Padre brasileiro é condenado por desviar quase 700 dispositivos inteligentes doados ao seu instituto

Padre Egídio de Carvalho Neto | Foto: Reprodução/Facebook/Paróquia Santo

Mais Lidos

  • Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America

    LER MAIS
  • RS registra 80 feminicídios em 2025; maioria das vítimas foi morta dentro de casa

    LER MAIS
  • Os resultados da guerra com o Irã "podem ser piores" do que os do Iraque, afirma Mary Ellen O'Connell, professora da Faculdade de Direito de Notre Dame - EUA

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Março 2026

Um padre brasileiro foi condenado por peculato qualificado envolvendo quase 700 aparelhos eletrônicos, incluindo smartphones e tablets, doados pela Receita Federal ao instituto de saúde que ele dirigia.

A reportagem é de Eduardo Campos Lima, publicada por Crux, 02-03-2026.

Um tribunal concluiu que o Pe. Egídio de Carvalho Neto, então presidente do Instituto São José, entidade mantenedora do Hospital Padre Zé em João Pessoa, na Paraíba, se apropriou indevidamente de 676 smartphones e tablets doados pela Receita Federal.

Em vez de leiloar os aparelhos e transferir o valor arrecadado para o instituto, ele os vendeu e ficou com o dinheiro, de acordo com o veredito.

Carvalho Neto foi condenado juntamente com Samuel Cunha Segundo, ex-chefe do departamento de tecnologia do instituto. O padre foi sentenciado a 5 anos e 6 meses em regime semiaberto, enquanto Segundo recebeu pena de 4 anos e 4 meses no mesmo regime.

Ambos também foram condenados a pagar US$ 102.500 em danos materiais e US$ 97.452 em danos morais coletivos.

Segundo reportagem publicada pelo portal UOL, Carvalho Neto e Segundo viajaram a Foz do Iguaçu, no Paraná, em maio de 2023, para receber a doação de centenas de aparelhos eletrônicos do Serviço Federal de Receita.

O plano era leiloar os itens e usar a renda para comprar pelo menos uma ambulância para o Hospital Padre Zé. O valor total da doação foi estimado em R$ 807.000 (US$ 157.310).

Quinze caixas contendo os itens mais valiosos foram levadas para a reitoria do instituto sem serem inspecionadas, supostamente por ordem de Carvalho Neto.

Quase dois meses depois, quando os funcionários verificaram o conteúdo, descobriram que 12 das 15 caixas estavam vazias. O próprio Carvalho Neto informou à polícia que 676 aparelhos estavam desaparecidos, mas não forneceu os números de Identificação Internacional de Equipamento Móvel (IMEI).

Os investigadores conseguiram obter os números IMEI dos smartphones junto ao Serviço Federal de Receita e iniciaram uma investigação. Logo identificaram um homem que estava vendendo os aparelhos roubados. Ele disse às autoridades que os havia comprado de Segundo.

A investigação policial também apurou que as câmeras de segurança do instituto pararam de funcionar em 26 de junho e só foram reativadas três dias depois. Segundo era o responsável pela supervisão do sistema.

Luciano Santoro, advogado de Carvalho Neto, descreveu a condenação como uma “grande injustiça”.

“As provas demonstraram claramente que ele não teve qualquer envolvimento nesses atos e que, na verdade, foi ele quem denunciou o roubo às autoridades. Além disso, comprovamos que não há uma única transação financeira que sugira sua participação no roubo”, disse Santoro ao Crux Now.

Ele acrescentou que “os casos já não são julgados com base em fatos, mas sim em pessoas – ou na imagem que se constrói delas”.

“Estou convencido de que ele não foi condenado por ter cometido o crime, mas por ser o Padre Egídio, já que as provas de sua inocência são incontestáveis”, disse Santoro, acrescentando que “confia plenamente que o Ilustre Tribunal de Justiça da Paraíba corrigirá essa manifesta injustiça”.

O advogado de Samuel Segundo argumentou que seu cliente apenas seguiu as ordens do padre.

De fato, o caso de Carvalho Neto atraiu a atenção nacional nos últimos anos. O desaparecimento dos dispositivos eletrônicos é apenas uma das 11 acusações criminais que ele enfrenta.

No total, os promotores acusam o padre de desviar R$ 140 milhões (aproximadamente US$ 27 milhões) destinados ao Instituto São José e às obras sociais da Arquidiocese da Paraíba.

Os fundos, segundo informações, vieram da prefeitura de João Pessoa e do governo da Paraíba, por meio de convênios de parceria, e se destinavam a financiar serviços sociais, incluindo a distribuição de cestas básicas para pessoas em situação de rua.

Em vez disso, os promotores alegam que uma organização criminosa liderada por Carvalho Neto desviou os fundos para a compra de bens de luxo, incluindo imóveis em bairros nobres, veículos e obras de arte. Pelo menos 19 apartamentos e casas já foram identificados pelos promotores como propriedades ligadas a Carvalho Neto. Eles estavam registrados em seu nome ou em nome de pessoas que ele conhecia.

Ele renunciou ao cargo de presidente do instituto em outubro de 2023, pouco depois da descoberta do suposto desfalque.

Carvalho Neto foi afastado de todas as atividades eclesiásticas desde então. Preso em 2023, permaneceu sob custódia por vários meses antes de ser libertado em 2024 para se submeter a tratamento contra o câncer. Ele ainda consta no anuário da Arquidiocese da Paraíba como padre residente.

Leia mais