21 Março 2026
"O movimento sobreviveu à morte de Chávez e pode sobreviver à verdade sobre suas ações e seu caráter. Movimentos não se constroem sobre as costas de heróis, mas sim sobre as costas de pessoas unidas em ação", escreve Jeremiah Taylor, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-03-2026.
Eis o artigo.
A gravidade das sérias acusações de abuso sexual contra César Chávez, cofundador da United Farm Workers (UFW), não passa despercebida pelos católicos americanos comprometidos com a justiça social. Juntamente com membros da família Kennedy e Dorothy Day, Chávez fazia parte de um panteão de elite de católicos americanos que se destacam em nossa vida pública e memória. Agora, com as acusações de que Chávez abusou sexualmente de pelo menos duas adolescentes, bem como da cofundadora da UFW, Dolores Huerta, outro herói popular católico, que se tornou uma figura icônica, desmorona, levando alguns católicos a questionarem: será que a obra profética de Chávez não passou de uma farsa?
Fiquei inspirado pela forma visível como Chávez utilizava sua fé e prática católica em sua organização — invocando a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe, celebrando missas e interrompendo uma de suas rigorosas greves de fome ao lado de Robert Kennedy em 1968. Fiquei particularmente comovido com o relato de Day sobre seu tempo na prisão do Condado de Fresno ao lado dos grevistas da UFW. Para mim, Chávez personificava o melhor que o ensinamento social católico e a organização comunitária têm a oferecer ao nosso país. Em resumo, ele foi um herói. Mas heróis caem.
A maior parte das alegações contra Chávez foi relatada pelo The New York Times em uma investigação de quase dois anos, publicada em 18 de março. No dia anterior, a UFW afirmou ter tomado conhecimento de alegações "profundamente perturbadoras" contra Chávez e que não participaria das comemorações do Dia de César Chávez, celebrado em 31 de março de cada ano. Após a publicação da reportagem do The New York Times, a cofundadora da UFW, Dolores Huerta, divulgou um comunicado compartilhando sua história de abuso sofrido nas mãos de Chávez. A CNN descreveu as alegações de Huerta como "as mais chocantes contra um homem há muito elogiado como defensor da dignidade humana".
Chávez não é o primeiro herói católico a cair diante da verdade. Jean Vanier, fundador da comunidade L'Arche, foi comprovadamente culpado de abusar sexualmente de mulheres. O lendário Abade Pierre, fundador do movimento Emaús, foi acusado de abusar de dezenas de meninas e mulheres ao longo da vida.
Diante de revelações como essas, é compreensível sentir desilusão, tristeza e traição. Será que todo esse trabalho importa? Como uma pessoa comprometida com o bem comum pode cometer um mal tão hediondo? O que devemos fazer a respeito?
O depoimento estarrecedor de Huerta — detalhando o abuso que sofreu e as duas gravidezes resultantes — demonstra o preço da idolatria, especialmente para aqueles que se sentem pressionados a não revelar a verdade sobre indivíduos reverenciados por grande parte da população. Embora muitos já critiquem há tempos as táticas de controle rígido de Chávez, amplamente documentadas, e a força de seu culto à personalidade, a história de Huerta intensifica essas discussões sobre poder e personalidade.
Agora com 95 anos, Huerta declarou: "Guardei esse segredo por tanto tempo porque construir o movimento e garantir os direitos dos trabalhadores rurais foi o trabalho da minha vida." Huerta suportou violência, famílias destruídas e segredo por décadas porque acreditava que a verdade sobre Chávez desfaria todo o trabalho que haviam realizado. Porque ela acreditava que precisávamos do nosso herói.
Mas não precisamos de heróis. Precisamos uns dos outros.
Como a própria Huerta disse: "O movimento dos trabalhadores rurais sempre foi maior e muito mais importante do que qualquer indivíduo. As ações de Cesar não diminuem as melhorias permanentes conquistadas para os trabalhadores rurais com a ajuda de milhares de pessoas."
O movimento que garantiu aos trabalhadores rurais o direito de não serem pulverizados com pesticidas enquanto trabalham nos campos, que mobilizou uma nação em defesa dos trabalhadores concentrados na Califórnia e que continuou por décadas a conquistar vitórias legislativas, é um movimento que, como todos os movimentos, depende dos sacrifícios de muitos. Não do carisma ou do poder de um único indivíduo.
As revelações devastadoras sobre Chávez chegam durante a Quaresma, e os Evangelhos têm muito a nos ensinar sobre nossa tentação de idolatrar heróis. Jesus oferece uma alternativa. Quando Tiago e João buscam grandeza por meio dele, Jesus lhes diz que, para serem os primeiros, precisam ser os últimos, e que, se desejam a verdadeira glória, devem beber do seu cálice amargo. Quando o diabo tenta Jesus com a dominação mundana, ele diz ao enganador: "Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto". Jesus se recusou a ser visto como um herói mundano e não nomeou nenhum entre seus seguidores.
O movimento dos trabalhadores rurais, como qualquer outro testemunho do Evangelho animado por um carisma, não se trata da ascensão e queda de um herói singular. Pelo contrário, o movimento foi formado pelos incontáveis sacrifícios diários feitos por todas aquelas "milhares de pessoas", como disse Huerta, que o tornaram realidade. A perda de Chávez como herói não deve desanimar aqueles que testemunham a justiça evangélica, nem diminuir o compromisso com os ideais que ele pregou. Seus graves crimes não devem ofuscar a santidade diária de todos aqueles que têm direcionado o curso da história para a justiça.
Chávez morreu há três décadas. E, nesse ínterim, a UFW, em grande parte sob a liderança de Huerta, realizou muito. Ela enfrentou os desafios do tempo com toda a força do seu carisma, transcendendo até mesmo os profundos sentimentos anti-imigrantes de Chávez para se tornar uma voz importante na defesa dos trabalhadores agrícolas indocumentados. O movimento sobreviveu à morte de Chávez e pode sobreviver à verdade sobre suas ações e seu caráter. Movimentos não se constroem sobre as costas de heróis, mas sim sobre as costas de pessoas unidas em ação.
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