Homossexualidade e fé: o testemunho de um português num documento do Vaticano

Foto: Analuisa gamboa/Unsplash

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12 Mai 2026

O relatório do Grupo de Estudo criado pelo Papa Francisco, no âmbito do processo sinodal, para aprofundar “critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas controversas” foi publicado no início deste mês, estando a ser objeto de reações díspares. A metodologia de escuta e discernimento seguida, tal como indicava a orientação superiormente recebida, levou o Grupo a incluir, nas situações problemáticas que considerou, testemunhos de duas pessoas homossexuais, casadas e católicas, uma das quais portuguesa.

No seu depoimento, a pessoa em causa descreve o sofrimento decorrente do silêncio sobre o tema e da solidão e vida dupla na adolescência. Relata ainda como encontrou paz espiritual numa comunidade de vida cristã (CVX). Apela a que a pastoral da Igreja vá além do mero ‘acolhimento’, reconhecendo e proclamando que Deus deseja a plenitude de cada pessoa.

Dado o interesse do testemunho e uma vez que ele se encontra publicado apenas em inglês, num anexo ao relatório, o 7Margens publica-o de seguida, na íntegra, em português.

O depoimento é publicado por 7 Margens, 11-05-2026.

Eis o depoimento.

“Comecei a sentir o apelo intenso e amoroso de Cristo à minha integridade e plenitude”

Que aspectos da sua experiência pessoal considera mais importantes destacar relativamente ao tema em discussão (neste caso: a homossexualidade)?

Crescer no amor e na sensibilidade: cresci numa família numerosa, onde sou o segundo de quatro irmãos e duas irmãs. Era uma família muito amorosa e aberta, mas o tema da homossexualidade nunca era abordado. A verdadeira graça foi a minha mãe. A sua insistência para que os meus professores valorizassem a minha sensibilidade, o meu apreço pela poesia e a minha delicadeza — traços frequentemente considerados "femininos" nos anos 90 — em vez de os encarem com receio, foi algo fundador. Ela cultivou em mim uma confiança interior de que a minha diferença não era um defeito. Este amor parental foi a minha primeira e mais duradoura lição de aceitação de mim próprio e de dignidade.

A descoberta da sexualidade e a angústia da solidão: as minhas primeiras paixões seguiram as normas sociais das relações heterossexuais, mas à medida que fui amadurecendo, percebi que a intensidade dos meus sentimentos por alguns rapazes era diferente — uma fusão profunda de intimidade e desejo, diferente da estima calorosa que sentia pelas garotas. Viver isto em segredo, fora do que parecia "normal", conduziu-me a uma imensa sensação de desconexão e a uma profunda solidão. O silêncio percecionado ou a aversão ao tema nas esferas sociais e, de forma crucial, no seio da Igreja, forçaram-me a uma vida dupla. Pergunto-me se partilhar abertamente as experiências de famílias homossexuais me teria ajudado a não me sentir tão só neste caminho.

O encontro com Cristo e o apelo à inteireza: na oração e em retiros durante a adolescência e os primeiros anos da vida adulta, senti muitas vezes que orava sozinho. No entanto, foi no cadinho desse isolamento que comecei a sentir o apelo intenso e amoroso de Cristo à minha integridade e plenitude — a não me magoar a mim próprio nem aos outros, pois o meu corpo foi criado e é amado por Deus. O caminho a seguir não era a segregação, mas a integração de cada parte de mim próprio no Seu olhar amoroso.

Encontrar o amor e a paz: conhecer aquele que é hoje o meu marido há 20 anos, quando eu tinha 19, foi transformador. Encontrei finalmente alguém que partilhava os meus valores mais profundos e as minhas lutas interiores. Partilhar uma vida de fé, serviço e amor com ele tem sido a expressão mais verdadeira de mim próprio. A minha sexualidade não define a minha vida, mas é uma parte intrínseca de mim; sem a reconhecer, não posso ser pleno.

Participou ativamente em algum grupo ou movimento centrado nesta temática e que reflexões ou ensinamentos daí retirou?

Procurar a plenitude, evitar a segregação: evitei ativamente grupos que me pareciam promover a segregação; o meu desejo mais profundo era simplesmente encontrar-me a mim próprio e sentir que pertencia. A única experiência em grupos foi o grande conforto que encontrei ao integrar um grupo de râguebi gay durante seis anos, no início dos meus trinta anos. Era um espaço para praticar um desporto amado sem julgamentos, onde a minha identidade estava presente, mas o foco era a atividade e não o rótulo. Tenho a sensação de que alguns grupos católicos ainda colocam demasiada ênfase na própria temática da sexualidade.

Encontrar a plenitude na Comunidade de Vida Cristã (CVX): há oito anos, encontrei o meu lar na CVX. Temia a incompreensão, mas descobri um espaço onde me sinto completamente integrado e eu próprio desde o primeiro dia. Aqui, oramos sobre os grandes temas do mundo — a guerra, a pobreza, a justiça — e trazemos a Cristo todas as alegrias e tristezas das nossas vidas. Fico grato por a minha sexualidade não ser tratada como um tema de maior relevância do que qualquer outro desafio que enfrentamos. É simplesmente um fio no rico tecido da minha vida. Ao mesmo tempo, conheço amigos que foram profundamente feridos, e os grupos cristãos homossexuais dão-lhes o espaço seguro de que precisam para encontrar respostas.

Ir além do rótulo, rumo ao serviço: sou muito mais do que um rótulo. Vivo a minha vida em profunda paz com Deus, que me conhece desde o ventre da minha mãe. Falo abertamente da minha realidade quando é apropriado, mas o meu propósito e a minha alegria encontram-se no serviço — como o trabalho que faço com crianças em lares de acolhimento —, um campo que me é muito querido e que me dá a oportunidade de utilizar o tempo que não teria tido se tivesse filhos. O meu desejo é ser visto não pelo prisma da minha sexualidade, mas pela totalidade do meu ser e das minhas ações.

Feridas deixadas pela comunidade cristã: não posso ignorar as cicatrizes que carrego. Fui testemunha dos efeitos devastadores das "terapias de conversão" e da ruptura de famílias, que senti como um ataque à criação sensível e irrepreensível de Deus. Estas experiências magoam profundamente, porque visam a dignidade inerente de uma pessoa que simplesmente ama outra do mesmo sexo.

Qual é a sua relação com as comunidades cristãs e com a realidade da Igreja, e de que formas encontra apoio ou se depara com dificuldades?

O desafio da integridade em Cristo: a minha vida espiritual está ancorada na Eucaristia, no Exame de Consciência diário e na CVX. Pessoalmente, nunca fui confrontado publicamente por simples gestos de afeto com o meu marido. No entanto, há uma década, a pergunta de um diretor espiritual magoou-me profundamente: sugeriu que eu poderia ter casado com uma mulher para "encontrar paz" e "usar os meus talentos", uma vez que o casamento não é "apenas sobre sexualidade". Senti-me ofendido: era uma sugestão de prejudicar uma mulher, privando-a da oportunidade de ser completamente amada e desejada, apenas para cumprir uma expectativa social.

Trazer tudo à luz: esse encontro inicial e doloroso levou-me a esvaziar a minha oração diária, excluindo da minha conversa com Cristo a minha relação e a minha vida afetiva. O ponto de viragem chegou quando outro diretor me desafiou: "Numa verdadeira amizade e confiança, não há áreas onde não possamos fazer brilhar a luz de Cristo. Tu és pleno." A partir desse momento, comecei lentamente a trazer de volta à oração, à partilha na CVX e à minha vida profissional e familiar a minha realidade plena. No momento em que o senti, partilhei esta imagem com o meu grupo: todos vamos a Jerusalém; o caminho ou as paragens não importam muito, o que importa é o destino final, e viajar sem magoar os outros nem a Deus.

O momento decisivo chegou quando percebi que Cristo não estava à espera para condenar a minha relação, mas aguardava pacificamente que eu O encontrasse no meu segredo e solidão. O verdadeiro pecado não era o meu amor, mas a minha falta de confiança no Seu desejo de me ver realizado. Rezo para que todos ousemos trazer as nossas vidas inteiras — as nossas verdades mais profundas — à luz do amor de Cristo, sabendo que Ele quer que sejamos plenos, não quebrados ou escondidos.

O amor e a aceitação como ponto de partida: a minha dificuldade atual é sentir que a Igreja precisa de ir além do simples "acolhimento" e da "compaixão", que deveriam ser o alicerce óbvio. Cristo deu-nos o discernimento para irmos mais longe. Precisamos de proclamar a verdade não dita: Deus ama-te e deseja a tua plenitude. A sexualidade é uma parte da nossa vida, e a diferença é uma marca da Criação. A vida de Jesus provou que o Amor é maior do que todas as nossas lutas e conflitos. Desejaria que as conversas na Igreja se centrassem em identificar as diferenças concretas entre nós… ou, melhor ainda, em reconhecer que, aos olhos de Deus, não existem, porque somos todos amados.

Embora vivendo uma relação homossexual, acredito verdadeiramente que o sinal de Deus na minha vida foram os dons que me concedeu de fidelidade e coragem, necessários para construir uma vida de fé e serviço partilhados com o meu marido. O meu casamento, na sua constância e compromisso, é uma verdadeira oportunidade para consagrarmos o nosso tempo e energia aos outros. É o que temos feito, de dia e de noite.

O poder curativo da comunidade: a família do meu marido, embora amorosa, fez da sua realidade um assunto tabu. Ele é intérprete de língua gestual e trabalha alguns domingos por mês a interpretar a Missa em Fátima. É genuinamente uma pessoa feita de amor pelos outros, pela família e pela natureza. Mas foi profundamente ferido pela sua família, que não foi capaz de mostrar amor e empatia perante a sua realidade, acreditando, com base na palavra de Deus, que ele vivia em pecado. Só quando a família começou a testemunhar que éramos cristãos ativos na nossa vida diária, ao notar também sinais discretos de apoio e amor à comunidade homossexual vindos da Igreja na sua pequena cidade portuguesa, é que os seus corações começaram a abrir-se. Esta experiência testemunha que mesmo os gestos mais discretos de amor e aceitação por parte da comunidade cristã são cruciais para a cura familiar e para uma maior aceitação social.

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