Soma de desmatamento e mudança climática é bomba-relógio para Amazônia

Foto: Christian Braga/Greenpeace

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07 Mai 2026

Estudo publicado na Nature mede risco conjunto dos dois fatores no processo de savanização da Amazônia; spoiler: 5% a mais de desmate iniciaria processo.

A reportagem é de Roberto Kaz, publicada por Observatório do Clima, 06-05-2026.

Pegue duas taxas atuais. A primeira, do aquecimento global, que resultou em temperaturas 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais nos últimos três anos. A segunda, de desmatamento de toda a Amazônia – incluindo aí os nove países que a compõem -, que já suprimiu ao menos 17% de sua vegetação. Junte as duas taxas numa mesma equação. O resultado? A possibilidade de savanização de cerca de dois terços da floresta (62-77%), ainda neste século.

Os dados constam de um estudo feito pelo Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), publicado nesta quarta-feira (6) pela revista Nature. O estudo juntou duas variáveis que costumavam ser medidas em separado: a taxa de desmatamento da Amazônia e a taxa de aquecimento do planeta, resultando num modelo de previsão mais próximo da realidade.

“Estamos vendo efeitos combinados”, explicou a matemática Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina, que integrou a equipe do estudo. “Juntando as taxas, você chega a modelos preditivos mais complexos, em que uma variável influencia a outra, num efeito em cascata.” Exemplo real: o desmatamento no Brasil, aliado ao aumento da emissão de carbono nos Estados Unidos, pode levar a um enfraquecimento da floresta na Bolívia. “É uma conta em que 2 mais 2 não resultam necessariamente em 4”, diz Hirota.

O estudo prevê cenários com e sem a variável do desmatamento, apenas para deixar claro como ela importa. Num hipotético cenário sem desmate, a temperatura mundial precisaria aumentar entre 3,7ºC e 4ºC para que a Amazônia atingisse um ponto de não retorno – momento em que a vegetação não consegue mais recuperar por conta própria, levando a uma progressiva savanização que poderia se estender por uma área entre 62% e 77% da floresta.

Mas este cenário, de desmatamento zero, ainda não existe. Com a variável do desmatamento em jogo, a temperatura só precisa aumentar entre 1,5ºC e 1,9ºC para chegar ao mesmo resultado.

Sendo mais claro: hoje a Amazônia já perdeu entre 17 e 18% de sua vegetação original. Se a taxa de desmatamento se mantiver constante, o percentual de supressão tende a subir para 22 a 28% da área. Neste caso, o mundo só precisará aquecer entre 1,5ºC e 1,9ºC para que o ponto de não retorno seja atingido – levando então à savanização de até dois terços da floresta. “A gente não se pautou pelo Acordo de Paris, mas emergiram dados bem próximos dele”, explicou Hirota, referindo-se ao aquecimento entre 1,5ºC e 2ºC que o Acordo de Paris estipula como limite para que o mundo não entre em colapso.

O estudo também confirma a tese do climatólogo brasileiro Carlos Nobre, segundo a qual a Amazônia atingirá um ponto de não retorno caso perca entre 20% e 25% de sua vegetação.

Desmatamento zero

Para calcular o desmatamento, o grupo usou um modelo preditivo do pesquisador Britaldo Soares Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, publicado em 2006, também na Nature. Apesar de antigo, o modelo é um dos únicos que faz uma conta para toda a Pan-Amazônia, contabilizando a perda de vegetação não só no Brasil, mas também na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname.

É importante lembrar que houve mudanças na taxa de desmatamento desde então, sobretudo no Brasil, que teve queda radical a partir do primeiro governo Lula, em 2002 (queda essa interrompida durante os anos Temer e Bolsonaro). “Colocamos cenários com variações para mais e para menos”, explicou Hirota. “Mas as variações de governo não foram computadas.”

Para o biólogo Bernardo Flores, da Universidade de Santiago de Compostela, que também assina o artigo, o estudo reafirma a importância da luta contra a depredação da Amazônia. “O desmatamento é mais fácil de controlar. O aquecimento não”, explicou. ”Já estamos praticamente no valor de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Mesmo controlando as emissões de combustíveis fósseis, o efeito de uma eventual melhora virá a longo prazo. Por isso, o estudo deixa claro que é importante manter a Amazônia bem longe desses 22% de supressão da vegetação. E isso se faz combatendo a grilagem, o fogo, o crime organizado, com muita governança local.”

O estudo, que também é assinado pelos pesquisadores Nico Wunderling, Boris Sakschewski, Johan Rockström e Arie Staal, lembra que a savanização da Amazônia comprometeria a segurança hídrica de regiões fundamentais para a agricultura no continente, como o sul do Brasil, a Bolívia, o Paraguai e a bacia do Rio da Prata, na Argentina (além, claro, de ter repercussão no clima mundial).

“As promessas dos governos brasileiro e de outros países sul-americanos de acabar completamente com o desmatamento na Amazônia até o final desta década são o passo certo para atender a essa necessidade”, diz o texto, em tom alarmista. “No entanto, não está claro se e em que extensão elas serão cumpridas”.

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