20 Março 2026
Com continuidade da guerra no Irã e consequente escassez de fertilizantes, especialistas alertam que ameaça à segurança alimentar global é crescente.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 19-03-2026.
Não é só o abastecimento de petróleo, gás fóssil e derivados, cujos preços continuam escalando, que a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã coloca em risco. A segurança alimentar do planeta também está cada vez mais ameaçada por um iminente choque do mercado de fertilizantes. E por sua grande produção agrícola, o Brasil pode ser gravemente afetado.
A China é um dos maiores exportadores de fertilizantes do mundo e tem um histórico de controle das exportações para manter os preços baixos para os agricultores do país. Com o conflito no Oriente Médio, o país restringiu ainda mais suas vendas ao exterior, informa o China Global South Project. Entre metade e três quartos das exportações chinesas de fertilizantes do ano passado estão restritas – potencialmente até 40 milhões de toneladas métricas -, segundo a Reuters.
No ano passado, a China enviou ao Brasil, à Indonésia e à Tailândia cerca de um quinto de suas exportações de fertilizantes, e esse número ficou em um terço para a Malásia e a Nova Zelândia, de acordo com dados do International Trade Centre. Para a Índia, foi cerca de 16%, de acordo com dados comerciais. Agora, entre metade e 80% dessas exportações estão restritas, explica a Folha.
Os embarques pelo Estreito de Ormuz representam um terço do fornecimento marítimo de fertilizantes à China. Por causa do bloqueio do estreito, Pequim proibiu as exportações de misturas de fertilizantes nitrogenados e potássicos e de certas variedades de fosfato.
O fato é que os membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – em especial Arábia Saudita, Catar e Omã – são fundamentais para fornecer dois dos três nutrientes mais importantes para culturas agrícolas, explica a Bloomberg. Eles representam um quarto das exportações mundiais de ureia. São ainda mais importantes para o fósforo. A produção de fertilizantes fosfatados envolve a extração do enxofre do petróleo, e cerca de um terço desse enxofre provém do petróleo e do gás do Oriente Médio.
Por isso, especialistas reforçam o alerta de que a continuidade da guerra é uma ameaça grave à segurança alimentar global, pela iminente escassez de fertilizantes, reforçam Al Jazeera e Valor. Grandes volumes desses produtos passam por Ormuz, tornando a agricultura mundial altamente vulnerável a qualquer interrupção do tráfego de navios no estreito.
O Brasil, por exemplo, depende quase que totalmente da importação de ureia, e quase metade dessa carga passa por Ormuz, segundo a Reuters. Além da escassez, há os preços: de acordo com a consultoria Argus, os preços de exportação da ureia no Oriente Médio subiram cerca de 40%, chegando a pouco mais de US$ 700 (R$ 3.650) por tonelada métrica na 6ª feira passada (13/3). Antes da guerra, era pouco menos de US$ 500 (R$ 2.600).
Assim, o conflito interrompeu importantes fontes de energia e fertilizantes, insumos essenciais para a produção de grãos, vegetais e carne. Os agricultores, cujas colheitas já estavam comprometidas por eventos climáticos extremos, agora enfrentam o aumento dos custos desses insumos cruciais e provavelmente repassarão esse aumento aos consumidores por meio de preços mais altos, destaca a Bloomberg.
A outra opção dos produtores é reduzir o uso de fertilizantes e outros insumos, diminuindo a produtividade e aumentando o risco de escassez de alimentos, especialmente em países mais pobres, que dependem fortemente de importações. Por isso o Programa Mundial de Alimentos da ONU já alertou que um conflito prolongado pode levar a níveis recordes de fome global.
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- Não é só o petróleo: por que a guerra no Irã afetará a alimentação. Artigo de Alberto Garzón Espinosa
- O bloqueio da rota petrolífera no Estreito de Ormuz: um pesadelo para a economia. Artigo de Filippo Santelli
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