13 Abril 2026
A presidência do Peru será definida em um segundo turno em 7 de junho. Será entre dois candidatos que obtiveram baixo apoio, que não chegaria a 20% segundo duas pesquisas de boca de urna. De acordo com esses resultados não oficiais, mais uma vez Keiko Fujimori estaria na segunda volta. As duas pesquisas de boca de urna a colocam em primeiro lugar, com 16,6% segundo a Ipsos e 16,5% para a Datum. Se os resultados oficiais confirmarem essas projeções, a filha e herdeira política do falecido ditador Alberto Fujimori passaria pela quarta vez consecutiva ao balotagem. Com um alto antivoto do fujimorismo, nas três eleições anteriores, em 2011, 2016 e 2021, foi derrotada no segundo turno.
A reportagem é de Carlos Noriega, publicada por Página/12, 13-04-2026.
Mas, de forma inédita, as eleições não terminaram neste domingo. Continuarão nesta segunda-feira — algo que ocorre pela primeira vez. Por problemas logísticos, o material eleitoral não chegou a 215 mesas em 15 centros de votação em Lima, o que impediu 63 mil eleitores de votar. O total de eleitores é de pouco mais de 27 milhões. Isso gerou caos nos centros de votação durante o dia, indignação naqueles que faziam longas filas por horas sem poder votar, protestos e denúncias de possível fraude. Diante dessa situação, o Júri Nacional de Eleições (JNE) determinou que o processo eleitoral fosse reaberto e que os que não puderam votar no domingo o fizessem na segunda-feira. O anúncio chegou quase duas horas depois de a eleição já ter sido encerrada. Em uma decisão extemporânea, o JNE "exortou" que não se divulgassem resultados oficiais e não oficiais até o fim da votação na segunda-feira. Mas essa decisão chegou quando as projeções de boca de urna já tinham sido amplamente divulgadas.
Com uma margem de erro de três pontos na projeção de boca de urna, seis candidatos estão em empate técnico na segunda posição, com quatro deles com maior chance. As duas projeções os situam em ordem diferente. Os quatro candidatos com maior chance de ir ao balotagem para disputar a presidência com Keiko Fujimori são o esquerdista Roberto Sánchez, o ultraderechista Rafael López Aliaga, o candidato de centro-direita Jorge Nieto e o populista Ricardo Belmont. As diferenças entre eles são estreitas. Outros dois candidatos — o social-democrata Alfonso López Chau e o ator cômico Carlos Álvarez, próximo ao fujimorismo —, que até o final estavam na disputa, ficam mais atrás, com poucas chances, mas com a margem de erro dos resultados de boca de urna não podem ser descartados.
De acordo com o estudo de boca de urna da Ipsos, o segundo lugar é de Sánchez, que reivindica o ex-presidente Pedro Castillo, com 12,1%. Muito próximo o segue Belmont com 11,8%, depois vêm López Aliaga (11,0%) e Nieto (10,7%). Mais atrás aparecem López Chau (7,1%) e Álvarez (7,0%). As posições mudam na projeção de boca de urna da Datum. Em segundo está López Aliaga com 12,8%, seguido de Nieto (11,6%), Belmont (10,5%) e Sánchez (10,0%). Em seguida aparecem López Chau (8,6%) e Álvarez (7,1%).
"Tecnicamente, pela margem de erro de três pontos, do segundo ao sétimo lugar há um empate estatístico", esclareceu Urpi Torrado, diretora da Datum.
Essas eleições foram marcadas por uma alta dispersão do voto entre um número recorde de 35 candidatos. E por um contexto de enorme descrédito da classe política, uma crise de instabilidade com oito presidentes nos últimos dez anos e um processo de retrocesso democrático e de direitos impulsionado por uma coalizão autoritária de direita e ultradireta no Congresso que detém o controle do poder político. Keiko Fujimori e Rafael López Aliaga foram os principais candidatos dessa coalizão parlamentar, batizada como o "pacto mafioso".
A dispersão do voto entre vários candidatos do setor democrático — da esquerda à centro-direita, que não conseguiram se unir para concentrar forças, nem mesmo em dois ou três blocos, e multiplicaram candidaturas — favoreceu Keiko Fujimori para voltar a entrar na segunda volta com baixo apoio. A crise de aumento da criminalidade favoreceu os discursos de mão de ferro da direita.
Aos 50 anos, Keiko Fujimori disputaria pela quarta vez consecutiva a segunda volta. Mas mantém uma alta rejeição — pelo regime autoritário de seu pai e por sua própria conduta política — que já lhe fez perder três balotagens. Em suas duas últimas derrotas não reconheceu os resultados e denunciou uma fraude inexistente, descartada totalmente em ambas as eleições por todos os observadores internacionais. Não surpreenderia que desta vez repetisse a história. Nessas duas ocasiões, boicotou primeiro o governo de Pedro Pablo Kuczynski e depois, com mais ferocidade, o de Pedro Castillo. A partir do Congresso, gerou com sua bancada e seus aliados uma instabilidade política que levou o país a ter oito presidentes nos últimos dez anos. Fez campanha reivindicando a ditadura de seu pai, oferecendo ordem e mão de ferro, propondo a saída da Corte Interamericana de Direitos Humanos. No Congresso, seu partido promoveu e aprovou com seus aliados leis de impunidade para os violadores de direitos humanos e para a corrupção política. Seu pai, cuja gestão autoritária lhe serve de guia, foi sentenciado por crimes de lesa-humanidade e corrupção. Antes de ir votar, foi ao cemitério visitar sua tumba. O momento dessa visita é uma clara mensagem de sua identificação política com o ditador.
Um cenário possível é o de Keiko Fujimori disputando a segunda volta com um candidato de esquerda como Roberto Sánchez, que se apresenta como representante do ex-presidente Pedro Castillo, o que daria uma disputa semelhante à de 2021, ganha por Castillo. Sánchez foi ministro de Castillo e é congressista pelo partido Juntos por el Perú. Segundo as cifras das projeções de boca de urna, ganhou nas zonas andinas e amazônicas, e com muita força no setor rural — ou seja, nos setores mais pobres e marginalizados, como Castillo em 2021. Questiona-se que agora peça o voto em nome de Castillo — o ex-presidente lhe deu seu apoio —, mas não o apoiou quando o Congresso o destituiu, abstendo-se naquela votação. Funcionários do governo de Castillo e familiares do ex-mandatário estão em suas listas para o Senado e para Deputados.
Mas entre os outros cenários possíveis também está uma segunda volta entre duas candidaturas da ultradireira se López Aliaga, conhecido como "Porky", ficar com o segundo lugar. "Porky" coincide com as propostas autoritárias do fujimorismo, que lança com uma linguagem ainda mais agressiva. Admirador de Trump e de Milei, costuma insultar e ameaçar quem o critica. Esteve por um bom tempo em primeiro nas pesquisas, mas no trecho final da campanha começou a cair. Quando começou a perceber que a eleição lhe escapava, denunciou, sem nenhum fundamento, que estaria por vir uma fraude eleitoral contra ele. Aproveitou o problema com a distribuição do material eleitoral para alimentar sua narrativa de suposta fraude caso seja derrotado.
Jorge Nieto é um sociólogo que em sua juventude militou na esquerda e agora se situa na centro-direita — embora ele mesmo se coloque simplesmente no centro. Foi ministro da Cultura e da Defesa de Kuczynski. Nessas eleições defendeu a recuperação da institucionalidade democrática e dos direitos afetados pelo Congresso de direita. Ricardo Belmont, o quarto candidato com maiores chances de ir à segunda volta, é um populista difícil de situar politicamente porque tem um discurso vazio e, em sua longa carreira política — passada em grande parte em postos pouco relevantes, exceto quando foi prefeito de Lima no início dos anos 1990 —, se caracterizou por um oportunismo que o movia entre a direita e a esquerda.
Os mais de 60 mil que votarem nesta segunda-feira o farão conhecendo essas projeções de boca de urna, sabendo as chances dos candidatos — o que pode mudar seu voto original por um voto estratégico.
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