11 Fevereiro 2026
"Paulo não é apenas o autor cristão mais antigo, mas também um ponto de convergência obrigatório para quem deseja compreender as origens da fé cristã", escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex-diretor do L'Osservatore Romano, em artigo publicado por Domani, 18-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Os estudos e a historiografia sobre o santo são muitas vezes divididos. No centro da discussão estão sobretudo dois temas fundamentais: sua relação com Jesus, a quem nunca conheceu apesar de ser seu contemporâneo, e sua atitude em relação ao judaísmo, ambos aspectos cruciais para a história do cristianismo.
Paulo não é apenas o autor cristão mais antigo, mas também um ponto de convergência obrigatório para quem deseja compreender as origens da fé cristã. Figura central e inesgotável em sua importância, ele sempre foi e continua sendo um protagonista reconhecido, porém controverso.
Por dois motivos: sua relação com Jesus, a quem nunca conheceu apesar de ser seu contemporâneo, e sua postura em relação ao judaísmo, ambos aspectos cruciais para a história do cristianismo.
Renan e Buonaiuti
Ernest Renan, em 1869, esboçou o perfil do "décimo terceiro apóstolo" e sua relação com o mestre de Nazaré com notável perspicácia e bem pouca simpatia. "Jesus", escreve ele, "parece para nós, sob sua aura celestial, como um ideal de bondade e beleza. Pedro amou Jesus, o compreendeu e foi, evidentemente, apesar de algumas fraquezas, um homem excelente. E Paulo o que foi?" Certamente, "não um santo", pois era "orgulhoso, rígido, enérgico".
Além disso, o judeu Saulo (mais tarde Paulo), nascido em Tarso e educado em Jerusalém pelo famoso mestre Gamaliel, "não foi um sábio", nem "um poeta", mas "um eminente homem de ação". Renan o compara a Lutero, acrescentando que Paulo está "abaixo de Francisco de Assis e do autor da Imitação [de Cristo], ambos os quais viram Jesus muito de perto". Deixando de lado as experiências místicas e a paixão ardente que emergem das cartas autênticas de Paulo, o escritor francês chega a uma conclusão contundente: "O verdadeiro cristianismo, que durará para sempre, brota do Evangelho, não das epístolas paulinas".
Longe da evanescência e das simplificações de Renan, aliás, nos antípodas, está um de seus críticos, o maior representante do modernismo italiano. Um historiador muito mais perspicaz e erudito, o padre Ernesto Buonaiuti - que morreu em 1946 atingido pela maior excomunhão romana – afirma, ao contrário, em sua última obra, a poderosa Storia del cristianesimo (Newton & Compton), que "a experiência e o ensinamento de Paulo, vistos dentro do contexto cultural e religioso em que se desenvolveram, não representam uma distorção da mensagem de Jesus: pelo contrário, constituem um seu aprofundamento".
A eficácia retórica
Buonaiuti também acerta no alvo ao descrever a capacidade propagandística do judeu de Tarso no mundo greco-romano. "Paulo submeteu os elementos escatológico (fascinans), soteriológico (portentum) e, por fim, ético-eclesiológico (tremendum), todos os três potencialmente coexistentes na mensagem do Evangelho, a um processo de esclarecimento e potencialização que facilitou sua disseminação e organização sistemática."
Enquanto Agostinho celebrava a eficácia retórica de Paulo em 426, em sua conhecidíssima obra De doctrina Christiana, onde o apóstolo era exaltado também como um modelo de comunicação, uma recente pesquisa de uma biblista francesa (Chantal Reynier, La rumeur et l’épître, Les Éditions du Cerf) reconstrói seus mecanismos no contexto histórico do Primeiro Império, "entre informação e desinformação na época de São Paulo". Precisamente quando, em meados do primeiro século, as medidas organizacionais de Augusto favorecem a difusão das notícias e transformam Roma em um "verdadeiro império da palavra": em grego, lógos, termo que aparece nada menos que 331 vezes no Novo Testamento, 84 das quais nas cartas atribuídas a Paulo.
A análise da estudiosa abrange todos os aspectos comunicativos da proclamação do Evangelho pelo último apóstolo, que em pouco mais de trinta anos – aproximadamente entre 34 e 67 – tornou-se o maior propagandista do "caminho" (em grego, hodós). Esse é o termo que o evangelista Lucas, seu fiel colaborador, usa nos Atos dos Apóstolos, continuação do Evangelho, para descrever a fé em Jesus.
As viagens de Paulo
Com base nas cartas e no livro de Lucas, a vida itinerante de Paulo é assim reconstituída até nos detalhes mais técnicos relativos ao nascimento e à difusão das notícias: desde anotações gravadas em tábuas de cera até a transcrição de textos densos e inflamados como a Carta aos Romanos, das assinaturas manuscritas à mediação de mensageiros de confiança que percorriam as estradas romanas. Esclarecedoras e extremamente úteis a esse respeito são especialmente a comparação sistemática do epistolário de Paulo com muitos textos de Cícero, Sêneca, Petrônio, Juvenal, Marcial e Plínio, o Jovem, juntamente com o estudo do léxico.
Os constantes deslocamentos do apóstolo são agrupados em três grandes viagens pelo Mediterrâneo oriental: de Jerusalém a Chipre, da Macedônia à Grécia, até a última, que o leva a Roma, onde é executado durante a perseguição de Nero. Escrevendo aos cristãos da capital do império antes de lá chegar, Paulo expressa sua intenção de viajar até a Espanha, mas permanece incerto se esse projeto chegou a se concretizar.
É em Roma que o apóstolo prega durante dois anos inteiros "com toda a liberdade e sem impedimento", e é precisamente com essas palavras — que ressaltam o ápice da mensagem do Evangelho, que havia chegado à capital do mundo — que Lucas escolhe concluir. No sentido de enfatizar que a missão está cumprida e que outra fase da história começa.
Nunca sozinho
Paulo nunca está sozinho. Desde a sua entrada em cena, quando o evangelista o descreve com duas frases breves e de extrema eficácia (Atos 7,58 e 8,1) durante o apedrejamento de Estêvão, o diácono de língua grega que é a primeira testemunha de Cristo: "E as testemunhas [da acusação contra Estêvão] deixaram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo", acrescentando que esse homem "aprova a sua morte". Bento XVI observou com elegância que naquele exato momento, enquanto Estêvão está sendo assassinado, Paulo encontra Jesus, antes mesmo da revelação fulgurante no caminho para Damasco. Cristo, de fato, "identificou-se com a Igreja e fez com que ele entendesse que perseguir a Igreja era perseguir a Ele, o ressuscitado", afirma o Papa em 22 de novembro de 2006. A partir desse fato, "compreendemos por que a Igreja esteva tão presente nos pensamentos, no coração e na atividade de Paulo".
O livro de Reynier deixa muito claro que Paulo nunca está sozinho. Aliás, o apóstolo é caracterizado como um homem de relações, capaz de criar laços: uma personalidade muito forte, mas não centralizadora. A estudiosa francesa examina 82 colaboradores de Paulo — entre eles não poucas mulheres — cujos nomes e histórias constelam as cartas e o relato de Lucas.
A relação com a diáspora
As missões paulinas, fundamentais para a difusão do cristianismo, são muito facilitadas pela diáspora judaica nos territórios do império, uma extensa rede que também constituía um "importante vetor de informação". E o ambiente judaico é indispensável para uma compreensão autêntica do apóstolo, como Gabriele Boccaccini e Giulio
Mariotti confirmam agora com força em um livro equilibrado e convincente (Paolo di Tarso, Carocci).
No livro, os dois autores reiteram que para Paulo — obviamente judeu, e que judeu permanece para sempre — "Cristo é o único e abrangente caminho da salvação.
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