O silêncio como responsabilidade ética. Artigo de Thiago Gama

Foto: Evgeni Tcherkasski/Unplash

03 Mai 2026

“Há algo que a perplexidade partilhada com Isabelle Stengers me ensinou, é que certas conversas não se concluem com um ponto final. Elas se prolongam nas hesitações que decidimos sustentar. E, às vezes, a genialidade está em saber quando calar e deixar que a floresta fale – ou que os que a conhecem falem por ela. Uma europeia me deu uma das maiores lições de decolonialidade que eu poderia ter em muito tempo. E vindo de Bruxelas, isto não é pouca coisa.”

O artigo é de Thiago Gama, mestre e doutorando do Programa de Pós-graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Eis o artigo.

A filosofia de Isabelle Stengers não se parece com um edifício de respostas. Ela se parece mais com uma floresta: um ecossistema conceitual onde cada ideia só se sustenta em relação com outras, onde o que importa não é a altura das copas, mas a qualidade do solo compartilhado.

Stengers nasceu em Bruxelas, em 1949, numa família de historiadores — seu pai, Jean Stengers, foi um dos mais respeitados medievalistas belgas. Mas, em vez de seguir o ofício paterno, ela escolheu a química. Formou-se na Universidade Livre de Bruxelas e logo se viu lançada num dos debates mais vertiginosos da ciência do século XX: o problema da irreversibilidade do tempo na termodinâmica. Foi aí que conheceu o físico-químico russo-belga Ilya Prigogine, com quem escreveria, em 1979, La Nouvelle Alliance, um livro que sacudiu as fronteiras entre ciências duras e humanidades ao propor que o universo não é uma máquina determinista, mas um sistema aberto, criativo, onde a seta do tempo não é ilusão — é condição de possibilidade da vida.

Essa aliança entre química e filosofia marcaria toda a sua trajetória. Stengers tornou-se professora de Filosofia da Ciência na Universidade Livre de Bruxelas e, ao longo de quatro décadas, construiu uma obra que desafia qualquer classificação disciplinar. Doutorou-se com uma tese sobre o filósofo inglês Alfred North Whitehead, cujo pensamento processual — uma metafísica que leva a sério o devir, a criatividade e a interdependência de todas as entidades — se tornaria o subsolo de sua própria invenção conceitual. Mas Stengers jamais se contentou em ser uma comentadora. Ela fez do pensamento de Whitehead um operador para intervir no presente: um presente assombrado pela catástrofe climática, pela captura capitalista de todas as esferas da vida e pela pretensão das ciências de falar em nome da realidade.

É desse engajamento que nasce, em 1997, a proposição cosmopolítica. Não se trata de uma teoria — Stengers insiste nisso —, mas de uma proposição: um gesto que se oferece aos praticantes, nos seus respectivos terrenos, como uma ferramenta para desacelerar o raciocínio e abrir espaço para o que ela chama de “hesitação compartilhada”. A cosmopolítica não diz “o que fazer”. Ela pergunta: “Quem mais está concernido?” Ela convoca o idiota — figura conceitual que Stengers toma de empréstimo a Deleuze —, aquele que, diante da evidência consensual, levanta a mão e diz: “Mas... e a floresta? E os rios? E os mortos? E os que ainda não nasceram?” A cosmopolítica é, portanto, uma arte de compor mundos com aqueles que, na política tradicional, não têm assento à mesa — incluindo os não humanos.

Essa proposta desdobrou-se em duas outras formulações centrais: a ecologia das práticas e a intrusão de Gaia. A primeira é um modo de pensar as práticas humanas — científicas, técnicas, terapêuticas, políticas — como ecossistemas que precisam de condições para prosperar, e não como meros instrumentos a serviço de fins. A segunda é uma advertência: Gaia, nome que Stengers retoma de James Lovelock, não é a Mãe Terra benevolente, mas uma potência de resposta que, diante da devastação, começa a agir de maneira imprevisível, indiferente às nossas justificativas. Em No Tempo das Catástrofes (2009), ela diagnostica que o capitalismo se tornou uma "feiticeira" capaz de capturar inclusive a resistência, transformando-a em mercadoria. Resistir a essa feitiçaria exige, para ela, não a aceleração da crítica, mas o ralentissement — uma desaceleração que restitua a sensibilidade ao que está sendo destruído.

É justamente essa filósofa — que recebeu o Grande Prêmio de Filosofia da Academia Francesa em 1993 e o Prêmio Ludwik Fleck em 2013 — que, em março de 2026, respondeu a um jornalista brasileiro com uma recusa que vale mais do que muitas concessões.

É preciso que se entenda: o que se segue não é uma entrevista. É o relato de um diálogo que fracassou para melhor renascer; uma negociação tensa entre a urgência das perguntas e a recusa de ocupar o lugar da autoridade que resolve. Stengers não respondeu às questões que lhe foram endereçadas. Ela as devolveu, transmutadas, como quem devolve uma semente à terra certa. E, no fim, retirou-se com uma elegância que é também uma lição: “São aqueles que sabem se comunicar com a floresta que devem ser consultados — não uma filósofa europeia!” O que emergiu desse encontro foi uma aula que habitou o silêncio — e que, ao devolver a palavra àqueles que conhecem a floresta por dentro, revelou que a genialidade pode estar precisamente em saber quando calar.

Há gestos que, em filosofia, valem mais do que tratados. Durante a preparação de um diálogo para o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), procurei Isabelle Stengers com a fome de respostas de um historiador diante da catástrofe planetária iminente. Saí do encontro com algo mais raro: a arte de hesitar com rigor. Ou seria um ato de contemplação?

A primeira abordagem foi, admito, desastrosa. Elenquei sete perguntas dramáticas sobre a invasão do território Yanomami, a escalada bélica contra o Irã, o massacre em Gaza, a captura algorítmica das subjetividades. Pedia que uma pensadora belga da cosmopolítica me dissesse “o que fazer” diante do fim do mundo. A resposta de Stengers foi um espelho: "Merci pour votre confiance mais vos questions sont trop lourdes et graves pour que je me sente capable de répondre. Mon métier de philosophe est de fabriquer des problèmes… Je suis désolée de vous décevoir.”

Ela não recusou o diálogo. Recusou o lugar de “respondente das urgências do mundo” que eu lhe atribuía. Disse, com elegância, que repetir a aceleração que eu pretendia combater era justamente o que eu fazia ao exigir soluções imediatas para questões que pedem desaceleração. Compreendi: meu pedido de socorro intelectual era, ele mesmo, sintoma da lógica que me afligia.

 

Recuei, então, em silêncio. Mas não quis desistir. Dias depois, ofereci não mais perguntas, mas uma cena – uma imagem concreta da perplexidade que atravessa o Brasil profundo. Descrevi o Centro de Referência Xapori, na Terra Indígena Yanomami, onde uma antena Starlink permite a um enfermeiro realizar tele-expertise que arranca uma criança da malária, enquanto a poucas centenas de metros o mesmo sinal coordena a logística do mercúrio que envenena os rios. Cuidado e extermínio partilham a mesma frequência.

O jovem Yanomami que vigia seu território com um smartphone está capturado numa alça em que a ferramenta da sobrevivência também dissolve seu mundo. A floresta, eu disse, tornou-se uma interface. Dessa vez, Stengers aceitou partilhar a perplexidade. Mas sua resposta – genial na recusa final – deslocou tudo. Transcrevo-a livremente, traduzindo o espírito do que ela escreveu:

Meu silêncio traduz minha perplexidade. A cena que você descreve já deve ter sido objeto de muitas discussões e hesitações. Somente a maneira como essa perplexidade for desenvolvida poderá partilhar essa questão que, de outro modo, se torna uma “alternativa infernal”: como habitar a catástrofe quando o instrumento da proteção é indissociável do aparelho de captura? A tele-expertise que você chama de “vital” será mesmo? É certamente um “progresso”, mas a palavra progresso é extraordinariamente perigosa. Além dos dois extremos – pilhagem e acesso à expertise médica –, é a própria floresta que se abre à comunicação. E são aqueles que sabem se comunicar com a floresta que devem ser consultados, parece-me. Não uma filósofa europeia!

Aí está o golpe da mestra. Diante do emaranhado técnico-ontológico que eu lhe oferecia, Stengers não ofereceu uma solução, mas uma instrução de método: é preciso consultar aqueles que sabem falar com a floresta. A filósofa europeia declina não por modéstia, mas por precisão cosmopolítica. Ela reconhece que seu pensamento encontra um limite onde a floresta deixa de ser metáfora e se torna interface – e que, nessa fronteira, a palavra legítima não pertence à filosofia que habita as universidades do Norte.

Essa saída é, ao mesmo tempo, um diagnóstico cortante. Sugere que a categoria “progresso” embutida na tele-expertise não é neutra: ela abre a floresta à comunicação global, mas sob o risco de transformá-la definitivamente em recurso. O convite para desacelerar não está apenas no tempo da reflexão, mas na localização do saber: há conhecimentos que não se deixam traduzir sem violência para os termos da epistemologia ocidental. Stengers me devolveu a responsabilidade de procurar, entre os Yanomami, entre os que vivem a ambivalência da conectividade na carne, os verdadeiros interlocutores do problema. A lição que fica para nós, que pensamos o Sul Global a partir do jornalismo de ideias, é dupla. Primeiro, que a aceleração não se combate com mais respostas rápidas, mas com uma arte de formular problemas que não esmaguem quem os escuta – e, principalmente, quem os vive. Segundo, que há momentos em que a maior contribuição de um pensador é recusar o pedestal de autoridade e apontar para a floresta, dizendo: perguntem a eles.

Há algo que a perplexidade partilhada com Isabelle Stengers me ensinou, é que certas conversas não se concluem com um ponto final. Elas se prolongam nas hesitações que decidimos sustentar. E, às vezes, a genialidade está em saber quando calar e deixar que a floresta fale – ou que os que a conhecem falem por ela. Uma europeia me deu uma das maiores lições de decolonialidade que eu poderia ter em muito tempo. E vindo de Bruxelas, isto não é pouca coisa.

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