07 Abril 2026
"O segundo elemento que este levantamento traz à tona é a necessidade de a esquerda institucional priorizar a promoção e o apoio a movimentos populares de esquerda. De fato, será a mobilização do povo, e não as eleições, que derrotará a extrema-direita", escreve Pastora Filigrana, advogada e ativista dos direitos humanos, em carta publicada por Ctxt, 06-04-2026.
A diretora da Ação Contra o Ódio participou como palestrante da 1ª Conferência Internacional Antifascista e de Soberania Popular em Porto Alegre, Brasil.
Eis a carta.
Escrevo esta carta porque você ficará feliz em saber que a Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos foi realizada no final de março em Porto Alegre, Brasil. Em um mundo onde as notícias sobre a onipresença da guerra, a crise ambiental e a ascensão da extrema direita são constantes, é bom fazer uma pausa e destacar o progresso coletivo que está sendo feito rumo à transformação social.
Durante quatro dias, 5.000 pessoas de mais de 40 países participaram de 11 conferências, reunindo 120 palestrantes, com mais de 100 atividades paralelas organizadas de forma independente, todas com um objetivo comum: unir as forças da esquerda em todo o mundo para enfrentar a ascensão da extrema-direita.
Uma delegação da Associação Ação Contra o Ódio (ACO) esteve presente durante esses dias, compartilhando nossos sucessos e fracassos como uma plataforma cidadã autogerida que combate o ódio da extrema direita por meio de ações legais e midiáticas.
Este encontro de grande porte serviu como um inventário para avaliar as ferramentas que temos para enfrentar o atual panorama de conluio explícito entre o neoliberalismo e a extrema-direita.
Ao analisarmos esse balanço, constatamos, antes de tudo, que o principal ímpeto para a mudança vem do Sul Global. Foram as organizações e movimentos latino-americanos, principalmente do Brasil e da Argentina, que lideraram esse encontro, moldando esse ambicioso programa ao longo de um ano de conversas, reuniões online e incontáveis horas de ativismo. Houve uma delegação africana significativa, uma delegação menor dos EUA liderada pelo partido do prefeito de Nova York e participantes europeus, como a La France Insoumise. Da Espanha, algumas organizações da sociedade civil e sindicatos participaram, mas sem formar uma delegação formal, o que evidencia a fragmentação política. A necessidade de a esquerda europeia superar suas divisões atuais para enfrentar a ascensão da extrema direita foi um tema recorrente nas discussões.
A América Latina foi o primeiro laboratório para o desenvolvimento do modelo neoliberal e, hoje, serve também como campo de testes para a necessária aliança entre o neoliberalismo e a extrema-direita, como demonstra a reforma trabalhista de Milei na Argentina e a nova retórica do capital. A história está sendo travada na América Latina, e esta Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos é um exemplo primordial dessa luta.
O segundo elemento que este levantamento traz à tona é a necessidade de a esquerda institucional priorizar a promoção e o apoio a movimentos populares de esquerda. De fato, será a mobilização do povo, e não as eleições, que derrotará a extrema-direita.
Durante a Conferência, discursos no estilo de comícios eleitorais de partidos como o PSOL e o PT, no Brasil, ou o Pacto Histórico, na Colômbia, predominaram. No entanto, o papel dos sindicatos de classe foi significativamente fortalecido, com forte presença na plateia, nos painéis e nos debates. Se a extrema-direita está intrinsecamente ligada a um neoliberalismo que explora o trabalho e os recursos, então o papel da classe trabalhadora nessa luta é essencial. E, sem dúvida, o que ressoou forte e claramente entre os milhares de participantes é que a classe trabalhadora é plural e que o patriarcado e o racismo não são meramente incidentais à monstruosidade que enfrentamos, mas sim componentes fundamentais do capitalismo. Ser antirracista e feminista é essencial nessa resistência contra o neoliberalismo em sua forma extrema atual. Paralelamente aos partidos políticos e suas abordagens eleitorais, houve um movimento popular antirracista e transfeminista de base, como o da Columna Mostri na Argentina, um coletivo antifascista, antirracista e transfeminista que desempenhou um papel importante nas mobilizações contra Milei.
Por fim, neste balanço, enfatizo a necessidade de construir sobre a experiência acumulada e o internacionalismo. O fato de este encontro ter sido realizado em Porto Alegre, sede histórica do Fórum Social Mundial, demonstra que não estamos partindo do zero, mas sim que existe uma história de lutas sobre a qual podemos construir. O papel da juventude foi fundamental neste encontro: marcando presença na grande manifestação que abriu a Conferência, nas arquibancadas do auditório e em todos os espaços onde uma assembleia pôde ocorrer. Para eles, este é o legado das lutas que nos precederam.
O internacionalismo nos lembra que, por trás dos movimentos de massa em solidariedade à Palestina, das greves em Minneapolis contra o ICE e das mobilizações da França Insubmissa, trava-se a mesma batalha contra um sistema neoliberal, racista e patriarcal que precisa de guerra perpétua e da ascensão da extrema-direita para existir. E que a soma dessas resistências é o segredo para um mundo onde, enfim, uma vida digna seja universal.
A Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos demonstra que ainda há esperança vinda de baixo e da esquerda. É a partir dessa esperança que trabalhamos na Fundação Contexto e Ação, que abriga a revista CTXT e a associação Ação Contra o Ódio, juntamente com todos vocês que fazem parte desta grande organização.
Abraços,
Pastora
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