Santo Agostinho é fundamental para entender a diferença entre Pete Hegseth e o Papa Leão

Imagem de Santo Agostinho na Igreja Dominicana de Sta Maria Minerva em Roma. (Foto: Lawrence OP/Flickr)

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09 Abril 2026

"A questão não é se as Escrituras contêm linguagem violenta. Elas contêm. A questão é se essa linguagem pode ser invocada para santificar e celebrar a destruição de seres humanos. Nesse ponto, a tradição cristã, articulada com particular clareza por Agostinho, é inequívoca: qualquer interpretação que não edifique o amor a Deus e ao próximo não é simplesmente politicamente equivocada. É blasfema", escreve Karen E. Park, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-04-2026.

Karen E. Park, ex-professora de teologia e estudos religiosos no St. Norbert College, é coeditora de American Patroness: Marian Shrines and the Making of US Catholicism.

Eis o artigo.

Após a recente oração do Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, no Pentágono, e a homilia do Papa Leão XIV no Domingo de Ramos, grande parte dos comentários públicos se acomodou em um padrão já conhecido. Um funcionário conservador invocou Deus no contexto da guerra e um papa supostamente liberal o repreendeu. A troca de palavras é então interpretada como uma divergência política ou, no máximo, como um exemplo de como a religião está sendo usada por ambos os lados de um conflito geopolítico.

Essa explicação é inadequada. O que está acontecendo não é uma disputa política, mas teológica, e seus termos são antigos, não modernos. Para entendermos o diálogo público entre Hegseth e Leão, precisamos recorrer a Santo Agostinho.

Para começar, é essencial observar que a oração de Hegseth no Pentágono, amplamente divulgada nos últimos dias, não é original — nem dele, nem do capelão que, segundo ele, a enviou. Trata-se, na verdade, de uma compilação, composta em grande parte por versículos das Escrituras Hebraicas. Sua linguagem se inspira principalmente, embora sem atribuição, nos chamados Salmos imprecatórios — orações que invocam o julgamento divino sobre os inimigos, às vezes em termos violentos.

Hegseth começou sua oração com as palavras: "Deus Todo-Poderoso, que adestra nossas mãos para a guerra e nossos dedos para a batalha". Este verso é retirado diretamente do Salmo 144, que começa: "Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra minhas mãos para a guerra e meus dedos para a batalha". Quando Hegseth pede a Deus que "quebre os dentes dos ímpios", ele está reaproveitando tanto o Salmo 3:7 quanto o Salmo 58:6, ambos referentes a Deus "quebrando os dentes dos ímpios". E quando ele implora: "Derrama a tua ira sobre aqueles que tramam em vão e dispersa-os como palha ao vento", ele está combinando linguagem de até cinco Salmos (1, 2, 35, 69 e 79), ao mesmo tempo que consegue adicionar a linguagem decididamente moderna de "dispersá-los". Há mais, mas esses exemplos bastam.

Os Salmos imprecatórios estão entre os textos mais difíceis da Bíblia, razão pela qual, durante milênios, foram interpretados pelos cristãos através de uma hermenêutica teológica particular. Desde o primeiro século, a tradição cristã não os tratou como meros apelos à vingança. Nas palavras de Orígenes de Alexandria (c. 185-c. 253) em Primeiros Princípios , "Pela história das guerras, dos vencedores e dos vencidos, certos mistérios são indicados àqueles que são capazes de testar essas afirmações."

Para Hegseth, porém, não há mistérios, nem sutilezas. Os inimigos dos EUA tornam-se os inimigos literais de Deus, e os clamores do salmista por justiça divina transformam-se em uma autorização direta para uma violência militar extraordinária.

Em suas Exposições sobre os Salmos, Agostinho confronta os Salmos imprecatórios e insiste que eles não podem ser lidos como endossos ao ódio ou à crueldade para com outros seres humanos, pela simples razão de que, então, não seriam de Deus.

"Aprende nossas mãos para a batalha e nossos dedos para a guerra" refere-se, segundo Agostinho, à conquista de nossos inimigos por meio de obras de misericórdia e caridade. E os apelos a Deus para quebrar os dentes do inimigo não se referem à violência física, mas ao silenciamento do mal e das palavras destrutivas.

Dentro da tradição cristã, os Salmos falam em um registro espiritual, não literal. Os apelos à violência não se referem a batalhas militares ou inimigos humanos, mas aos inimigos dentro da alma humana: o pecado, a injustiça e os amores desordenados que deformam nossa vontade.

Quando o salmista clama por destruição, Agostinho interpreta isso como a destruição do vício, não dos seres humanos em batalha. Sua exegese, portanto, não é um "abrandamento" dos Salmos imprecatórios; representa uma interpretação robusta, fundamentada na afirmação teológica mais essencial de Agostinho: que Deus é amor tornado visível em Cristo.

Em Sobre a Doutrina Cristã, Agostinho articula essa afirmação claramente em sua aplicação às Escrituras: "Quem pensa que entende as Sagradas Escrituras, ou qualquer parte delas, mas lhes atribui uma interpretação que não contribui para edificar esse duplo amor a Deus e ao próximo, ainda não as compreende como deveria."

Na tradição cristã, a linguagem violenta encontrada nos salmos imprecatórios jamais pode ser separada do mandamento de Jesus de amar os inimigos. Portanto, as Escrituras nunca podem, como faz Hegseth, ser usadas para santificar o ódio, mesmo quando esse ódio está disfarçado com a linguagem da justiça ou da defesa nacional. Qualquer cristão que reze esses salmos deve fazê-lo consciente de que seu significado último é a transformação do eu, não a destruição do outro.

A homilia de Leão no Domingo de Ramos também deve ser lida dentro dessa perspectiva agostiniana. Sua repreensão a Hegseth, extraída do livro de Isaías, afirma que Deus "não ouve as orações dos guerreadores, mas as rejeita, dizendo: 'Ainda que multipliquem as suas orações, eu não as ouvirei, porque as suas mãos estão cheias de sangue'" (Isaías 1:15). Diferentemente de Hegseth, Leão não se limita a escolher passagens das Escrituras que apoiem suas convicções políticas — ele, assim como Agostinho, interpreta toda a Escritura sob a mesma ótica.

A resposta de Leão a Hegseth não é primordialmente política, mas sim teológica. Ele fala sobre guerra e violência como o agostiniano que é, baseando-se numa tradição que insiste, sem exceção, na primazia da caridade e da misericórdia em todo uso e interpretação das Escrituras. Dentro da tradição cristã, tal como formada e moldada por Agostinho, qualquer oração que peça a Deus para destruir os inimigos, enquanto se deixam intactas as estruturas de ódio e violência dentro de si, representa uma incompreensão fundamental da natureza de Deus.

A questão não é se as Escrituras contêm linguagem violenta. Elas contêm. A questão é se essa linguagem pode ser invocada para santificar e celebrar a destruição de seres humanos. Nesse ponto, a tradição cristã, articulada com particular clareza por Agostinho, é inequívoca: qualquer interpretação que não edifique o amor a Deus e ao próximo não é simplesmente politicamente equivocada. É blasfema.

Esta reportagem faz parte da série especial "A Guerra no Irã". É possível ver a série completa aqui.

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