27 Março 2026
"O pecado gera pecado; a violência semeia violência; mas tudo termina — ou pelo menos começa a terminar — na ausência de pecado do servo sofredor”, escreve Terrance W. Klein, padre da Diocese de Dodge City, em artigo publicado por America, 26-03-2026.
Eis o artigo.
Homilia para o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Leituras: Mateus 21:1-11; Isaías 50:4-7; Filipenses 2:6-11; Mateus 26:14—27:66.
Um crítico usou uma palavra então recém-cunhada para descrever a poesia de Alfred Tennyson. Era "psicológica", levando-nos a um território inexplorado, aos nossos próprios pensamentos.
Um excelente exemplo é o poema de Tennyson, "As Duas Vozes: Pensamentos de Suicídio".
Uma voz mansa e delicada me falou:
"Você está tão cheio de sofrimento,
não seria melhor não estar?"
A Paixão segundo São Mateus sugere uma voz interior semelhante, que se insinua em nossa história e, portanto, na agonia final de Cristo.
Na visão de São Mateus, Jesus precisa lutar continuamente contra um desejo de morte que nos domina. Isso fica especialmente claro ao examinarmos as passagens da Paixão que lhe são exclusivas.
Todos os quatro evangelistas relatam um discípulo golpeando a orelha do servo do sumo sacerdote com uma espada. Mas somente São Mateus registra a resposta imortal de Cristo.
Guarde sua espada na bainha,
pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.
Você pensa que eu não posso invocar meu Pai
e ele não me enviará neste momento
mais de doze legiões de anjos?
Mas então como se cumpririam as Escrituras
que dizem que assim deve acontecer? (26:52-54).
Mateus quer que saibamos que Cristo nunca foi desprovido de poder, mas escolheu não usá-lo a serviço da violência, daquilo que poderíamos chamar de nosso “instinto de morte”.
Somente Mateus registra o único suicídio nos Evangelhos, o instinto de morte voltado contra o próprio indivíduo. O suicídio é frequentemente uma questão de transtorno psicológico mais do que de pecado pessoal, mas, como toda patologia, física ou psicológica, caracteriza nossas vidas como afastadas de Deus, que é a própria vida.
Então Judas, o traidor, vendo que Jesus havia sido condenado,
arrependeu-se profundamente do que tinha feito.
Devolveu as trinta moedas de prata
aos principais sacerdotes e anciãos, dizendo:
“Pequei, traindo sangue inocente”.
Eles responderam:
“Que nos importa?
Resolve isso você mesmo”.
Atirando o dinheiro no templo,
saiu e foi enforcar-se (27:3-5).
Temos dificuldade em lidar com as palavras inflamadas que São Mateus coloca nos lábios da multidão na época do julgamento de Cristo.
Quando Pilatos viu que não estava conseguindo nada,
mas que, ao contrário, estava havendo um tumulto,
pegou água e lavou as mãos diante da multidão,
dizendo: “Sou inocente do sangue deste homem.
Vejam vocês mesmos”.
E todo o povo respondeu:
“Que o sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos!” (27:24-25).
Essa resposta tem sido usada por dois milênios para difamar o Povo Escolhido, embora o Evangelho de Mateus tenha sido composto para uma comunidade judaico-cristã. E, como insistiu São João Crisóstomo, Cristo não guardou rancor do seu povo por isso. Não, nosso Senhor
e os consideraram dignos de inúmeros bens. Pense em quem poderia estar entre eles. Talvez até mesmo Paulo. Até mesmo alguns entre os milhares que creram em Jerusalém… (Evangelho de Mateus, Homilia 86.2).
Mas, no contexto da Paixão segundo Mateus, a resposta da multidão incitada é mais uma ilustração do instinto de morte que Cristo veio confrontar, uma malignidade que assombra a humanidade desde a queda.
Uma voz mansa e delicada me falou:
"Você está tão cheio de sofrimento,
não seria melhor não estar?"
Pedro busca matar seu inimigo; Judas se suicida; a multidão aclama a morte de Cristo. Guerra, suicídio, julgamento preconceituoso: todos confrontam Cristo. Seja qual for o pecado que reside em cada um, todos são sintomas da escravidão ao pecado que suportamos.
Pensamos no pecado como algo que escolhemos, um instrumento, uma extensão de nós mesmos. A verdade é que o pecado nos domina. Somos nós que ficamos presos em seu vórtice.
Mas Cristo é um defensor da paz. Ele não retribui da mesma forma. Ao descrever a entrada de nosso Senhor na cidade escolhida, somente Mateus cita o profeta Zacarias, que previu o que poderia ser chamado de caráter psicológico de Cristo.
Diga à filha de Sião:
"Eis que o seu rei vem a você,
manso e montado num jumento,
num jumentinho, cria de jumenta" (Mt 21:5, Zc 9:9).
A Paixão Segundo São Mateus poderia, de fato, ter o mesmo nome do poema de Tennyson, "As Duas Vozes: Pensamentos de Suicídio".
Uma voz mansa e delicada me falou:
"Você está tão cheio de sofrimento,
não seria melhor não estar?"
Nessa paixão, ouvimos um novo som, ainda que pequeno na escala da história mundial. De fato, a estrofe seguinte de Tennyson, seu contraponto, parece ser a própria voz de Cristo, aquele que não nos abandonará ao nosso instinto coletivo de morte.
Então, à voz mansa e delicada, eu disse:
"Que eu não lance uma sombra sem fim sobre
o que é tão maravilhosamente criado."
O pecado gera pecado; a violência semeia violência; mas tudo termina — ou pelo menos começa a terminar — na ausência de pecado do servo sofredor.
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