Ciclo de estudos debate protagonismos, silenciamentos e heranças culturais das missões jesuítico-guarani no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A próxima videoconferência ocorre nesta quinta-feira, 09-04-2026, às 10h
Com 400 anos de história, o encontro dos jesuítas com o povo originário Guarani cultivou laços em um cooperativismo mútuo de saberes e construção comunitária. Foi em meio ao Tupambaé que indígenas e jesuítas conviveram, lado a lado, em uma comunidade que dividia os frutos do trabalho, firmando a criação de excedentes agrícolas e a estruturação de uma sociedade com formas próprias de produção e resistência cultural.
O então bispo da Diocese de Santo Ângelo, onde estão localizadas algumas missões jesuíticas no Rio Grande do Sul, Dom Estanislau Kreutz (1928-2014), disse ao refletir sobre essa experiência: “Mais importante que admirar e venerar as pedras e as ruínas que sobraram é perguntar-nos o que esta experiência cristã comunitária de 160 anos tem a ensinar para a nossa sociedade."
Há críticas às reduções que tiraram os povos de um ambiente amplo de florestas, para os incorporarem dentro das comunidades. Em contrapartida, existe a afirmação de que esses espaços possibilitaram a proteção dos povos contra bandeirantes e encomendeiros que assolavam corpos indígenas, sequestrando sua liberdade pelas mãos violentas da escravidão.
Entre troca de saberes e mescla de culturas, jesuítas e guaranis construíram verdadeiros centros econômicos, templos e casas de pedra. Mas, mediante a esses protagonismos, há o apagamento das mulheres em meio ao percurso.
Neste contexto, o ciclo de estudos “Mulheres indígenas e Missões Jesuítico-Guarani. Saberes, memórias e heranças culturais”, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, propõe uma análise crítica sobre as Missões jesuítico-guarani no Brasil meridional e no sul da América Latina, deslocando o foco tradicional para evidenciar o protagonismo, os silenciamentos e as heranças culturais e saberes das mulheres indígenas nesse processo histórico.
Na primeira transmissão do ciclo (vídeo abaixo), o professor e antropólogo Tony Boita mencionou que “dentro do cotiguaçu (casa grande), as mulheres conseguiam manter suas tradições, onde as crianças eram criadas para continuar a sua vivência, sua oralidade e suas manifestações culturais. As mulheres perpetuaram a cultura, resistindo ao contato jesuíta e não indígena”. O especialista dialogou sobre o patrimônio silenciado das mulheres indígenas nas missões, trazendo um olhar crítico sobre os cotiguaçus, que serviam de abrigo, mas, ao mesmo tempo, aprisionavam pessoas vistas como “vulneráveis”.
Nos próximos encontros do ciclo, participam o professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Jean Tiago Baptista, e a professora da Universidade São Paulo (USP), Marina Massimi.
Em seu artigo “Notas sobre a diversidade étnica e patrimonial nas missões indígeno-jesuíticas – ou sobre quando se reduzem diversos povos indígenas a apenas um”, Jean Baptista afirma que “a invenção dos corpos abjetos indígenas, como as ‘mulheres viris’, armadas com arco-flecha e lanças, e os ‘afeminados’ indígenas, conforme expressões jesuíticas, são exemplos do impacto violento da inserção das categorias de gênero e sexualidade ocidentais nas missões”. Em sua participação no ciclo, o pesquisador irá debater sobre as missões jesuítico-guarani referente à colonização de gênero e sexualidade.
A conferência será ministrada nesta quinta-feira, 09-04-2026, às 10h, na página eletrônica do IHU.
Seguindo na temática da sua pesquisa, intitulada “Palavras e almas: as diversas perspectivas dos guaranis e dos jesuítas”, a professora Marina Massimi afirma que o “reconhecimento do valor da palavra oral e de sua capacidade de veicular ideias e modificar condutas representou também um ponto de convergência entre a tradição indígena e a atuação dos jesuítas na América Latina colonial”. Sua palestra trará discussões nessa linha de pensamento, dialogando com seu artigo.
Para quem deseja saber mais sobre as missões jesuítico-guarani, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU publicou a Revista IHU On-Line n. 348, intitulada A experiência missioneira: território, cultura e identidade, onde há um amplo conteúdo sobre as comunidades que se formaram e toda a história que foi semeada a partir das missões.
O quê: Ciclo de estudos Mulheres indígenas e Missões Jesuítico-Guarani. Saberes, memórias e heranças culturais.
Palestras:
Conheça os palestrantes:
Onde assistir: www.ihu.unisinos.br | YouTube do IHU | Facebook do IHU.
Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/mulheres-indigenas