19 Março 2026
Lizandra Mascarenha muda sua rota quando o tempo vira contra São Paulo, Brasil. Ela precisa se preparar para o pior. Em Chácara Tês Meninas, uma comunidade na Zona Leste onde mora com a filha, a chuva atrapalha tudo. Muitas famílias se apegam a um hábito aprendido: garantir o essencial antes que as enchentes comecem, já que deixaram de ser exceção e se tornaram cada vez mais frequentes em seu cotidiano. “Esta é uma comunidade onde as pessoas saem às três ou quatro da manhã para trabalhar. Mas se há uma enchente, tudo para. É desesperador”, diz Mascarenha. “Nossa comunidade sofre muito com as chuvas. Se chove, já sabemos que vai haver alagamento.”
A reportagem é de Jorge C. Carrasco, publicada por El País, 19-03-2026.
Na capital brasileira, eventos climáticos extremos tornaram-se uma estatística cada vez mais comum. Neste verão, por exemplo, do início de dezembro a fevereiro, a Defesa Civil do Estado registrou 19 mortes relacionadas às chuvas; muitas ligadas a deslizamentos de terra, desabamentos de muros e veículos arrastados pela correnteza, com incidentes ocorrendo na capital, na região metropolitana e na região litorânea.
Na Zona Norte, por exemplo, um morador de 75 anos foi arrastado pela correnteza enquanto tentava salvar seu carro da enchente em janeiro, enquanto, dias antes, um casal morreu após ser levado por um córrego do outro lado da cidade, na Zona Sul.
Essa tendência é confirmada pela avaliação do estado, que mantém um alto nível de alerta para novas tempestades. Esses eventos estão ocorrendo em uma área predominantemente urbana, com solos impermeabilizados e bairros construídos em antigas planícies de inundação.
No final de 2025, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém aumentou as expectativas de resiliência às mudanças climáticas: foi adotado o Pacote de Belém, uma série de 59 indicadores globais de adaptação, voluntários e não prescritivos, a serem implementados até 2035, juntamente com o impulso político dado à Meta Global de Adaptação (MGA). O texto final foi organizado em torno do Mutirão Global, uma mobilização internacional coordenada para acelerar a implementação das metas, que, no entanto, deixou lacunas quanto a quem financia a iniciativa e como esses recursos chegam a territórios específicos.
Mas em grandes centros urbanos como São Paulo, a questão não é mais se existe um plano, mas se ele pode ser implementado com resultados mensuráveis. “A cidade já possui ferramentas, incluindo o Plano de Ação Climática 2020-2050 e relatórios setoriais”, observa o sociólogo Victor Marchezin, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN). “O que falta é completar o triângulo da capacidade institucional com indicadores concretos, como orçamento, coordenação, pessoal, equipamentos e colaboração com outros poderes. Sem isso, existem metas, mas não há indicadores”, argumenta.
A cidade de São Paulo vem atualizando seu Plano SP Clima e publicando relatórios anuais de monitoramento desde 2022, com uma revisão prevista para 2026 que amplia as metas e integra diferentes departamentos. No entanto, especialistas entrevistados pelo El País afirmam que a dificuldade reside na execução de projetos e na fiscalização das normas nos bairros mais periféricos.
O Índice de Adaptação Urbana (IAU), desenvolvido por universidades brasileiras e aplicado a capitais, oferece indícios do que está acontecendo. Neste exercício, São Paulo obteve uma pontuação de 0,89, indicando um bom conjunto de instrumentos; contudo, o próprio estudo alerta que a existência não equivale à eficácia e que as desigualdades territoriais deixam bolsões de vulnerabilidade sem cobertura.
“São Paulo tem plena capacidade técnica e institucional para fazer essa transição [para uma maior adaptabilidade climática]. O problema não é a falta de pessoal qualificado, mas sim as trajetórias de decisões políticas que se acumularam ao longo do tempo”, afirma Luciana Travassos, professora de planejamento territorial da Universidade Federal do ABC. “Historicamente, a cidade reinvestiu no centro extenso e em seus arredores. Quando o dinheiro público se concentra onde já existe, a consequência é mais segregação e mais desigualdade.”
Para Travassos, falar sobre adaptação climática significa focar inteiramente nos mapas das grandes cidades. “Precisamos dizer: 'Já investimos demais aqui, agora é hora de investir onde nunca houve investimento ou onde foi muito pouco'.”
Natália Resende, Secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL) do Estado de São Paulo, explica que uma estratégia climática está em andamento desde 2023, com o Plano de Adaptação contendo 46 ações e 101 subações em seu primeiro ciclo de três anos. Seu objetivo é apoiar os municípios no desenvolvimento de seus próprios planos, adaptados às realidades locais. “Levamos uma carta de compromisso à COP30 para demonstrar que a sustentabilidade aqui não é apenas retórica, mas está sendo integrada projeto a projeto, com soluções baseadas na natureza, melhorias na drenagem e coordenação”, afirma.
Os governos estadual e municipal de São Paulo têm sido criticados nos últimos anos pela dificuldade em prevenir e responder com mais rapidez a eventos extremos, como chuvas torrenciais seguidas de inundações. Resende reconhece que existem dificuldades, principalmente com a drenagem em bairros próximos a áreas ribeirinhas, mas insiste que o governo estadual está se esforçando para melhorar a situação. “A drenagem não é mais invisível. Só nos rios Pinheiros e Alto Tietê [ambos importantes na cidade], removemos mais de 5 milhões de metros cúbicos de sedimentos desde 2023. Não resolve tudo, mas reduz o potencial de danos durante chuvas fortes”, argumenta.
Por outro lado, a infraestrutura predial de cidades como São Paulo apresenta outro desafio. “Estamos entrando em uma era de eventos climáticos extremos, e muitos edifícios foram projetados para um clima estável”, observa Felipe Faria, diretor do Green Building Council Brasil, uma iniciativa privada que promove a construção sustentável. Faria argumenta que a solução a curto prazo envolve a modernização (ou seja, a reforma de edifícios para maior eficiência), com ênfase na eficiência térmica e hídrica, a digitalização das operações para detectar falhas em tempo real e a reutilização da água por grandes consumidores.
Para ele, os edifícios verdes são alavancas para a adaptação urbana, onde o conforto térmico para mitigar ondas de calor e a drenagem sustentável têm o potencial de melhorar a resiliência de comunidades inteiras. O desafio, admite, é fazer com que a exceção se torne regra por meio de incentivos e cooperação com os governos.
Travassos, no entanto, acredita que o foco das políticas públicas deve ser a adaptação climática com uma perspectiva comunitária e racial que aborde a significativa desigualdade territorial existente nas principais cidades brasileiras. “Não basta alocar recursos: eles precisam ser implementados em nível local. Uma adaptação justa exige priorização territorial explícita para que os bairros periféricos sejam os primeiros a receber investimentos públicos”, afirma.
Carla Tames Alvarez, conselheira federal e coordenadora da Comissão de Política Urbana do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, argumenta que, para cumprir os compromissos da COP30, São Paulo precisa revisar seus códigos de construção e plano diretor. Esses documentos devem incluir, "como requisito obrigatório", infraestrutura verde e azul metropolitana, drenagem urbana sustentável como padrão, índices mínimos de permeabilidade, cobertura arbórea mensurável e corredores de ventilação que reduzam a exposição a condições climáticas extremas.
“A COP30 não pode ficar só na conversa. São Paulo precisa se traduzir em mudanças regulatórias concretas”, argumenta Alvarez. “As cidades não entram em colapso por falta de conhecimento técnico; elas entram em colapso quando falta vontade de aplicá-lo.”
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