De Mateus. A crucificação de Jesus parece uma história cinematográfica. Artigo de Antonio Spadaro

Foto: rattanakun | Pexels

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31 Março 2026

"A história termina onde tudo acaba, onde nada pode ser visto, onde o silêncio pesa."

O artigo é de Antonio Spadaro, jesuíta e ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, publicado por Il Fatto Quotidiano 29-03-2026.

Eis o artigo.  

Tudo começa com uma traição que é um acordo. Uma soma. Trinta moedas. Um nome dado: Jesus. Judas sai, negocia, retorna. A traição toma forma silenciosamente. Não há raiva, nenhuma cena. Apenas um preço e uma expectativa que se põe em movimento, como um mecanismo predeterminado. A mesa está posta. O pão é partido, o vinho é servido, as mãos se movem com gestos habituais. Jesus fala. "Um de vocês me trairá." A frase pesa sobre os presentes. Silêncio. Olhares se encontram, depois se separam. "Sou eu?", "Sou eu?", "Sou eu?" A pergunta ecoa. Não há um culpado isolado. Todos estão dentro da brecha. Até Pedro promete: "Não te negarei." Palavras decisivas, claras.

O jardim está escuro. Oliveiras, terra, respiração superficial. Jesus dá alguns passos para longe. Ele cai. Ele reza. Ele pede que o cálice passe. Então ele permanece. Os discípulos adormecem e acordam três vezes. Eles não conseguem ficar acordados. A solidão de Jesus é sem ênfase, sem consolo. Judas chega. Multidões, tochas, bastões. Um beijo. Um sinal íntimo usado como código. Lábios se tocam, imediatamente depois mãos agarram. Um golpe da espada de Pedro deixa uma orelha ferida no chão. Jesus interrompe a violência. Ele restaura a ordem. Sem defesa. Sem escapatória. E imediatamente: "Todos fugiram." A cena subitamente se esvazia de repente.

E agora o julgamento, uma sequência de palavras distorcidas. Testemunhas que não coincidem, acusações que não se sustentam. Frases que se sobrepõem sem se tocarem. Jesus está em silêncio. Eles o forçam a falar. Então o acusam com suas próprias palavras. Depois tapas, cuspidas, golpes. O corpo entra na história como um alvo exposto e frágil. Lá fora, no pátio. Uma fogueira arde, rostos aparecem e desaparecem. Pedro observa de longe. Uma voz o reconhece. "Você também." Negação. Depois outra. De novo. Uma terceira vez. O galo canta. O som corta a noite. Pedro sai. Chorando sem testemunhas. Promessas que se desfazem em poucos instantes.

Judas retorna. Ele percebe que o dinheiro que recebeu é inútil e o joga fora. E ninguém o recolhe. As moedas caem no chão, um som frio e metálico. Judas sai. Um fim rápido, sem comentários, sem retorno. Pilatos interroga. Perguntas curtas, longas hesitações. "Você é o rei?" "Você diz que sim." O diálogo permanece suspenso. A multidão cresce. Eles gritam "Barrabás", querem Barrabás livre, não Jesus. De Jesus eles gritam "crucifica-o." As vozes se somam, aumentando a pressão. Pilatos lava as mãos. A água flui. É a condenação.

Os soldados vestem Jesus com um manto, espinhos e juncos. Uma coroa que fere, uma saudação que zomba. "Salve, rei." A cena é ritualmente precisa. O poder se disfarça de jogo. Então o levam para fora. A cruz está seca. "Eles o crucificaram." Sem detalhes, apenas o fato. Vestes de uniforme, dados lançados. As pessoas passam, olham, conversam. "Ele salvou outros." Meio-dia. Escuridão. Três horas sem luz. O tempo para. Um grito: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Uma pergunta nua, sem resposta. Alguém oferece vinagre. Alguém espera. Outro grito. Então, silêncio.

O véu se rasga. A terra treme. As rochas se partem. Um centurião olha. "De fato." Uma única frase, deslocada, dita por alguém que não pertence. O corpo é estendido. Mãos que o envolvem, um lençol limpo, movimento lento. Um novo túmulo. Pedra removida. As mulheres observam. De longe. Eles não falam, ficam parados. O dia seguinte. Medo que continua. Um selo na pedra. Um guarda à frente. A morte observada, fechada, protegida. Tudo para. Tudo parece ter acabado. A história termina onde tudo acaba, onde nada pode ser visto, onde o silêncio pesa.

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