Como pensar o aceleracionismo em um mundo que já acabou? Entrevista especial com Ricardo Evandro Martins

Para o professor e pesquisador da UFPA, reterritorializar o debate sobre o acelaracionismo em termos amazônidas inaugura um amplo espectro de questões incontornáveis de nosso tempo

Foto: Anadolu Agency

09 Abril 2026

O chamado aceleracionismo, em sua versão mais ou menos conhecida, caracteriza-se por ser um pensamento, de certo modo escatológico, de que haverá algo melhor depois do fim. “O aceleracionismo é um conjunto de ideias pelo qual se defende que os processos históricos próprios ao progresso tecnocientífico do capitalismo, desde ao menos a Primeira Revolução Industrial, não devem ser interrompidos, mas justamente acelerados com o objetivo determinístico de garantir o esgotamento de seu modelo de produção de mercadorias e de sujeitos”, explica Ricardo Evandro Martins, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Mas o aceleracionismo pensando por Martins, e outros pensadores e habitantes do Norte brasileiro, é de outra ordem. “Um Aceleracionismo Amazônico pode ser um conjunto de ideias, uma imaginação artística, uma ficção científica ‘amazônido-futurista’, enfim, uma teoria crítica marcada não só por uma questão ‘identitária’ localizada, feita por pesquisadores localizados, mas também marcada sobretudo pela preocupação em refletir criticamente a floresta em ameaça, com seus povos, com suas culturas, suas tradições espalhadas em diversas identidades, suas ciências e tecnologias, arquiteturas, com suas histórias, com sua fauna e com seus sonhos despertos ou não”, descreve o entrevistado.

Há na bifurcação aceleracionista um ramo que dá suporte e munição para o radicalismo de direita, porém, sua outra versão está mais engajada com novas possibilidades de mundo. “O Aceleracionismo Amazônico pretende, então, ser um aceleracionismo de esquerda, nos passos de Fisher, pois procura fazer uma ontologia do presente, crítica da noção de que o futuro está cancelado, de que não haveria outros mundos e temporalidades possíveis, enfim, crítica ao ‘realismo capitalista’ enquanto ideologia”, ressalta.

“Pois o que gostaríamos de saber, daqui, da Amazônia, contudo, é: De que modo o território amazônico é afetado pela aceleração de sua desterritorialização capitalista, iniciada com a invasão colonial ibérica? E em que medida a Amazônia e seus povos têm a contribuir para esta discussão cheia de tantos paradoxos teológico-políticos e temporais? Como se pode pensar um aceleracionismo num território em que o fim do mundo já ocorreu?”, provoca Martins.

 

Ricardo Evandro Santos Martins (Foto: Arquivo pessoal)

 

Ricardo Evandro Martins é professor da Universidade Federal do Pará na Faculdade de Direito e no Programa de Pós-graduação em Direito Humanos. Ex-assessor técnico no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Advogado, é doutor em Direito pelo PPGD-UFPA, membro do GT de Filosofia Hermenêutica da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia-ANPOF.

Autor de 4 livros publicados: ''Ciência do direito como ciência humana: a influência do neokantismo em Hans Kelsen'' (Editora Fi, 2017); ''Ciência do direito e hermenêutica'' (Editora Phi, 2018); ''Seis ensaios sobre Agamben: calúnia, colonialidade e pandemia'' (Editora Fi, 2020); ''Cinema, direito e biopolítica'' (org., Editora Fi, 2022). Tradutor de Mark Fisher, Dorothy Soelle, Colby Dickinson e de Jacob Taubes.

Confira a entrevista.

IHU – Gostaria de começar com uma pergunta aparentemente simples. O que é aceleracionismo?

Ricardo Evandro Martins – Pude traduzir uma pequena parte do livro publicado no ano passado, chamado Against Progress (Londres: Bloomsbury, 2025), especificamente o capítulo “Aceleração”, em que Slavoj Zizek oferece um conceito interessante de aceleracionismo: “Aceleracionismo, uma forma recente de determinismo histórico, é uma noção cujo núcleo básico não deveria ser confundido com suas diferentes versões e aspectos (neofeudalismo contra democracia igualitária, comunismo da abundância e assim por diante)” (p. 23). Mas acho que este modo de ler o aceleracionismo, no entanto, pode ser melhormente desenvolvido. Pois, antes, é preciso saber sua origem conceitual.

Destaco, então, o importante artigo de Rodrigo Santaella e de Victor Marques, publicado em 2021, de nome Por uma política orientada ao futuro: a provocação filosófica e estratégica do “aceleracionismo de esquerda”. Os pesquisadores resgatam a genealogia do termo na obra de ficção científica de Roger Zelazny, Lord of Light (1967), na qual o termo “aceleracionismo” teria sido pela primeira vez usado, e também dizem que sua estreia acadêmica teria ocorrido na obra de Benjamin Noy, em The Persistense of the Negative (2010, p. 374). Mas acredito que sua ideia filosófica mais fundamental está mesmo presente no famoso O Anti-Édipo (1972), em que Deleuze e Guattari formularam a noção de que se, por um lado, o capitalismo tende para um limiar de descodificação e de desterritorialização (e de reterritorialização também), provocando um “corpo sem órgãos”, por outro, o desafio não seria o de resistir a este processo, mas justamente de acelerá-lo.

Assim, Deleuze e Guattari se perguntam: haverá alguma via revolucionária contra os processos de transformações sociais e subjetivas do capitalismo? Retiramo-nos do mercado mundial ou intensificamos ainda mais a desterritorialização? Isto é, Deleuze e Guattari questionam se temos de evitar os efeitos desestabilizadores da sociedade e dos indivíduos provocados pelo mercado ou se radicalizamos estes mesmos efeitos para produzir seu esgotamento. E eles respondem: “Aguentar-se no processo, ir mais longe, ‘acelerar o processo’, como dizia Nietzsche: na verdade, nós ainda não vimos nada” (Deleuze; Guattari, p. 249).

Em outras palavras, o aceleracionismo é um conjunto de ideias pelo qual se defende que os processos históricos próprios ao progresso tecnocientífico do capitalismo, desde ao menos a Primeira Revolução Industrial, não devem ser interrompidos, mas justamente acelerados com o objetivo determinístico de garantir o esgotamento de seu modelo de produção de mercadorias e de sujeitos. Retomando Noy, para Deleuze e Guattari, o problema do capitalismo não é que ele desterritorialize as relações, os sujeitos, por meio de um “capitalismo desmedido” (Nick Land), mas justamente porque não o desterritorializa o bastante, radical e suficientemente. Assim, não se trata de uma aposta nas contradições imanentes ao capitalismo, mas sim, como dizem Santaella e Marques, “refuncionalizar sua infraestrutura para objetivos pós-capitalistas” (p. 401).

IHU – Uma vez postulado o conceito mais amplo, do que se trata, então, o Aceleracionismo Amazônico?

Ricardo Evandro Martins – Talvez esta questão seja ainda mais complexa porque é preciso fazer algumas explicações prévias até que se consiga formular um conceito de “Aceleracionismo Amazônico” e que faça sentido com o nome do coletivo do qual faço parte, o qual tem publicado ensaios em blog próprio. Logo, explicadas a origem e sua ideia mais geral com a resposta à pergunta anterior, agora posso a tratar da existência de uma certa bifurcação no conceito geral de aceleracionismo: aceleracionismo de direita e aceleracionismo de esquerda.

Enquanto há uma perspectiva, de um lado, em defesa da aceleração daqueles processos de desterritorialização promovidas pelo capitalismo, mas para justamente alcançar a dissolução de suas formas coisificantes, opressoras, em nome da emancipação dos sujeitos num mundo pós-capitalista, que não seja nostálgico da vida pré-industrial, de outro, há uma perspectiva aceleracionista de direita, a qual também busca a aceleração destes mesmos processos, porém, com outra finalidade: a de superdimensionar o capitalismo ao ponto de inaugurar uma era transumana ou, ainda, pós-humana, produzindo uma zona de indistinção entre o corpo humano, com sua organicidade, um ciborgue, de modo que não se poderia mais falar em “humanidade”, mas numa outra entidade, pós-humana, indistinta da máquina.

Sobre tal bifurcação, é válido trazer as passagens originais de dois representantes importantes do que se entende por “aceleracionismo de esquerda” e “aceleracionismo de direita”. À esquerda, temos Mark Fisher, com o seu artigo de nome Um olhar sobre o aceleracionismo (2017), quando diz que “o aceleracionismo é também a convicção de que o mundo desejado pela esquerda é pós-capitalista – que não há possibilidade de retorno a um mundo pré-capitalista e que não há desejo sério de regressar a este mundo, mesmo que pudéssemos” (Fisher, online). E, à direita, no artigo Uma introdução rápida ao aceleracionismo (2017) temos Nick Land ao resumir sua concepção sobre o tema assim: “O aceleracionismo é simplesmente a autoconsciência do capitalismo, que mal começou. ('Nós ainda não vimos nada')”, e ainda critica a esquerda revolucionária, ao defender: “A autodestruição do capitalismo é o que o capitalismo é. ‘Destruição criativa’ é sua totalidade, tirando suas retardações, compensações parciais, e inibições. O capital se revoluciona mais completamente do que qualquer ‘revolução’ extrínseca poderia” (Land, online).

Explicados estes dois tipos de aceleracionismo, passo agora a tratar de uma possível ideia de “Aceleracionismo Amazônico”. Mas antes é preciso fazer pelo menos três ressalvas:

1) que temos interesse em pensar no tema do aceleracionismo a partir da Amazônia, enquanto tarefa feita por pesquisadores amazônidas;

2) que o “coletivo” divulgado virtualmente no blog com o mesmo nome, e que promoveu o Colóquio Mark Fisher: O fim do mundo começa pela destruição da Amazônia, em setembro de 2025, na Universidade Federal do Pará (UFPA), não possui necessariamente uma uniformidade de ideias sobre o tema, tampouco defende de modo geral uma ideologia chamada por “Aceleracionismo Amazônico”. Nossa abordagem sobre o tema é mais crítica que apologética, mais reflexiva do que defensora de um conjunto de preceitos, ainda que tenhamos publicado um texto inaugural, com a intenção provocativa e polemizadora, em pleno decurso da COP30, em Belém, sob autoria do colega Bräulio Rodrigues, intitulado de Manifesto Aceleracionista Amazônico (2025);

3) que temos ciência de que este “Amazônico” adicionado ao “Aceleracionismo” no título do nosso blog é limitado a um grupo de pesquisadores e de pesquisadora, professores e professora das áreas como Filosofia, História, Antropologia, Psicologia e Direito, da cidade de Belém (como Lílian Lobato, Matheus Castelo Branco, Felipe de Campos Ribeiro, Maurício Borba Filho, Bräulio Rodrigues e eu). E, portanto, este grupo é incapaz de representar toda a região Amazônica que, como se sabe, é internacional e diversa em sentidos muitos diversos. Na verdade, nosso “coletivo” é de uma pequena parte da Amazônia, e uma que nasce dentro da universidade pública da Amazônia Oriental urbana.

Dito isso, posso agora tratar de mais duas coisas: que um Aceleracionismo Amazônico pode ser um conjunto de ideias, uma imaginação artística, uma ficção científica “amazônido-futurista”, enfim, uma teoria crítica marcada não só por uma questão “identitária” localizada, feita por pesquisadores localizados, mas também marcada sobretudo pela preocupação em refletir criticamente a floresta em ameaça, com seus povos, com suas culturas, suas tradições espalhadas em diversas identidades, suas ciências e tecnologias, arquiteturas, com suas histórias, com sua fauna e com seus sonhos despertos ou não.

Deste modo, este coletivo pensou e realizou o Colóquio Mark Fisher em memória de um filósofo britânico, sim, mas para pensar suas provocações a partir daqui e enviesadas pelo seu aceleracionismo de esquerda com um problema de partida, e não de chegada, citando, aqui, um outro texto do colega Bräulio Rodrigues, ao criticar o grande evento que ocorreu em nossa cidade, a COP30: Por que é mais fácil pensar o fim da floresta amazônica do que o fim do capitalismo?

O Aceleracionismo Amazônico pretende, então, ser um aceleracionismo de esquerda nos passos de Fisher, pois procura fazer uma ontologia do presente, crítica da noção de que o futuro está cancelado, de que não haveria outros mundos e temporalidades possíveis, enfim, crítica ao “realismo capitalista” enquanto ideologia, mas com foco crítico específico na dimensão colono-capitalista pela qual temos vivenciado desde o século XVII, e que se atualiza enquanto assinatura arqueogenealógica na nossa região em forma de neoimperialismos – quando, por exemplo, há uma suspeita relação entre o garimpo ilegal na nossa região e a Starlink do grupo empresarial de Elon Musk.

Aceleracionismo Amazônico é, enfim, um modo de avançar na crítica ao chamado “realismo capitalista” pensado por Fisher e Frederic Jameson, mas a partir do realismo em que vivemos na região Amazônica, tentando, ao mesmo tempo, dialogar com as sensibilidades antropológicas de possíveis escatologias dos povos indígenas enquanto paradigma, uma vez que, para eles, diferentemente da teologia política eurocentrada, o mundo, ao menos como conheciam antes do capitalismo colonial, já acabou. E já acabou diversas vezes, sendo a colonização, ainda em curso, um destes “apocalipses”. 

IHU – É possível ou desejável escapar de um certo determinismo histórico engendrado pelo conceito de aceleracionismo?

Ricardo Evandro Martins – Sobre isso, é importante dizer que, de minha parte, ao mesmo tempo que me interesso pelo tema do aceleracionismo, e me interesso por pensá-lo a partir do ponto de vista amazônida e com a crítica de Fisher ao realismo capitalista, também mantenho uma postura crítica e dialética ao caráter progressista da agenda aceleracionista, ainda que de esquerda. Penso que mais me parece interessante a dimensão da heterodoxia marxista de Walter Benjamin quanto à necessidade de se colocar um freio na locomotiva histórica determinista do progresso tanto do realismo capitalista ou mesmo sinofuturista. E é por meio desta concepção crítica em relação ao progresso tecnológico que acredito que seja possível e desejável escapar do determinismo histórico aceleracionista de todos os espectros.

E esta minha postura crítica dos aceleracionismo mais especificamente se justifica pelo meu ceticismo quanto à viabilidade de qualquer aceleracionismo quando se pensa a partir da Amazônia. Estou falando aqui do modo como Michael Löwy propõe uma convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista com o objetivo de concretizar “não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis” (Löwy, online).

Assim, mesmo a defesa de Fisher por uma aceleração dos processos de desterritorialização em nome de uma vida pós-capitalista, mas que não seja primitivista, precisa de uma reflexão crítica, quando olhada desde a Amazônia. E de uma reflexão que considere a crítica ecossocialista a toda aceleração. O fim pós-capitalista está em aberto porque precisa também levar em conta a barbárie que os projetos futuristas, mesmo que socialistas, querem nos prometer. De nenhum modo se trata de uma defesa nostálgica e de um romantismo vulgar, melancólico. Mas talvez de um romantismo outro, recepcionado criticamente por Benjamin.

Sobre isso, defende Löwy em Anticapitalismo romântico e natureza: O jardim encantado (2021, p. 115-116): “Benjamin expressa vários topoi [lugares-comuns] clássicos da Zivilisationkritik [crítica à civilização] romântica: a transformação dos seres humanos em 'máquinas de trabalhar', a degradação do trabalho à mera tecnologia, a submissão desesperada dos indivíduos à mecânica social e, acima de tudo, a substituição dos esforços 'heroicos e revolucionários' do passado pela lamentável marcha do progresso, o 'andar da evolução similar ao do caranguejo'. O que esta última observação mais revela é a distorção que Benjamin dá à tradição romântica. A desconstrução da ideologia do progresso não se faz em nome do conservadorismo ou da restauração, mas da revolução. (...) Contra a 'tendência amorfa do progresso' com sua concepção linear de tempo, Benjamin elogia o poder crítico das imagens utópicas, como a ideia da Revolução Francesa de 1789 e o reino messiânico”.

Outro tipo de momento utópico se encontra no 'espírito tolstoiano' de servir aos pobres, que cresceu nas 'ideias dos mais profundos anarquistas e nas comunidades monásticas cristãs'. Em um atalho tipicamente romântico e revolucionário, o passado religioso e o futuro utópico se associam sob a inspiração comum do escritor russo, socialista libertário e cristão".

IHU – Deseja acrescentar algo?

Ricardo Evandro Martins – Sim. Se puder expandir mais um pouco a minha resposta àquela pergunta acerca da possibilidade de sair do determinismo aceleracionista, eu gostaria de lembrar que a “saída” benjamin-löwyniana se depara com um paradoxo: o freio da locomotiva da história do progresso capitalista, que vai deixando destroços para trás, como marcas da barbárie produzida pela civilização colono-imperial, que é racista, escravocrata, patriarcal, bélico-atômica, e que, agora, apresenta-se na sua versão neoliberal, em verdade, é uma interrupção das forças que detêm a vinda messiânico-revolucionária redentora, a qual é, por sua vez, também um “freio de emergência” do movimento acelerado da história burguesa.

Em termos mais simples ainda: a aceleração da desterritorialização capitalista provoca a anomia apocalíptica, ao mesmo tempo que, contraditoriamente, permite a vinda, a oportunidade da força messiânica. Mas isto sob o ponto de vista judaico-cristão. Pois o que gostaríamos de saber, daqui, da Amazônia, contudo, é: De que modo o território amazônico é afetado pela aceleração de sua desterritorialização capitalista, iniciada com a invasão colonial ibérica? E em que medida a Amazônia e seus povos têm a contribuir para esta discussão cheia de tantos paradoxos teológico-políticos e temporais? Como se pode pensar um aceleracionismo num território em que o fim do mundo já ocorreu?

Estas questões ainda estão na esteira do léxico forjado não apenas pela teologia de São Paulo – para quem o tempo “se fez curto”, conforme diz na Primeira Carta aos Coríntios, 7,29). –, mas também por Carl Schmitt, Benjamin, Jacob Taubes, Giorgio Agamben e Massimo Cacciari. O que mais interessa, no entanto, é como podemos colocar em diálogo tal teologia política com o pensamento de Fisher – “esse Walter Benjamin do século XXI”, como disse Amauri Gonzo, na sua "Apresentação" à edição brasileira de Fantasmas da minha vida (2014, p. 12) –, além de outras cosmovisões escatológicas possíveis, sob a perspectiva amazônica.

No início de março de 2026, o filósofo reacionário eurasianista Alexander Dugin publicou um texto no qual propôs uma espécie de “aceleracionismo russo”. Dugin faz uma defesa do governo de Putin e se coloca contra o que ele chamou de “Escatologia de Baal”, ao afirmar que toda a ideologia liberal aceleracionista do Vale do Silício conduz “a Epstein” e suas perversões. Este texto de Dugin ora parece ser em defesa do Kátechon (Segunda Carta aos Tessalonicenses 2,6-7), enquanto força que retém a anomia anticrística aceleracionista, seja de direita, seja de esquerda, ora parece defender um tipo de aceleracionismo regionalizado, um aceleracionismo próprio, um que seja russo – eurasiano e ortodoxo –, pautado por outros termos, contra o liberalismo, contra o sionismo, contra a chamada “agenda woke”, bem como contra a agenda dos tecnocapitalistas do Vale do Silício.

Bem, falando somente por mim, obviamente – mas penso que sem muito desacordo com o coletivo que organiza nosso blog –, penso que o Aceleracionismo Amazônico é nosso objeto de estudo e de crítica, mas que também pode ser reformulado pelo viés do aceleracionismo de esquerda, com Fisher, mas também a partir dele, em diálogo com as perspectivas amazônicas, na crítica ao capitalismo, sem que se renda a algum ideal reacionário ou neorreacionário, supremacista, oligarca e tecno-ocultista, conservador, nem que se renda a algum tipo de insulamento romântico vulgarizado, vítima de um relativismo ingênuo.

O objetivo é pensar a prática da emancipação da Amazônia e de seus povos tradicionais. E, para isto, é preciso ter cuidado com a adesão ao aceleracionismo, mesmo na sua versão “de esquerda”. Pois, se “o futuro é ancestral”, como diz Ailton Krenak, contra a aceleração dos processos de desterritorialização sobre o qual falavam Deleuze e Guattari, ele também poderia alertar: “Quando eu falo em adiar o fim do mundo, não é a este mundo em colapso que estou me referindo. Esse tem uma esquema tão violento que eu queria mais é que ele desaparecesse” (Futuro é ancestral, 2022, p. 21).

Sobre isso, o texto da minha colega Lílian Lobato mostra as diferenças entre a filosofia indígena de Krenak e o pensamento de Fisher: “O ‘fim do mundo’ a que Krenak se refere não se limita a um colapso ambiental: ele simboliza a quebra de um estado ilusório de prazer e consumo que bloqueia a percepção de outras formas de existência. A queda, nesse horizonte, não deve ser temida, mas experienciada como fruição e abertura para criação” (Lílian Lobato, online).

Assim, o Aceleracionismo Amazônico pode abrir espaço para diálogos possíveis com outras cosmovisões. No texto do colega Matheus Castelo Branco, portanto, podemos ver o esforço de se colocar limites ao aceleracionismo a partir da perspectiva amazônida e de seus povos: “O aceleracionismo opera dentro de um quadro que presume a possibilidade e desejabilidade de uma aceleração uniforme dos processos sociais e tecnológicos. As cosmovisões amazônicas, por outro lado, nos lembram que diferentes modos de existência podem demandar diferentes temporalidades, diferentes ritmos, diferentes velocidades” (Castelo Branco, online).

Por isso, penso que seja preciso sempre manter aquilo que Hans Jonas chamou de “heurística do medo” e de “princípio responsabilidade”: uma postura de cuidado, temor, enfim, de crítica mesmo quanto às promessas tecnológicas, com responsabilidade ética para com as futuras gerações e nas decisões técnicas. E do mesmo modo que a Escola de Frankfurt fez sua crítica ao Iluminismo, é preciso também formular uma devida “dialética do aceleracionismo”. Tal dialética pode ser a saída do determinismo histórico sobre o qual falava Zizek acerca do tema. Uma dialética que leve em conta o giro decolonial e, com isto, o fato de que a “aceleração” pode ser apenas mais uma forma de “queda do céu” (Davi Kopenawa), de genocídio, de um fim de um mundo, ou ainda, de mundos.

O debate e a contribuição amazônida sobre o aceleracionismo, portanto, estão em aberto. E o que também está em aberto, até mesmo como modo de se escapar, mais uma vez, do determinismo histórico aceleracionista, é a capacidade amazônica de imaginar outros futuros possíveis, nem que seja por meio do seu negativo distópico, servindo de alerta ético-estético pelo contraexemplo que não roube nossa imaginação redentora e utópica (Ernst Bloch), mas que nos alerte para o futuro com temor (Jonas). Falo aqui de artistas de Belém, como, por exemplo, os que estão pensando o futuro urbano na Amazônia, como pela arte gráfica de Keoma Calandrini, também com sua pesquisa acadêmica sobre o tema, além da literatura de ficção científica, de Clara Gianni. A saída do determinismo histórico aceleracionista pode ser, então, pela ação política organizada, quando nesta prática também se inclui arte e, não se pode esquecer, também a pesquisa acadêmica séria, feita em universidade pública e gratuita, ainda que este espaço se encontre muito propositalmente precarizado por medidas neoliberais – aceleradas.

Umas últimas palavras, enfim: é preciso saber que se pode dar outro uso aos dispositivos, lembrando que o poder é um “trono vazio” (Agamben) porque, como defende Andityas Matos, é de fundo “an-árquico”. O poder, então, traz um fetiche (feitiço) sobre si: esconde sua própria falta de fundamento, ainda que seus efeitos necropolíticos e financeiros sejam bastante concretos, materialistas, com graves consequências subjetivas, psicológicas e físicas. Ainda assim, se conseguirmos fazer a devida crítica aos poderes e ao fetiche que o cercam, inclusive em forma de e em nome de um “aceleracionismo”, então pode ser possível criar novas formas de se viver, de se deixar esgotar alguns mundos obsoletos, cancelando a guerra mundial iminente e o apocalipse ecológico, e dar boas-vindas, a um mundo transmutado, que não é futurista. Mas por vir.   

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