“Os ocidentais consideram Israel parte deles, o que os leva a isentá-lo de qualquer crítica”. Entrevista com Sophie Bessis

Fonte: Unsplash

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16 Abril 2026

No fim de La civilización judeocristiana: historia de una impostura (Editora Gatopardo), Sophie Bessis (Tunísia, 1947) explica que seu livro é uma tentativa de reatar laços “frente às exclusões mortais que os líderes identitários do Norte e do Sul propõem a seus povos”. Muita dessa luz transparece nas aproximadamente cem páginas deste breve ensaio, que coloca em perspectiva o uso oportunista de um termo que, por meio da repetição constante, foi integrado ao discurso político e adentrou em parte da opinião pública como apenas mais uma realidade.

A entrevista é de María Valderrama, publicada por La Marea, 14-04-2026. A tradução é do Cepat.

Bessis, que dedicou toda sua vida a estudar as relações entre as nações do Norte e do Sul, bem como a história das mulheres, com vários livros fundamentais sobre o mundo árabe e o feminismo, agora, desmantela o mito que serviu a causas antagônicas para nos lembrar qual é o fim último dos nacionalismos: “Este termo corresponde a uma vontade de fechamento, e todos os nacionalismos têm como paradigma essencial a rejeição da alteridade”, argumenta a autora em entrevista ao jornal La Marea.

Eis a entrevista.

Você nasceu na Tunísia, em uma família judia. Em que medida essa experiência pessoal influenciou sua decisão de escrever este livro?

Minha origem, sem dúvida, tem importância. Há muito tempo me interesso por questões relacionadas à tragédia palestina, ao conflito entre israelenses e palestinos e ao lugar do judaísmo no imaginário ocidental. Já havia abordado a questão judaico-cristã em um livro que escrevi há 25 anos, Occidente y los otros: Historia de una supremacía. Agora, retomei o tema de forma detalhada. Dito isto, nem tudo o que escrevo está diretamente vinculado às minhas origens.

O subtítulo do livro denuncia a impostura do termo “civilização judaico-cristã”. Por que falar em impostura?

O termo “judaico-cristão” existe há muito tempo no âmbito teológico e nos estudos acadêmicos, e faz sentido: o cristianismo surge do judaísmo. O que questiono é seu salto à linguagem cotidiana e a fórmula “civilização judaico-cristã”. Não acredito na existência de uma civilização judaico-cristã, e é isto que me parece uma impostura.

Existe uma civilização europeia, isto é óbvio, e dentro dela existem o judaísmo e o cristianismo, mas existem tantas outras coisas que reduzi-la a judaico-cristã é um erro total. Quando os dirigentes ocidentais usam hoje esta expressão, é simplesmente outro nome que dão à civilização ocidental. Aí reside a impostura.

Em que momento ocorreu esse salto para o discurso popular?

Por volta do início dos anos 1980, embora nunca haja datas exatas. Naquela época, assistimos ao fracasso do grande messianismo laico que foi o comunismo, traduzido no desaparecimento da União Soviética, no início dos anos 1990. E também a um retorno do religioso, nos três monoteísmos, em suas formas mais extremistas: o islamismo político e jihadista, os movimentos evangélicos, no cristianismo, e o extremismo religioso no judaísmo. A linguagem política abandona progressivamente suas referências laicas para adotar referências religiosas, e a irrupção do termo “civilização judaico-cristã” se situa nesse contexto.

O curioso é a facilidade com que foi assimilado pela opinião pública como algo evidente. No livro, você aborda como essa ideia distorce as relações históricas entre cristianismo, judaísmo e islamismo, ocultando o papel do islamismo na cultura europeia.

O que questiono são três usos dessa fórmula. O primeiro: se alguém é judeu-cristão, não pode ser antissemita, então, a expressão oculta quase 2.000 anos de antijudaísmo cristão e de antissemitismo moderno na Europa. Durante séculos, esse antijudaísmo foi o fio condutor da Igreja, e o antissemitismo racista do século XIX desembocou no genocídio dos judeus da Europa. A Europa tem muita vontade de esquecê-lo.

O segundo uso é o que eu chamo de negação do Oriente pela Europa. A fórmula faz com que a Europa se aproprie do judaísmo, como se ele tivesse nascido no Ocidente. No entanto, em sua origem, o judaísmo é uma religião oriental, assim como o cristianismo e o islamismo. Os três monoteísmos nasceram no Oriente; nenhum no Ocidente.

E a terceira função é relegar o islamismo a uma alteridade total que é falsa. O monoteísmo abraâmico tem três ramos: judaísmo, cristianismo e islamismo. Situar o islamismo fora dessa tradição é um erro histórico. E talvez a Espanha seja o melhor exemplo: neste país, existiu uma civilização judaico-muçulmana da qual nunca se fala. Está completamente excluída do vocabulário europeu.

Você fala sobre como o termo foi explorado tanto pelo sionismo quanto pelo nacionalismo árabe. Como o mesmo termo pode servir a causas antagônicas?

Porque todo mundo o usa, por isso é útil. Esse termo corresponde a uma vontade de fechamento, e todos os nacionalismos têm como paradigma essencial a rejeição da alteridade. É o eixo de qualquer nacionalismo, e é por isso que os nacionalismos geralmente desembocam em sua versão última, que é o fascismo. É o que hoje vemos em todas as partes: na Europa, em Israel, em todos os lugares.

Até os anos 1950, e até um pouco mais tarde, havia cerca de um milhão de judeus no mundo árabe-muçulmano. Hoje, restam apenas algumas dezenas de milhares. A maioria abandonou essa vasta região onde o judaísmo estava estabelecido há séculos, sofrendo muito menos perseguição do que sofreram na Europa.

O nacionalismo árabe, como qualquer nacionalismo, tem pânico da diferença, razão pela qual os judeus foram pouco a pouco sendo considerados como “os outros”. Por isso, acolheram muito positivamente um termo forjado no Ocidente: se a civilização ocidental é judaico-cristã, disseram, nós não temos nada a ver com os judeus. E isto permitiu que empreendessem um trabalho de ocultação da presença judaica na história do mundo árabe.

A criação do Estado de Israel, em 1948, não ajudou em nada, já que Israel se concebe como um Estado ocidental no coração do Oriente. E, para grande desventura dos judeus, hoje, a doxa tende a confundir judeus e israelenses.

Você considera que, após o que está acontecendo em Gaza, essa percepção pode mudar?

Uma das razões para o apoio quase incondicional dos Estados ocidentais ao que aconteceu em Gaza, cuja dimensão genocida é evidente, é que os ocidentais consideram Israel parte deles. E isto os leva a isentá-lo de qualquer crítica. Não ouvi uma única voz oficial criticar a recente lei aprovada pelo Parlamento israelense que restabelece a pena de morte e a reserva somente para os palestinos. É uma lei de apartheid, e nenhum dirigente europeu disse sequer uma palavra a seu respeito.

O problema é que a política israelense atual facilita o antissemitismo, justamente porque tende a confundir israelenses e judeus. Por isso, desde a eclosão da guerra em Gaza, inúmeros movimentos judaicos dizem: “Não em nosso nome. Esta guerra não está sendo travada em nosso nome”. O militarismo israelense, o fato de Israel se conceber apenas como um Estado guerreiro, tem uma incidência muito infeliz na percepção que a maioria possui dos judeus.

Na próxima semana, a Assembleia Nacional Francesa examinará o projeto de “Lei Yadan”, que busca, segundo seus proponentes, frear os novos tipos de antissemitismo. Como você analisa essa medida?

É escandalosa. Assimila qualquer crítica à política israelense ao antissemitismo e introduz uma clara restrição à liberdade de expressão. Se esta lei fosse adotada, Hannah Arendt teria de ir para a prisão: ela era partidária de um Estado binacional, era a favor de uma um lugar judeu, mas contrária a um Estado judeu, e militou pela convivência. Se ela estivesse viva hoje, estaria sujeita à sansão, segundo esta lei.

Não acredito que será adotada. Há uma mobilização real contra: a petição à Assembleia Nacional ultrapassou 500 mil assinaturas, e o Partido Socialista anunciou que não a votará. A extrema-direita provavelmente, sim, e também uma parte da direita. O que ilustra muito bem o paradoxo político que assistimos hoje: o sionismo antissemita.

Há uma porta de saída para essa retórica do choque de civilizações?

Gostaria de poder responder, mas não posso. Não tenho receitas. Tudo o que sei é que essa retórica é mortal e que a única forma de combatê-la é denunciá-la. Que haja movimentos, que haja pessoas dispostas a isso. É o que, na minha posição, tentei fazer com este livro. Mas, de momento, infelizmente, não existe uma fórmula para sair do choque de civilizações.

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