Reabrir um estreito que já estava aberto: por que Ormuz é a moeda de troca decisiva do Irã nas negociações para o fim da guerra

Estreito de Ormuz. (Foto: Goran_tek-en/Wikimedia Commons)

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09 Abril 2026

"O erro estratégico de Donald Trump deu a Teerã um trunfo que antes lhe faltava: o controle do Estreito de Ormuz, que se tornou sua principal arma na guerra"

O artigo é de Jesus A. Nuñez, publicado por elDiario.es, 08-04-2026.

Jesus A. Nuñez é economista, oficial militar (aposentado). Codiretor do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH).

Eis o artigo. 

O alívio gerado pelo anúncio do Paquistão de uma cessação temporária das hostilidades é compreensível, visto que o país se encontrava à beira do colapso, ameaçando desmantelar o que restava do direito internacional — um direito que tanto Israel quanto os Estados Unidos têm violado sistematicamente, chegando a declarar abertamente sua intenção de cometer crimes de guerra. Contudo, seria prematuro presumir que esse acordo levará diretamente a um tratado de paz que ponha fim à agressão israelense-americana e satisfaça plenamente um regime iraniano ainda mais radicalizado do que antes.

Por mais que tentem com sua máquina de propaganda, os agressores não conseguiram atingir nenhum de seus objetivos. Claramente, independentemente da situação pessoal de Mojtaba Khamenei, o regime está muito mais fraco hoje; mas mantém capacidade suficiente para manter sua própria população sob controle e para responder eficazmente a ataques vindos do exterior, aumentando o custo não apenas para os países vizinhos, mas para todo o planeta.

Seu programa nuclear também não foi eliminado, apesar de inúmeros ataques, incluindo os das bombas GBU 57-B americanas, que não conseguiram penetrar nem mesmo as instalações subterrâneas mais profundas. Tampouco perdeu os cerca de 400 quilos de urânio altamente enriquecido que acumulou nos últimos anos. Por fim, é evidente que mantém um número suficiente de mísseis e drones para atingir alvos tanto em Israel quanto em bases americanas na região, bem como no território de seus vizinhos árabes.

Pior ainda, o erro estratégico de Donald Trump deu a Teerã uma vantagem que antes lhe faltava: o controle do Estreito de Ormuz. Essa vantagem tornou-se sua melhor moeda de troca no que promete ser uma negociação prolongada.

A principal arma de Teerã

Antes de 28 de fevereiro, cerca de 120 navios transitavam livremente pelo Estreito de Ormuz diariamente, enquanto hoje esse número mal chega a dez, e sempre com permissão prévia de Teerã, que, para piorar a situação, está em posição de exigir um pedágio que pode chegar a dois milhões de dólares por embarcação. Para alguém que tem plena consciência de sua inferioridade militar em relação aos inimigos, esse controle — e não o fechamento — tornou-se sua principal arma, e seu valor aumenta na mesma proporção que o desespero de Trump em encontrar uma saída elegante para o imbróglio que ele mesmo criou junto com Benjamin Netanyahu.

Seu controle permite que prejudique seriamente os interesses de todos os países localizados no Golfo Pérsico e, na verdade, os de todo o planeta. E para isso, não precisa bloquear completamente a passagem ou destruir todos os navios que ousam desafiar a vontade de Teerã.

— Jesus A. Nuñez

O Estreito de Ormuz não é apenas um ponto de trânsito; é importante considerar que a viagem do Kuwait até este estreito é de aproximadamente 1.500 quilômetros. Isso significa que, a partir de uma costa que está sempre a menos de 100 quilômetros dessa rota de trânsito, o Irã tem inúmeras oportunidades de interromper o tráfego marítimo usando uma variedade de meios, desde sua artilharia costeira até drones — aéreos, de superfície ou subaquáticos —, foguetes, mísseis, barcos, embarcações costeiras e, claro, minas.

Seletivamente, basta que ele deixe claro que pode afundar um deles para provocar pânico entre armadores e seguradoras internacionais, gerando um impacto global.

O futuro

Consequentemente, olhando para um futuro que aponta para negociações acirradas, é altamente improvável que o Irã abra mão imediatamente de sua carta mais forte. Seus líderes sabem que não derrotarão seus inimigos pela força e também estão cientes de que precisam do alívio das sanções internacionais para evitar um colapso interno, com uma população que já demonstrou amplamente seu cansaço com a corrupção desenfreada e a repressão a qualquer tipo de dissidência.

— Jesus A. Nuñez

Dado que seus aliados regionais estão enfraquecidos e suas próprias capacidades estão visivelmente diminuindo, não é surpresa que Ormuz esteja ganhando ainda mais importância como rota preferencial para a manutenção do poder, tornando menos provável que ele permita a livre passagem sem nada substancial em troca — presumindo que não haverá uma cessação real dos ataques contra seu território. Além disso, sua ambição deve incluir ser reconhecido como o guardião do estreito, com o poder de estabelecer um direito de passagem, cobrado como pedágio, o que lhe renderia receitas consideráveis.

Em todo caso, Trump permanece preso a uma visão equivocada que o leva a crer que, se atacar com mais força, conseguirá a rendição incondicional do Irã. Portanto, supondo que o que vimos até agora não tenha incitado a resistência iraniana, não podemos descartar a possibilidade de que os EUA decidam ir além, empregando meios ainda mais poderosos e atacando sem limites. E, sem dúvida, o mesmo pode ser esperado de Netanyahu, que não participou do acordo e não se sente obrigado a moderar sua postura beligerante.

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