11 Mai 2026
"O ataque israelense à Flotilha Global Sumud ocorreu sem nosso conhecimento. A Grécia não foi informada, mas, como governo, cumprimos nosso dever ao facilitar o desembarque dos prisioneiros no Dia do Trabalho." Essas foram as palavras proferidas na sexta-feira pelo ministro das Relações Exteriores grego, Giorgos Gerapetritis, durante um debate no parlamento. A República helênica – segundo Gerapetritis – "fez o que tinha que fazer", tanto que "todos os países cujos cidadãos estavam nos navios israelenses na ocasião expressaram sua gratidão à Grécia".
A informação é de Andrea Sceresini, publicada por il manifesto, de 10-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini. Andrea Sceresini integrava a Flotilha.
Quando o eco dessas declarações chegou à Flotilha, no entanto, poucos conseguiram manter a calma. Após nossa detenção, nosso primeiro contato com as autoridades gregas ocorreu no minúsculo porto de Atherinolakkos, no extremo sudeste da ilha de Creta, onde fomos desembarcados pela Guarda Costeira. Naquele momento — por volta das 8h da manhã — o navio-prisão israelense onde estávamos presos ainda estava atracado à nossa frente, a menos de uma milha da costa. A bordo daquela embarcação, em águas territoriais gregas, ainda estavam detidos Thiago Ávila e Saif Abukeshek, que logo seriam deportados para Israel. Não teria sido possível, dando um alerta imediato, conseguir que alguém interviesse em favor deles antes que o navio de carga militar retornasse às águas internacionais?
#Canal24Horas | El activista de la flotilla Abu Keshek llega a España tras "seis días brutales" detenido en Israel pic.twitter.com/wcoj6v1qWl
— RTVE Noticias (@rtvenoticias) May 10, 2026
Foi o que muitos de nós tentamos, mas sem sucesso. Eu mesmo abordei tanto os policiais quanto os dois funcionários do Ministério das Relações Exteriores de Atenas presentes no local, aos quais, depois de me identificar como jornalista, perguntei se poderiam me emprestar um telefone para ligar para a redação. "Desculpe, não podemos", responderam todos. O mais honesto foi o motorista de um dos ônibus enfileirados no cais — no qual só subiríamos depois de várias horas — que me disse, literalmente: "Não posso te dar o telefone, a polícia não quer".
Nas últimas horas, numa tentativa de reconstruir o papel da Grécia nesse caso, conseguimos entrar em contato com vários jornalistas cretenses, cuja versão dos acontecimentos contradiz decisivamente as palavras do seu ministro. "O porto de Atherinolakkos, onde desembarcaram vocês, já foi chamado no passado de 'stou diaolou ti mana', que significa 'o lugar onde vive a mãe do demônio'", explica o repórter Marios Dionellis, um dos jornalistas mais conhecidos da ilha. “Não é por acaso que o governo grego sugeriu que os israelenses os deixassem num local tão isolado. Atenas queria evitar que houvesse testemunhas entre os membros da comunidade local. A operação deveria ser realizada em segredo, para que ninguém pudesse interferir. A nós, jornalistas cretenses, as autoridades locais não forneceram qualquer informação. Desde o início, era claro que estavam seguindo ordens de Atenas e que não tinham qualquer margem de manobra”.
We have just received confirmation from the embassy that Thiago Ávila will be arriving in Cairo, Egypt, in a few hours!
— Thiago Ávila (@thiagoavilabr) May 10, 2026
Thank you for your unwavering support!
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Acabamos de receber a confirmação da embaixada de que Thiago chegará em Cairo, no Egito, em algumas horas! pic.twitter.com/RTaYZ6Zk5O
Naquele dia – ainda segundo relatos da imprensa local – toda a área estaria cercada por um verdadeiro cordão de segurança. Apenas dois fotógrafos conseguiram registrar nosso desembarque, mas para isso tiveram que subir a pé a montanha do outro lado do cais, onde vários policiais tentaram localizá-los até o último minuto. "Sei com certeza que um colega foi perseguido pelos homens fardados", conta um deles, o fotojornalista cretense Stefanis Rapanis, ao jornal Il Manifesto. "Para não ser pego, tive que me manter a uma grande distância. Havia uma atmosfera muito tensa e estava claro para todos que se tratava de uma operação que evidentemente ia contra as regras."
Graças à cobertura oferecida pelas autoridades gregas, em suma, os homens das Idf teriam tido tempo para desembarcar os prisioneiros impunemente, teriam conseguido dar meia-volta e se afastar sem serem incomodados com Thiago e Saif a bordo, antes que qualquer autoridade internacional tivesse tempo de intervir e exigir sua libertação. É plausível, a essas alturas, dado o nível de cooperação entre os dois países, que a Grécia realmente desconhecesse os planos de Tel Aviv para o ataque de 29 de abril, que, além disso, ocorreu a poucas milhas das águas territoriais gregas? É isso que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos também pretende estabelecer, tendo aberto um processo justamente sobre esse assunto, para o qual o governo de Atenas deve fornecer respostas até 12 de maio.
Enquanto isso, ontem à noite, a Flotilha Global Sumud chegou à cidade turca de Marmaris, onde os ativistas pretendem se reorganizar e finalizar os próximos passos da missão.
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