrema direita.

Redes sociais

Esse grupo, e muitos outros, tem cada vez mais seu ponto de encontro nas redes sociais, que desempenham papel central na intensificação da crise democrática ao encapsularem milhões de pessoas em uma “midioesfera extremista”. Verdadeiras bolhas de desinformação, “câmaras de eco”, nas quais cada pessoa recebe apenas o conteúdo que confirma suas crenças e valores.

Cenário eleitoral

Neste cenário, Flávio Bolsonaro e seu entourage (Caiado, Zema e Renan Santos) inscrevem-se na versão autocrática da onda reversa brasileira. Flávio fez menções ao “uso da força” contra o STF para libertar seu pai. Alinhando-se às políticas trumpistas, sua participação na Conferência de Ação Política Conservadora, oferecendo reservas brasileiras de minerais críticos, é autoexplicativa. A democracia está sob ataque, e isso não é um argumento eleitoreiro, mas um alerta sustentado por pesquisas e por padrões amplamente documentados na literatura sobre erosão democrática no mundo. Quando atores políticos passam a flertar com soluções autoritárias, embalados por uma onda autocrática planetária, o que está em jogo não é uma eleição, mas o futuro da democracia.

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