"Rosalía: um “furacão”, sem dúvida. Uma perguntadora de Deus? Sim. Uma taça de Sauvignon branco para “espreitar” a imagem de Deus lá no fundo? Espero que Deus não se ofenda, que a imagem é muito bela", escreve Teresa Vasconcelos, professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal, em artigo publicado por 7 Margens, 08-05-2026.
Não, não tive hipótese de estar em nenhum dos dois concertos que a cantora catalã deu em Lisboa a 7 e 8 de Abril. Com muita pena minha. No entanto fui presenteada com o seu último disco, Lux, que servirá como ponto de partida – no meio de dezenas de imagens e músicas dela que me chegam aos olhos – para falar sobre a fascinante e contraditória artista que é Rosalía. É também sobre essa tessitura de ecos e imagens do que se passou no concerto que me vou debruçar.
Sabemos que Rosalía é uma “cantora, compositora e produtora musical”, uma personagem verdadeiramente luminosa em palco, que combina diferentes estilos musicais pop e hip hop e, mais recentemente, ópera clássica. O seu pop moderno influenciado pelo flamenco tornou-a original e única. Multifacetada, portanto. Lux é o seu quarto álbum. Tem recebido inúmeros prémios e reconhecimentos musicais (Grammys, artista do ano, por exemplo). A revista Billboard considerou-a a mulher do ano. Um excelente artigo de Miguel Marujo foi publicado em Novembro passado pelo 7 Margens.
Não pretendo repetir aquilo que foi escrito pelo Miguel Marujo. Rosalía é considerada “uma das cantoras espanholas mais bem-sucedidas e influentes de todos os tempos”, lê-se nas redes sociais. Não a conheço suficientemente para poder afirmar isto. Mas que é uma artista fascinante, é. Considerada controversa, provocadora, que não se repete – mesmo na digressão de lançamento do seu disco Lux –, tem-se tornado uma cantora pouco comum e inspiradora.
Rosalía Vila nasceu em 1992 (tem portanto 33 anos) e viveu na pequena cidade de San Esteve Sesrovires, na Catalunha, onde muitos imigrantes da Andaluzia se instalaram. Desde cedo praticou flamenco e, interessada em música e cenografia, fez um curso de seis anos na academia, transferindo-se rapidamente para a Escola Superior de Música da Catalunha para terminar os seus estudos. Esteve em Portugal no festival Primavera Sound de 2015. Foi treinadora de voz e de flamenco. Ela própria teve de aprender a colocar a voz numa fase em que a perdeu, tendo feito inclusivamente uma cirurgia às cordas vocais.
Numa atividade fulgurante, participou no filme de Almodóvar Mal Querer e, posteriormente, em Dor y Gloria. Lançou o single Fucking Money Man, que inclui duas faixas: Millionària (cantado em catalão) e Dios Nos Libre del Dinero, dois títulos significativos da sua posição face aos bens materiais e ao dinheiro. Milionària foi um sucesso, tornando-se, pela quarta vez, música número um em Espanha. Viveu esporadicamente em Los Angeles, em Miami, uma temporada em Porto Rico… tornando-se claramente uma artista global. Se verificarmos o seu percurso artístico podemos ver a variedade de figuras e estilos musicais que Rosalía ia experimentando. Daí que fosse aparecendo como o “fenômeno Rosalía” ou “furacão Rosalía”.
A sua irmã mais velha, Pilar Vila, Pili, trabalha com Rosalía como co-produtora e estilista – roupas, acessórios e coleções – combinando pesquisa de tendências, visão estética e coordenação prática dos espetáculos que se tornam verdadeiras performances multimédia. Vejam-se os seus trajes criativos e irreverentes. Rosalía canta – a amplitude da sua voz é extraordinária, que a formação no flamenco explica. Mas também dança, gesticula, salta, faz ballet clássico, declama.
Acompanhada de um corpo de ballet e de uma orquestra (no caso de Lux dirigida pela maestrina cubana Yudania Gómez), não temos dúvida de que cada exibição é um fascinante espetáculo multimídia. Músicas e letras são compostas por uma equipa de autores em que ela figura, como demonstram os créditos atribuídos a cada canção. Vi nas redes sociais Rosalía visitando e rezando na Abadia de Monserrate (Catalunha), encantando-se e comovendo-se às lágrimas com Virolai pela Escolanía, o coro residente com vozes de crianças, um dos mais antigos coros europeus. Confrontou-se com os hinos marianos pelas vozes de rapazinhos e pergunto-me se essa não foi uma experiência fundadora, uma epifania para a sensibilidade religiosa de Rosalía que perpassa todo este novo disco.
O amor pela poesia é evidente na sua música, passando por São João da Cruz (Aunque es de Noche – ver vídeo acima), os Salmos, Hildegarda de Bingen, Paul Valéry ou o poeta nicareguense Ruben Darío.
A 7 de Novembro de 2025, Rosalía lança o álbum Lux. O álbum conta com colaborações de Bjork e Carminho, e “continua a tradição de misturar e fundir diferentes géneros musicais”. Interage numa canção com a Escolanía de Montserrat. Vários críticos musicais afirmam que é o seu álbum mais espiritual. Sem conhecer toda a evolução musical de Rosalía, ouso afirmar que este é um álbum religioso, recheado de símbolos religiosos: fotografias do corpo em cruz, mantos brancos, mãos postas, uma pseudo-coroa de espinhos simulada com madeixas no cabelo. Nas fascinantes fotografias que aparecem no disco, predominam a cor branca, brilhos (destellos) aparecem asas de anjo, o corpo preso num invólucro branco. Uma das fotografias reproduz o posicionamento do Cristo de Salvador Dali inclinado sobre o mundo.
Logo nas belas palavras da primeira canção do álbum, Sexo, Violência y Llantas, Rosalía canta: Quién pudiera/ Vivir entre los dos/ Primero amaré el mundo/ Y luego amaré a Dios (…). Quién pudiera/ Venir de esta tierra/ Entrar em el cielo/Y volver a la tierra/Que entre la tierra/La tierra y el cielo/Nunca hubiera suelo/(…) En el segundo/ Destellos [brilhos], palomas y santas/ La gracia, el fruto y el beso de la balanza [equilíbrio]/ Quién pudiera… (previno que mantenho as letras no seu original espanhol, colocando entre parêntesis a tradução de alguma palavra que me pareça menos conhecida).
Nesta canção, a artista debate-se com a aparente oposição entre terra e céu, deseja que não houvesse um solo e anseia apenas pelo equilíbrio, a santidade, a graça, a branca pureza. No entanto, a sua figura bem carnal e sensual, em roupa interior, saia de crinolina e botas de cano alto (lindíssima sob o ponto de vista artístico) anula esta pretensa e limitativa dicotomia entre céu e terra. O corpo é “vaso de graça”, a beleza terrena é um hino à criação, o pranto um caminho para a plenitude. As “coisas terrenas” podem ser geridas de forma “santa”, tal como o erotismo, o desejo ou o sexo, o dinheiro (como no anterior disco Milionària). O desejo do mais, do maior, da beleza, do infinito, lembra-nos bem os grandes poetas portugueses, nomeadamente Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa ou mesmo Natália Correia. Rosalía em boa companhia, portanto…
Numa entrevista anterior, Rosalía partilha as suas inquietações religiosas: “Deus é quem realmente preenche os espaços vazios da minha vida, sempre que eu tenha disposição para abrir-me a Ele.” Em 2018, fez o Caminho de Santiago. Referindo-se à ligação entre a criação e a paz interior Rosalía refere que “as monjas de clausura são cidadãs celestiais”. Confessa como vê a ligação entre o vazio e a divindade: “Se crias espaço, Alguém que está por cima de ti pode passar através de ti”. Uma belíssima formulação do Espírito de Deus. A transformação do seu verdadeiro eu em crescimento espiritual vem da dor e da beleza.
As palavras da segunda canção, Relíquia, com um carácter mais intimista, remetem-nos para inúmeros pontos do globo por onde Rosalía tem passado, com suas perdas e ganhos: uma mulher errante e atenta, afirmando a sua necessidade de comunhão – “O meu coração nunca foi meu, sempre o dou” (…) Sou tua relíquia/Serei a tua relíquia.” A palavra relíquia aparece-me aqui como algo que perdura no tempo, que é resiliente e fiel, símbolo de resistência. Mas a canção tem um final abrupto, quase inesperado com as palavras: Mar eterno y bravo/la eterna canción/ ni tiene salida/ ni tiene perdon. E reconhece: No soy una santa pero estoy blessed.
Nas suas canções usa metáforas bíblicas. Liam Gallagher afirma que ela é “bíblica”: a cruz de Cristo Redentor, a maçã, a hóstia. Considerando-se essencialmente gregária confessa que quando experimenta a solidão escuta Nina Simone. Neste disco canta em diferentes línguas tornando a sua música ainda mais universal. Em Divinize ouvimos: Through my body you can see the light/Bruise me up I’ll eat all of my pride/ I know I was made to divinize/Inside me/Outside me (Através do meu corpo podes ver luz/ Fere-me e engolirei todo o meu orgulho/ Sei que fui feita para divinizar/Dentro de mim/Fora de mim). Pergunto-me qual o sentido deste bruise me up (fere-me, quebra-me)?
Em Porcelana usa frases em latim, fala de luz que ilumina/O ruína divina.
Em mais um título com caráter religioso, Mio Cristo Piange Diamanti, ouve-se: Mio Cristo piange diamante/Piange, piange diamante/ ti porto, ti porto sempre/Sempre ti porto, sempre/Ti porto, ti porto sempre/Sempre, sempre/Sempre. Supõe-se que as lágrimas de Cristo sejam ou se tornem diamantes. Por isso as “carrega”. Nesta canção a toada inspira-se claramente nas batidas do flamenco em tom de ópera.
Em Berghain, canção em que intervém a cantora islandesa Bjork, há uma imersão no seu próprio mundo interior e suas sombras na busca da transcendência por meio da arte, mas também da dualidade entre “desejo de controle e entrega”. Em tons agudos de grande dramaticidade, trata-se de uma canção cantada em três idiomas (espanhol, inglês e alemão): Yo se muy bien lo que soy/Ternura pa’l café/Solo soy un terrón de azúcar/Sé que me funde el calor/Sé desaparecer/Cuando tú vienes es cuando me voy (…). The only way to save us is through divine/Intervention/The only way I will be saved is through divine/Intervention.
Não podemos esquecer que neste disco Rosalía usa treze línguas, incluindo o latim, o árabe e o hebraico.
Em Mundo Nuevo, dirigindo-se à mãe, anseia por volver de nuevo a habitar/ por ver si en um mundo nuevo/ Por ver si en un mundo nuevo encontraba más verdade.
Estranhei as palavras de La Yugular e encontrei na internet uma interessante explicação.
Esta é uma canção claramente espiritual. Afirma-se que é “uma canção de sacrifício e entrega total, mostrando como o amor pode ultrapassar barreiras individuais e se tornar uma experiência universal”. A letra utiliza imagens que transitam entre o micro e o macro, como a passagem de um haikai a uma galáxia ou de uma gota de saliva à Quinta Avenida. Essas comparações ilustram a interconexão entre o quotidiano e o infinito, sugerindo que tudo está ligado e que o amor pode transformar o ordinário em algo sagrado. O monólogo final de Patti Smith, ao falar sobre a busca pelos heavens (céus) cada vez mais altos e a insatisfação com os limites, amplia o tema da transcendência, relacionando-o tanto à criatividade quanto à existência. Assim, La Yugular destaca-se como uma reflexão sensorial e espiritual sobre unidade, superação e a fusão de diferentes culturas e linguagens”.
Também se pode interpretar La Yugular apenas como uma canção que demonstra a profundidade do amor, o desejo de se deixar consumir pelo amor, o amor que consegue encaixar o universo dentro dela própria, fazendo-a transcender-se para além das limitações terrestres: Tu amor es uma avalancha/Cae por su próprio peso al existir/Ayer, hoy y mañana/La nieve em que la me quiero hundir (…) que la me quiero hundir (…) un continente no cabe en Él/Pero Él cabe en mi pecho/Y mi pecho ocupa su amor/Y en su amor me quiero perder. Não tenho dúvida de que se trata de uma canção bem espiritual em que Rosalía quer tocar o transcendente. E a metáfora da jugular pretende demonstrar a sua proximidade com Deus.
Diria ainda que nas suas canções mais românticas, Rosalía expressa a sua insatisfação, desejo não correspondido, desilusão. Tristeza e dor. Em La Perla denuncia um indivíduo manipulador, desleal e não confiável. Aqui Rosalía é claramente afirmativa no seu ser mulher traída, falando em deceção total, num rompecorazones nacional, un terrorista emocional, el mayor desastre mundial… Ser bala perdida es sua especialidade// La lealtad/y la fidelidad/ es um idioma/que nunca entenderá. Acusa-o de ser “ladrão de paz”. Curiosamente passou por mim, nas buscas pela internet, um vídeo comovedor em que um grupo de crianças canta também a sua indignação, usando a música de La Perla, criticando o bullying que acontece na sua escola:
Em Dios Es un Stalker (perseguidor) Rosalía inspira-se nos Salmos e na figura de São Paulo e dirige-se a um namorado interpelando-o: Yo que siempre he estão tan mal acostumbrá/y la omnipresencia me tiene agotada /pero este corazón lo voy a secuestrar/y perseguirlo sin piedad. Há uma obsessão e desejo da pessoa amada, perseguindo-a na sua necessidade de ser reconhecida.
Em Sauvignon Blanc a cantora descreve o seu desejo de abandonar os bens materiais e as “coisas” que possui para levar uma vida mais simples tendo o amor como principal enfoque: Mi luz/La prenderé/Con el Rolls-Royce/Que quemaré/Sé que mi paz/Yo me ganaré/Cuando no queda na’/Nada que perder/Ya no quiero perlas ni caviar/Tu amor será mi capital/Y qué más da si te tengo a ti/No necessito nada más.
Em La Rumba del Perdón, em modo de flamenco, Rosalía fala de traição e abandono, mas também de pura inveja. Menciona ainda as consequências dos atos praticados: La que piensa que puede escarparse del plan divino e interpela: El que tiene alma de santo pero sigue pecando/cuando has mentido por mentir o has mentido por tu verdad/cuando has querido mas de que Dios te ha querido dar.
Num momento que sei ter sido absolutamente mágico do concerto em Lisboa, Rosalía chama a nossa fadista Carminho para, juntas, cantarem o fado Memória, que Rosalía pediu “emprestado” e que figura no disco. Foi um/o momento alto do concerto, em que as duas cantaram conjuntamente e em alternância o fado:
Ainda te lembras de mim?
Ainda sabes de onde eu vim?
Quem sou esta que aqui estou?
(…)
Diz-me se ainda tropeço
Se me alegro se agradeço
Ou se ainda sei cantar
Recorda-me por favor
Alguma coisa o que for que eu não consigo
Lembrar
(…)
Oh meu doce coração
Diz-me se sabes ou não
Ainda te lembras de mim?
Cantam o desejo de ser lembrado/a, memória e identidade, perguntando se as memórias partilhadas ainda terão significado. A dolência intensa deste fado comoveu Rosalía e levou-a a pedir a colaboração de Carminho.
A última canção do disco, Magnolias, fala da morte simbolizada pelas magnólias – essas flores sumptuosas que no norte do nosso país anunciam a primavera, trazem boa sorte e lágrimas, sim. Em Rosalía adivinha-se uma aceitação da mortalidade: Tirame magnólias/sobre mi ataúd (…) tirame magnólias/Dios descende/Y yo asciendo/ nos encontramos en el medio … Y quedaros despiertos/ Hasta que vuelva otra vez la luz/Promete que me protegerás/A mi y a mi nombre em mi ausencia/Yo que vengo de las estrellas/Hoy me convierto en polvo/Pa’volver con ellas. A confiança faz desaparecer o medo na certeza de que encontrará Deus que a espera a meio caminho. Por isso o seu desejo final é tornar-se uma estrela que irá ter com outras estrelas.
Encontramos em Rosalía um culto da imagem quase barroco. Ela é uma “luz solar irradiante”. Ela é cálida, forte, energética, sensual. Um cometa, também.
Na sua simplicidade assaz complexa impressionam-me as letras deste disco. Perpassa um profundo amor pela vida e uma ânsia de beleza e poesia. Mas a obra é também atravessada pelo medo, pela dor, pela mágoa que os acordes do flamenco tão bem interpretam. Há momentos de uma fé simples, tradicional e quase infantil de par com uma profunda espiritualidade e reconhecimento da presença de Deus (do “divino”) na sua vida. De Hildegarda de Bingen, Rosalía aprendeu que a música e o canto podem ser uma oração – como afirma Miguel Marujo. Não tem pejo em se afirmar “abençoada”. Por um imenso talento sim, por uma energia fulgurante, sim. Mas também pela inquietude desassossegada de alguém que coloca a si própria a questão de Deus.
Rosalía: um “furacão”, sem dúvida. Uma perguntadora de Deus? Sim. Uma taça de Sauvignon branco para “espreitar” a imagem de Deus lá no fundo? Espero que Deus não se ofenda, que a imagem é muito bela.