Anglicanos Globais rompem com a Comunhão Anglicana, mas deixam porta aberta

Foto da página de Facebook da Gafcon/ 7 Margens

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10 Março 2026

A nova “Comunhão Anglicana Global” (GAC, na sigla inglesa), implantada predominantemente na África subsariana, propõe-se ser o grande movimento reformador de natureza conservadora do Anglicanismo, ao reafirmar a ruptura com os quatro instrumentos da unidade da Comunhão Anglicana fiel ao arcebispado de Canterbury . Não se trata, porém, segundo alguns observadores, de um corte radical que possa ser considerado um cisma.

A reportagem é publicada por 7 Margens, 08-03-2026.

O documento “Afirmação de Abuja”, a cidade nigeriana onde decorreu na última semana o G26, sigla da Conferência da ex-Gafcon (Global Anglican Future Conference), é perentório: “Rejeitamos os chamados Instrumentos de Comunhão, a saber, o Arcebispo de Canterbury, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) e a Reunião dos Primazes.”

As razões para o movimento saltar fora das instituições que sustêm a tradicional Comunhão Anglicana são várias, mas resumem-se na convicção de que a liderança dos Instrumentos de Comunhão de Canterbury falhou ao não exercer disciplina, ao não manter o testemunho bíblico e não defender a doutrina anglicana fundamental.

“Em vez disso, enfatiza a Afirmação de Abuja, esses Instrumentos procuram manter uma comunhão institucional confusa, baseada na ficção de caminhar juntos com aqueles que se estão a afastar da verdade do evangelho e dos ensinamentos de Jesus”.

Este movimento, até agora designado Gafcon (Global Anglican Future Conference), afirma ter apelado, ao longo de mais de duas décadas, às lideranças seniores da Comunhão Anglicana a que se arrependessem de terem “negado a fé ortodoxa em palavras e ações”.

Explicitando a respetiva posição, observam ainda: essas lideranças quiseram “normalizar o pluralismo hermenêutico, exaltar a capitulação cultural e reformular a rejeição da autoridade e clareza das Escrituras como discordância boa e não como aquilo que realmente é: falso ensinamento”.

O documento passa, depois a enunciar pontos em que os diferentes Instrumentos da Unidade falharam. Denuncia os recentes arcebispos de Canterbury, referindo que Justin Welby acolheu favoravelmente a bênção de pessoas que contraíram matrimónio civil entre pessoas do mesmo sexo e que a recém-eleita arcebispa, Sarah Mullally, “liderou o projeto Vivendo em Amor e Fé”, que produziu recursos litúrgicos para essas bênçãos, na Igreja da Inglaterra. Insurge-se igualmente contra a Conferência de Lambeth por ter tratado o assunto das relações homossexuais como “uma questão sobre a qual os cristãos podiam discordar, mas permanecer em comunhão”.

“A verdadeira comunhão é confessional, e não definida por uma história compartilhada ou estruturas institucionais”, acentua, a dado passo, o texto, para tornar claro que a chamada Declaração de Jerusalém, de 2008, constitui, a par dos textos originais fundadores da Comunhão Anglicana, o documento de referência para a reforma que o movimento se propõe defender e promover, sendo a declaração de adesão a esse texto que exprime também a adesão à GAC.

Na sequência destas decisões, quando muitos setores conservadores que dão corpo ao movimento reformador esperavam a designação de um primaz como primeiro entre iguais (primus inter pares), em certa medida um homólogo da arcebispa de Canterbury, a decisão tomada foi diferente: em substituição do Conselho de Primazes da Gafcon foi criado o Conselho Anglicano Global.

Este órgão, constituído por primazes, conselheiros e garantidores (bispos, clero e leigos) como membros votantes, elege a sua presidência, “zelará e fortalecerá a fé dos anglicanos em todo o mundo”, reconhecerá e acolherá as províncias e dioceses existentes que desejarem participar da Comunhão Anglicana Global ou recém-formadas que buscarem reconhecimento como anglicanos globais.

Comprometida que se diz estar com a “ortodoxia anglicana”, a Comunhão Anglicana Global diz estar a “reformar a Comunhão Anglicana por dentro, deixando para trás os Instrumentos de Canterbury”. Salienta também que aqueles que se desvinculam desses Instrumentos “não são cismáticos”.

As próximas semanas e meses conhecerão certamente desenvolvimentos, a começar já, em 25 de março, pelo ato solene de início do ministério da arcebispa de Canterbury, eleita no último outono e nomeada pelo rei Carlos III.

Um dos Instrumentos da Unidade da Comunhão Anglicana, o seu Conselho Consultivo, promove de 27 de junho a 5 de julho próximo, em Belfast, uma reunião que contará com representantes de toda a Comunhão Anglicana (certamente não das dioceses que integrem o novo GAC), para debater as Propostas de Nairobi-Cairo, que visam renovar e reformar os Instrumentos de Comunhão.

O atual secretário geral da Comunhão Anglicana manifestava recentemente a esperança de que, com esses trabalhos, se possa ainda “procurar e encontrar concordância na Fé”, se bem que, cautelarmente, fosse dizendo ser preciso “cultivar a paciência e o amor quando os membros do Corpo precisam de se distanciar uns dos outros para melhor procurar e servir a verdade e a unidade”.

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