O equilíbrio precário entre santidade e heresia. Entre Valdo e Francisco

"São Francisco de Assis Protegendo as Hierarquias da Igreja", proveniente da Igreja de São João Evangelista. (Foto: GualdimG/Wikimedia Commons)

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19 Março 2026

Hoje falamos de duas vidas que se aproximam no tempo e trilham caminhos incompatíveis: Valdo, um rico cidadão de Lyon que, despojando-se de tudo, escolheu a pobreza radical, dando origem a uma rede de pregadoras e pregadores leigos que, no final de 1100, foram capazes de falar ao povo comum das ruas e, acima de tudo, fora do controle do clero, gerando um cristianismo sem mediações hierárquicas.

A informação é de Gian Mario Gillio, publicada por Riforma, 16-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Francisco de Assis, que, embora também tenha escolhido — trinta anos depois de Valdo —a pobreza e a itinerância, decidiu entregá-las à sua Igreja por meio da obediência, do reconhecimento e da regra.

Um precioso livro de Francesca Tasca, "Valdo e Francesco D’AssisiDue esperienze Cristiane” (Valdo e Francisco de Assis – Duas Experiências Cristãs, publicado pela editora Claudiana), acompanha os leitores e os sustenta num precário equilíbrio entre santidade e heresia.

Francesca Tasca, doutora em História e professora de ensino médio em Bergamo, é especialista em grupos cristãos minoritários e dissidentes. O programa "Tra le parole" pediu à professora Tasca que começasse pela situação atual e, portanto, com sua opinião sobre a exibição dos restos mortais de São Francisco por ocasião do oitavo centenário da morte do poverello de Assis.

"Acredito que esse rito de exibição", disse Tasca, "é o mais distante possível da espiritualidade de Francisco. A experiência cristã de Francisco, de fato, era centrada na escolha de um seguimento radical de Cristo, do esvaziamento de si mesmo, da submissão, da diminuição."

De Valdo, não sobraram restos mortais, ossos e nem mesmo um túmulo.

"Valdo de Lyon e Francisco de Assis: Duas experiências cristãs", de Francesca Tasca (2025).

"Não sabemos nem o local nem a data exata de sua morte. Acredita-se que tenha sido em 1207." No entanto, os dois eventos se entrelaçam, embora tenham ocorrido com cerca de trinta anos de diferença, porque "ambos os eventos", observa Tasca, "tiveram origem em ambientes urbanos, onde a circulação de dinheiro e as atividades comerciais de média a longa distância eram uma realidade. Tanto Valdo quanto Francisco, de fato, pertenciam à burguesia urbana. Ambos escolheram a pobreza, uma pobreza voluntária, radical, neotestamentária. Duas formas de pobreza de aparências semelhantes, mas com raízes muito diferentes: a pobreza de Valdo era apostólica, enquanto a de Francisco era centrada em Cristo. Para Valdo, a pobreza era funcional e instrumental para a proclamação universal e a pregação itinerante. Para Francisco, a pobreza estava ligada à imitação de Cristo, portanto, uma pobreza cristocêntrica, de kenosis do grego, que significa diminuição, esvaziamento e anulação do eu."

O teólogo Ratzinger argumentava que Francisco de Assis havia, de certa forma, retomado o que seus predecessores valdenses haviam feito…

Ratzinger era um defensor da ideia de convergência entre as duas experiências, enquanto eu sustento uma divergência substancial entre elas. Outros franciscanistas levantaram a hipótese da teoria da convergência, como Paulo Sabatier, que argumentava que o pai de Francisco, Pietro di Bernardone, teria contado ao filho sobre a conversão de Valdo. Outros chegaram a propor a hipótese de que o sacerdote da Porciúncula, a quem Francisco teria recorrido para pedir explicações sobre uma passagem do Evangelho de Mateus, teria sido na realidade um valdense. Ou no filme de Liliana Cavani de 1989, onde a diretora levantava a hipótese de que o jovem Francisco, prisioneiro em Perugia após a Batalha de Collestrada em 1202, teria entrado em posse de um texto evangélico traduzido para a língua vernácula e pertencente a um pregador valdense itinerante. Todas hipóteses interessantes, fascinantes e sugestivas, mas desprovidas de qualquer respaldo, embora seja verdade que a atmosfera vivida por Valdo e Francisco na época fosse a mesma.”

Por que Valdo foi condenado como herege, enquanto Francisco foi santificado? "Sempre tento responder a essa pergunta em ocasiões como conferências, lançamentos de livros e seminários. No livro, tentei explicá-la da melhor maneira possível, abordando alguns aspectos fundamentais das duas proposições cristãs: o trabalho, a relação com os livros, a relação com as mulheres, a obediência, a pregação e a pobreza.” As histórias de Valdo e Francisco são apenas histórias medievais?

“Não. A condenação que atingiu Valdo por heresia destaca com força a dinâmica de defesa e preservação do status quo pelas instituições de poder, uma dinâmica que não é apenas medieval, mas que ainda hoje permeia as relações em todas as sociedades humanas. Valdo, como leigo, queria pregar livremente a Bíblia — traduzida para a língua vernácula — tornando-se uma ameaça ao monopólio clerical, minando de fato o rígido arranjo de divisão entre leigos, clérigos e monges.”

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