26 Março 2026
Pressão sobre inflação, juros e câmbio amplia o impacto da crise e pode contaminar empresas sem ligação direta com combustíveis fósseis.
A reportagem é publicada por climaInfo, 25-03-2026.
A crise provocada pela guerra no Oriente Médio e a escalada dos preços do petróleo e do gás não se restringem ao mercado energético. O choque tende a atingir primeiro as empresas mais dependentes de combustível, frete e logística, antes de se espalhar para outros segmentos por meio da inflação, dos juros e do câmbio. Tudo, obviamente, afeta o desempenho das companhias de capital aberto nas bolsas de valores.
Entre os setores mais expostos, destacam-se logística, aviação, varejo e distribuição, além de companhias industriais e exportadoras que sentem a alta de custos operacionais ou a compressão de margens. O efeito, segundo o mercado, não fica restrito ao preço do diesel e do querosene de aviação: ele pode contaminar toda a cadeia, do transporte ao consumo, com reflexos sobre demanda, crédito e percepção de risco, detalha a Times Brasil.
Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, afirma que as distribuidoras sentem primeiro porque estão mais perto do consumidor e têm dificuldade para reajustar preços sem comprometer a demanda. Esse aperto tende a atingir com mais força as companhias de margem mais estreita e custo logístico relevante, especialmente no varejo em geral e no varejo de alimentos.
Na avaliação de Artur Horta, sócio da The Link Investimentos, o choque do petróleo afeta as empresas listadas na bolsa de valores por três canais principais: receita, custos e desempenho das ações. Ele coloca logística e aviação entre os setores mais pressionados e afirma que o impacto pode alcançar até companhias sem relação direta com combustíveis, caso o barril siga pressionando inflação, juros e câmbio.
Para Cândido Piovesan, trader da mesa de alocação da Nippur Finance, o mercado não está mais olhando apenas para o efeito direto, como o impacto do diesel mais caro no custo do frete. Isso já é esperado. O foco agora está nos impactos de segunda ordem, que são menos visíveis, mas muitas vezes mais importantes para os resultados das empresas, informa o E-Investidor.
No agronegócio, por exemplo, a dependência externa do Brasil de fertilizantes – fornecidos principalmente por países do Oriente Médio – torna o setor altamente sensível a choques de oferta e logística. João Daronco, da Suno Research, lembra que grande parte dos insumos já foi comprada, o que torna o cenário menos crítico. Mas, se por um lado, a alta das commodities agrícolas pode compensar parte do aumento dos custos provocado pelo petróleo, ao elevar a receita dos produtores, o efeito colateral é sentido por toda a população: alimentos mais caros e pressão inflacionária adicional.
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