22 Abril 2026
Chuvas e secas extremas causam desastres, matam gente e provocam perdas anuais de aproximadamente R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro — e a conta está crescendo. Em contraste, o gasto climático representa apenas 1% do orçamento total das despesas primárias e dos gastos tributários federais no período de 2019 a 2024.
A informação é publicada por ClimaInfo, 21-04-2026.
Estas são algumas das mensagens de dois estudos relacionados, produzidos pelo Centro Internacional Celso Furtado (CICEF), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), destaca Daniel Chiaretti no Valor, em matéria repercutida pelo Jornal O Sul. A análise “Impactos Econômicos de Eventos Extremos no Brasil e o Custo das Mudanças Climáticas” mostra o quanto o Brasil perde com desastres ambientais associados à chuva e à seca. Já o relatório, “Orçamento Climático Nacional”, mostra os impactos da omissão no enfrentamento da crise climática no crescimento econômico, saúde pública, infraestrutura e arrecadação federal.
Os estudos indicam que, se o aumento da temperatura global chegar a 2°C — o limite máximo do Acordo de Paris —, o PIB do país pode perder cerca de R$ 145 bilhões anuais, e as perdas serão maiores nas cidades diretamente atingidas por secas extremas. Já os custos da inação saltariam de R$ 48,1 bilhões para R$ 84,5 bilhões por ano, caso o aquecimento atinja esse patamar.
Municípios que sofreram eventos extremos de seca apresentam, em média, perdas de 2% do PIB e de impostos incidentes sobre produtos. O efeito persiste por cinco anos após o desastre. Na agropecuária, as perdas de valor adicionado (diferença entre o valor final de vendas e o custo dos insumos) são de mais de 7,5% nos dois primeiros anos e de 5% nos anos posteriores. Setores industriais e de serviços apresentam perdas de 1,5% e 2,5% ao ano, na média, entre o ano do desastre e os cinco anos posteriores.
Em cidades que sofreram eventos de chuvas extremas, a queda do PIB, em média, é de 1% no ano do desastre. A agropecuária, de novo, é o setor que mais perde — 3% ao ano no valor agregado. O número de feridos e doentes aumenta 126%, o de desalojados, 66%, e os danos materiais, 440%.
Quando se trata de adaptação climática, o Brasil continua reativo e não se antecipa, reforçam as pesquisas. Pior: enquanto o país tenta adotar um “orçamento verde” para alinhar o planejamento fiscal às metas do Acordo de Paris, há incoerência entre o planejamento estatal e as políticas climáticas. Afinal, uma parcela importante das renúncias fiscais beneficia atividades desfavoráveis à emergência climática — como os subsídios aos combustíveis fósseis.
“Os gastos negativos para o clima são superiores aos positivos. Todo esforço que está sendo feito em clima pode estar sendo anulado pelos incentivos fiscais desfavoráveis”, reforça Camila Freitas, doutora em políticas públicas e integrante do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (GEMA), da UFRJ, que fez os estudos.
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