Ciclo de estudos promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, debate a ecologia integral e o ecossocialismo em tempos de mudanças climáticas. Evento ocorre na próxima quarta-feira, 04-03-2026
Nesta semana, os brasileiros estão acompanhando o drama dos moradores da cidade mineira de Juiz de Fora, atingida por fortes chuvas que provocaram deslizamentos e desabamentos de casas e edifícios, ocasionaram 55 mortes e deixaram cerca de 4.200 desabrigados, segundo dados da Prefeitura Municipal. A esse evento climático extremo somam-se as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, a seca e os incêndios que afetaram a Amazônia e o Pantanal, as ondas de calor em diversas regiões do país, e o tornado que atingiu o Paraná no fim do ano passado.
A recorrência desses fenômenos e seus efeitos sobre as populações atingidas é um problema mundial. Somente na última década, aproximadamente 250 milhões de pessoas deslocaram-se dentro de seus próprios países, o que representa uma média estimada de cerca de 70 mil deslocamentos diários, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Para o sociólogo brasileiro radicado na França, Michael Löwy, “a ecologia é a questão política, social e humana central no século XXI”. A classe política, contudo, crítica Löwy, tem priorizado a adaptação em vez da prevenção dos eventos climáticos. “É uma forma indireta de se resignar à inevitabilidade das mudanças climáticas”, afirma. Se, por enquanto, a adaptação ainda é possível, adverte, “a partir de um certo aumento da temperatura – dois graus? três graus? ninguém pode dizer – ela se tornará impossível. Como se adaptar, se a temperatura ultrapassar os 50 graus? Se a água potável se tornar um bem escasso? Podemos multiplicar os exemplos”.
Löwy é o próximo painelista do Ciclo de Estudos Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais, juntamente com Roberto Malvezzi, da Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, Bahia, e presidente da CEEM. O evento é promovido pela CEEM, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Os painelistas vão refletir sobre a ecologia integral e o ecossocialismo. A proposta tem sido defendida pelo sociólogo como um projeto de futuro alternativo ao capitalismo, mas também como “uma estratégia para a luta aqui e agora”. A atividade ocorre nesta quarta-feira, 04-03-2026, e será transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no YouTube às 10h.
Michael Löwy é um teórico marxista que se dedica à análise da crise civilizacional. Crítico da acumulação ilimitada do capital, da mercantilização de todas as esferas da vida e da exploração do trabalho e da natureza, tem defendido um modelo civilizacional baseado na justiça social, na igualdade, na liberdade, na solidariedade e no respeito à Casa Comum.
Ele figura entre os teóricos de esquerda que dialogaram com o pensamento do Papa Francisco e ele próprio escreveu com entusiasmo sobre o legado social de Bergoglio, dias após a morte do pontífice ano passado. No texto publicado na página eletrônica do IHU, Löwy valorizou a denúncia do Papa à “‘globalização da indiferença’ que nos torna ‘insensíveis aos gritos dos outros’”, fazendo referência aos migrantes mortos no Mediterrâneo e às políticas europeias desumanizantes. Recordou o encontro do Papa argentino com os movimentos sociais de Santa Cruz, na Bolívia, em 2015, e a crítica do pontífice à economia que mata. Na avaliação do sociólogo, o discurso anticapitalista de Francisco foi feito “num nível que nenhum de seus antecessores conseguiu atingir”.
Löwy também teceu vários comentários sobre a Laudato si’, publicada em 2015. A encíclica ecológica do Papa Francisco, afirmou, “é um acontecimento de importância global, do ponto de vista religioso, ético, social e político. Dada a enorme influência da Igreja Católica, foi uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica. Embora tenha sido acolhida com entusiasmo pelos verdadeiros ambientalistas, suscitou inquietação e rejeição dos conservadores religiosos, dos representantes do capital e dos ideólogos da ‘ecologia de mercado’”. Este documento, acrescentou, “é uma contribuição preciosa e inestimável diante da catástrofe socioambiental. O Papa foi lúcido ao questionar elites e a ‘ecologia de mercado’. Cabe à esquerda completar seus diagnósticos com propostas radicais”.
Em entrevista ao IHU em 2019, Löwy sugeriu que intelectuais e políticos de esquerda lessem o documento magisterial. “A esquerda deveria ler este documento e se inspirar no seu diagnóstico sobre a urgência de salvarmos nossa Casa Comum, a Mãe Terra”.
Enquanto os líderes das principais potências econômicas do mundo apostam num modelo econômico predatório e disputam minerais críticos e terras raras para dar continuidade a projetos expansionistas de poder, ao progresso tecnológico, à transição energética e à expansão agrícola, Löwy defende uma transição para o ecossocialismo. Trata-se, explica, de um modelo político “orientado por dois critérios: a satisfação das necessidades reais e o respeito ao equilíbrio ecológico do planeta. São as próprias pessoas – uma vez livres da propaganda e da obsessão consumista fabricadas pelo mercado capitalista – que decidirão, democraticamente, quais são as verdadeiras necessidades”. O ecossocialismo, enfatiza, “é uma aposta na racionalidade democrática das classes populares”.
O ecossocialismo tem sido proposto pelo sociólogo como uma alternativa ao que ele denomina de “ecocídio capitalista”, termo que designa a destruição sistemática de ecossistemas, ameaçando todas as formas de vida. A proposta, explicita, é inspirada no arcabouço teórico marxista. “Os trabalhadores não podem tomar posse do aparato de estado capitalista e colocá-lo para funcionar a seu serviço. Eles têm que ‘quebrá-lo’ e substituí-lo por uma forma radicalmente diferente, democrática e não-estatizante de poder político”.
O projeto ecossocialista, argumenta, não é despótico. Visa, ao contrário, ser um exercício de liberdade da própria sociedade. “O ecossocialismo é baseado em uma aposta, que já foi de Marx: o predomínio, em uma sociedade sem classes e liberta da alienação capitalista, do ‘ser’ sobre o ‘ter’, isto é, do tempo livre para a realização pessoal de atividades culturais, esportivas, lúdicas, científicas, eróticas, artísticas e políticas, ao invés do desejo pela posse infinita de produtos”, explica.
Michael Löwy concedeu várias entrevistas ao IHU. Os artigos do sociólogo também são reproduzidos no site do Instituto. Abaixo, listamos alguns materiais que podem servir de subsídio para o debate.
A atividade promovida pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pretende desenvolver a reflexão sobre Ecologia Integral e consolidar escolhas e ações pastorais, em fidelidade à encíclica Laudato Si’, inspirando-se no Manifesto recém-publicado.
O Ciclo de Estudos também visa compreender a conexão entre o extrativismo predatório, que atenta ao equilíbrio da Ecologia Integral, e os graves desafios globais, como as guerras entre os povos e com a natureza, a crescente voracidade energética e a irrupção da inteligência artificial. Os painéis e conferências são gratuitos e abertos ao público.
Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão. O aluno poderá matricular-se apenas nas conferências que desejar assistir. O certificado informará a carga horária total cursada e estará disponível no Portal Minha Unisinos a partir de 20 dias após o término do Ciclo de Estudos (todas as conferências). Não é necessária inscrição para acompanhar a transmissão.
O quê: Painel “Transações energéticas ou transformação sistêmica? A ecologia integral e o ecossocialismo” | Ciclo de estudos: Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais
Quando: 04-03-2026
Quem: Prof. Dr. Michael Löwy, Diretor de Pesquisas emérito do CNRS – França | Roberto Malvezzi (Gogó), da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB e da CPT | Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da CEEM
Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU
Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ecologia-integral