10 Abril 2026
"A tarefa que nos resta, contudo, não é apenas repudiar o mal, mas também construir o bem, em cooperação com todas as pessoas de boa vontade", escreve Sam Sawyer, jesuíta e editor-chefe da America, em artigo publicado por America, 08-04-2026.
Eis o artigo.
A lenta crise constitucional dos Estados Unidos acelerou brevemente em 7 de abril, embora os observadores pudessem ser perdoados por não a terem notado em meio ao caos daquele dia.
À medida que o presidente Donald Trump intensificava seu discurso, passando de ameaças contra a infraestrutura civil do Irã a um alerta apocalíptico de que “toda a civilização do país morrerá esta noite”, muitos parlamentares democratas começaram a pedir seu impeachment ou a invocação da 25ª Emenda para suspender temporariamente um presidente do cargo. (Embora não tenham pedido consequências concretas, alguns legisladores republicanos expressaram sua desaprovação à retórica de Trump.) Os apelos por responsabilização foram em grande parte rejeitados, já que o impeachment exigiria a maioria na Câmara e dois terços no Senado, e o procedimento da 25ª Emenda começa com a maioria dos membros do gabinete declarando o presidente “incapaz de exercer os poderes e deveres de seu cargo”.
Os editores da revista America explicaram por que, em termos de doutrinação sobre guerra justa e direito internacional, as ameaças do Sr. Trump contra a população civil do Irã não podem ser toleradas. Por ora, o risco de as forças armadas americanas receberem ordens para cometer crimes de guerra diminuiu, graças a um acordo de cessar-fogo de última hora. Muitos dos apoiadores partidários do Sr. Trump estão comemorando esse resultado como prova de sua genialidade como estrategista e negociador — o que significa que qualquer possibilidade de responsabilização oficial pelo uso indevido da autoridade presidencial em uma guerra que o Congresso sequer foi consultado para autorizar diminuiu ainda mais.
Nas redes sociais, vários comentaristas apontaram a triste ironia de um presidente que violou tantas normas democráticas e constitucionais ameaçar o fim da civilização iraniana, lembrando a história do oráculo de Delfos que advertiu o rei Creso de que, se atacasse a Pérsia, “um grande império cairia”, como de fato aconteceu com o de Creso.
Duvido que essa justaposição irônica específica se confirme, mas vale a pena refletir sobre o que significa o fato de a democracia americana ter se mostrado incapaz de impedir um presidente de travar uma guerra profundamente impopular e perigosa, exatamente do tipo que ele prometeu evitar durante a campanha. Além disso, o que significa que nosso sistema político, mesmo diante da mais tênue aparência de "sucesso" nessa empreitada militar, provavelmente será incapaz de impor quaisquer restrições significativas ao presidente até, no mínimo, a próxima eleição?
No início de março, participei de uma conferência no Boston College, organizada por Cathleen Kaveny e Gregory Kalscheur, SJ, sobre o Estado de Direito e o bem comum. O evento reuniu especialistas das áreas do Direito e da doutrina social católica para refletir sobre como as normas e instituições jurídicas se relacionam com o florescimento humano.
Um dos temas que emergiu da conferência foi a necessidade de articular nosso compromisso com o Estado de Direito em termos mais substanciais do que o mero processualismo. Em uma sociedade democrática, precisamos ser capazes de explicar, tanto para nós mesmos quanto uns aos outros, como o Estado de Direito e o bem comum se apoiam e se requerem mutuamente. Precisamos também ampliar nossa compreensão de como o direito funciona, passando a vê-lo não apenas como um instrumento de restrição ou punição de atos ilícitos, mas também como um meio de estabelecer as condições para que os seres humanos cooperem como membros da sociedade em um espírito de reciprocidade e amizade, tanto dentro quanto além das fronteiras nacionais.
Infelizmente, os padrões estabelecidos pelo governo Trump estão degradando, em vez de ampliar, nossa compreensão de como funcionam o direito e a política. No início de janeiro, Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, disse: “Podemos falar o quanto quisermos sobre formalidades internacionais e tudo mais, mas vivemos em um mundo… governado pela força, governado pelo poder”. Durante as semanas em que os republicanos no Congresso se recusaram a convocar o secretário de Defesa, Pete Hegseth, para prestar contas sob juramento pela guerra no Irã, ele repetidamente se vangloriou da superioridade das forças militares americanas, enquanto invocava a bênção de Deus para uma agressão desenfreada contra “ fanáticos que buscam capacidade nuclear para um Armagedom religioso”.
Em vez de relembrar aos americanos os valores que os unem e os direitos inalienáveis que o governo se constitui para preservar, o presidente Trump, com sua conduta durante a guerra com o Irã, tem demonstrado como é viver em um mundo governado unicamente pelo poder. Podemos, ao menos, rezar para que ver essa visão em ação seja suficientemente aterrador para nos ajudar a rejeitá-la.
Podemos também ser gratos pelo forte testemunho dado em toda a Igreja Católica pelo Papa Leão XIV, por um número crescente de bispos americanos e por muitos pensadores, líderes e leigos católicos, que denunciam tal dependência da violência e o desejo de dominação como profundamente anticristãos. A tarefa que nos resta, contudo, não é apenas repudiar o mal, mas também construir o bem, em cooperação com todas as pessoas de boa vontade.
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