08 Abril 2026
O frade carmelita tem 28 milhões de seguidores em suas redes sociais. Ele personifica um movimento para trazer os católicos de volta à Igreja.
A reportagem é de Naiara Galarraga Gortázar, publicada por El País, 03-04-2026.
Centenas de milhares de brasileiros se prepararam para a Semana Santa com a ajuda do Frei Gilson, um frade católico de 39 anos que se tornou um fenômeno, atraindo um grande número de seguidores tanto online quanto offline. Durante os 40 dias da Quaresma, fiéis de todo o Brasil têm acordado no meio da noite para acessar as redes sociais por meio de seus celulares ou televisões e rezar o terço a partir das 4h da manhã. No primeiro dia desta Quaresma digital, ele atraiu 1,5 milhão de participantes.
O frade faz parte do cotidiano de Roseli Gomes, uma comerciante de 40 anos, há anos. Falando por telefone de sua casa em Pernambuco, ela admite que, para vencer o sono e o cansaço quando ainda está escuro, sintoniza a transmissão na televisão. "É um sacrifício, mas quando você ouve Frei Gilson, sente uma paz interior, sente-se acolhida", diz ela.
Frei Gilson personifica um movimento nascente dentro do catolicismo, um grupo de fiéis que estão retornando à sua fé com renovado fervor. Ele é um sopro de ar fresco para uma Igreja sitiada nas últimas décadas pela ascensão dos evangélicos, que na América Latina estão conquistando tanto convertidos quanto poder político. Por essa razão, esse padre afável e carismático, que joga futebol — um detalhe importante no Brasil —, tem a bênção da hierarquia católica, embora suas ações tenham sido suspensas após um sermão sexista controverso e flertes com o movimento político de Bolsonaro.
Frade da Ordem Carmelita Mensageiros do Espírito Santo — uma ordem relativamente nova —, ele veste um hábito marrom com uma grande cruz no peito, sandálias e tem a cabeça raspada. Anos atrás, deixou a paróquia que liderava em São Paulo para se dedicar à internet, onde construiu uma enorme audiência. Ele explica que nunca teve uma estratégia para ganhar seguidores nem fez grandes investimentos; o sucesso, segundo ele, é uma questão de poder divino.
O fato é que ele acumulou cerca de 28 milhões de seguidores em plataformas de mídia social, incluindo Instagram, YouTube, Facebook, TikTok, WhatsApp e outras. Isso representa um número de seguidores digitais consideravelmente maior do que o do católico mais poderoso e influente do planeta, Leão XIV. O brasileiro teve a oportunidade de cumprimentar o Papa durante uma visita recente ao Vaticano.
“Rezar o terço às quatro da manhã não é exatamente inovador; as ordens religiosas sempre acordam cedo”, observa Tabata Tesser, socióloga e pesquisadora sobre catolicismo no Instituto de Estudos da Religião (ISER). “O que diferencia Frei Gilson é que ele levou a ideia de sacrifício para as redes sociais e a transformou em um fenômeno. Ele combina uma forte devoção mariana com disciplina espiritual e um estilo claro, didático e direto.” No ano passado, ele foi o criador de conteúdo (streamer) mais assistido e ouvido no Brasil (seguido por um comentarista de videogames de guerra e um pastor evangélico).
Frei Gilson durante uma de suas transmissões.
Gilson da Silva Pupo Azevedo nasceu em São Paulo em 1986. Ele mesmo confessou que era um adolescente rebelde, traumatizado pela separação dos pais. Criado em uma família com pouca prática religiosa, a conversão de sua mãe, a descoberta do violão e a vida na favela de Paraisópolis, em São Paulo, mudaram o rumo de sua vida. Quando surgiu sua vocação sacerdotal, ele foi ao encontro da garota por quem era apaixonado desde os 11 anos: "Eu não queria ser padre sem ter vivido o amor", disse ele em um podcast.
Após fazer seus votos como frade, estudou para se tornar sacerdote. Construiu uma carreira seguindo os passos dos primeiros padres cantores brasileiros que, a partir da década de noventa, começaram a lotar estádios.
O frade carmelita é conservador; opõe-se, por exemplo, a casais que vivem juntos sem serem casados. Um sermão de 2025, no qual defendeu a submissão da mulher, gerou uma enorme controvérsia. “A liderança foi dada ao homem, mas a mulher deseja o poder. (...) A guerra dos sexos é pura ideologia, é diabólica. Para curar a solidão do homem, Deus criou você [mulher]. Você nasceu para ajudar o homem”, proclamou ele. Esse sermão também o catapultou para a fama além do mundo católico. O ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro e seu protegido mais influente na mídia, o deputado Nikolas Ferreira, um cristão evangélico, apressaram-se em expressar sua solidariedade a ele.
Seis meses depois, a Conferência Nacional dos Bispos Católicos do Brasil (CNBB) convocou o que chamou de Encontro de Sacerdotes em Missão Digital. Seu objetivo? “Inspirar uma presença digital mais autêntica, criativa e evangelizadora, em sintonia com os desafios do mundo contemporâneo”. A hierarquia católica queria organizar a vasta gama de sacerdotes brasileiros influentes e evitar ser arrastada para o atoleiro da polarização política.
No caso de Frei Gilson, isso envolveu a exclusão de cerca de 30 ou 40 vídeos com declarações consideradas muito ousadas, explica a especialista do Instituto de Estudos Religiosos. “A conferência episcopal aceita que um padre pode ser muito conservador; o que ela não quer é ser associada a nenhum candidato, busca uma certa neutralidade”, acrescenta. Foi aí que terminaram as controvérsias públicas do frade.
Mas Frei Gilson também se manifesta por meio de seus silêncios, observa a socióloga. “Ele evita comentar questões sociais relevantes para a Igreja no Brasil, como meio ambiente, habitação ou o recente estupro e feminicídio de uma freira de 82 anos em um convento.” O frade, que não usa dinheiro nem possui conta bancária devido ao seu voto de pobreza, acaba de comprar um terreno em São Paulo com quatro milhões de dólares recebidos em doações para construir um megatemplo católico, como revelou a Folha de S. Paulo.
Um dos padres mais queridos pela esquerda brasileira, o padre Julio Lancellotti, de 77 anos, defensor ferrenho dos sem-teto (cerca de 100 mil pessoas vagam pelas ruas de São Paulo) e das pessoas transgênero, visitou o frade — "meu querido irmão" — há alguns meses em um gesto de reconciliação. Tiraram uma selfie. O veterano Lancellotti não é estranho a controvérsias. A mais recente resultou em um voto de silêncio imposto pela arquidiocese, que o deixou sem acesso às redes sociais ou à transmissão ao vivo de missas.
Sem dúvida, o fato de o Brasil ser um dos países com a maior população católica do mundo (e seus internautas passarem muitas horas online diariamente) contribui para o sucesso do frade carmelita. Embora a população católica esteja diminuindo, ainda gira em torno de 100 milhões, em comparação com os aproximadamente 47 milhões de evangélicos, cujo número está crescendo, mas em um ritmo mais lento do que o esperado. Desse grupo surgiram propostas ousadas que o Vaticano ou acolheu — como permitir o batismo de pessoas gays e transgênero — ou rejeitou, como autorizar padres casados em lugares como a Amazônia.
Tesser, que investiga as mudanças no catolicismo brasileiro, suspeita que o segredo do carmelita reside na simplicidade de sua mensagem: “Nossa hipótese é que Frei Gilson se tornou um fenômeno de massa porque se dedica à catequese básica, pregando sobre Jesus, sobre o pecado original… ele não se aprofunda em debates teológicos complexos”. Nisso, ele está em sintonia com o novo pontífice, que está promovendo a catequese de adultos.
O Brasil, um país conservador que segue fervorosamente todos os tipos de crenças, é um terreno fértil: “Essa catequese primária permite a Frei Gilson dialogar com católicos não praticantes, com espíritas, que no Brasil somam 1,5 milhão [que se comunicam com espíritos por meio de médiuns], com evangélicos criados no catolicismo…”.
Gomes, uma comerciante de Pernambuco, casada e mãe de dois filhos de 13 e 11 anos, conta que os meninos “só dormem quando Frei Gilson reza”. Os ensinamentos do padre trouxeram mudanças profundas à sua vida: “Graças a ele, me aproximei de Deus e comecei a ir à igreja com mais frequência. Abandonei hábitos que não me faziam bem”.
Ela é uma devota fiel, tanto online quanto offline. Há algumas semanas, essa mulher de Pernambuco participou da vigília em que Frei Gilson lotou um estádio em Recife com 45 mil pessoas para uma noite inteira de oração e música cristã. Ela já tem ingressos para a partida de futebol beneficente que o frade carmelita organizou para julho. E em agosto, participará de outra vigília da Quaresma, desta vez dedicada a São Miguel, também às quatro da manhã.
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