20 Fevereiro 2026
"Voltar os olhos para a moradia é reconhecer que a desigualdade urbana é também desigualdade de oportunidades. Quem mora mal adoece mais, estuda menos, trabalha com maiores dificuldades e vive sob constante insegurança. Assim, a crise habitacional não é apenas urbana, mas humana. Ela revela uma sociedade que tolera a injustiça espacial e aceita que o direito à cidade seja privilégio de poucos", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
A moradia digna é um dos pilares fundamentais da vida humana. Não se trata apenas de possuir um teto, mas de garantir segurança, estabilidade, pertencimento e condições mínimas para o pleno exercício da cidadania. No Brasil, porém, esse direito permanece marcado por uma profunda contradição: embora esteja assegurado na Constituição Federal como direito social, milhões de pessoas continuam vivendo em condições precárias, inseguras ou inadequadas. A distância entre o que está escrito na lei e o que se manifesta na vida cotidiana revela um problema estrutural, histórico e ético.
Os dados do Censo Demográfico 2022 ajudam a dimensionar essa realidade. O Brasil possui hoje mais de 90 milhões de domicílios, um crescimento expressivo em relação a 2010. Contudo, esse aumento numérico não significa justiça habitacional. Ao mesmo tempo em que há expansão imobiliário, persistem moradias vazias usadas para especulação, enquanto milhões de famílias enfrentam déficit habitacional, aluguel excessivo ou residem em áreas sem infraestrutura adequada. O Censo aponta que cerca de 20,9% da população vive em imóveis alugados, evidenciando a insegurança habitacional e a dependência crescente do mercado imobiliário.
Outro dado alarmante é a existência de milhares de pessoas vivendo em domicílios improvisados, como barracos, tendas ou construções precárias, além daquelas que residem em domicílios coletivos por ausência de alternativas. Soma-se a isso a concentração da população em periferias urbanas distantes, muitas vezes sem saneamento básico, transporte eficiente, acesso à saúde, educação e lazer. Assim, a moradia inadequada torna-se um fator que aprofunda desigualdades e compromete outros direitos fundamentais.
Essa situação não é fruto do acaso. A política habitacional brasileira sempre foi marcada pela descontinuidade, pela falta de planejamento de longo prazo e pela submissão à lógica do mercado. A casa, em vez de ser compreendida como direito, passou a ser tratada como mercadoria. O solo urbano tornou-se objeto de especulação, e o direito de morar foi subordinado à capacidade de pagamento. Nesse contexto, a Constituição garante, mas o Estado não efetiva; promete, mas não entrega.
A Campanha da Fraternidade 2026, ao propor o tema “Fraternidade e Moradia – Ele veio morar entre nós”, insere essa problemática no centro do debate social, ético e cristão. Inspirada no mistério da encarnação, a campanha recorda que Deus escolheu habitar a realidade humana, inclusive suas fragilidades. Essa escolha lança uma pergunta incômoda à sociedade brasileira: como aceitar que tantos irmãos e irmãs vivam sem casa digna, enquanto outros acumulam imóveis vazios e lucros imobiliários?
A CF 2026 ultrapassa o discurso assistencialista e convoca à responsabilidade coletiva. Ela denuncia a naturalização da exclusão habitacional e chama atenção para a moradia como condição básica para a dignidade humana e para o acesso a todos os outros direitos. Ao iluminar essa ferida social, a campanha questiona modelos econômicos excludentes, a omissão do poder público e a indiferença social diante do sofrimento cotidiano de milhões de pessoas que vivem sem segurança, sem endereço fixo e sem perspectiva.
Voltar os olhos para a moradia é reconhecer que a desigualdade urbana é também desigualdade de oportunidades. Quem mora mal adoece mais, estuda menos, trabalha com maiores dificuldades e vive sob constante insegurança. Assim, a crise habitacional não é apenas urbana, mas humana. Ela revela uma sociedade que tolera a injustiça espacial e aceita que o direito à cidade seja privilégio de poucos.
Portanto, refletir sobre moradia à luz da Campanha da Fraternidade 2026 exige mais do que sensibilidade: exige posicionamento crítico e compromisso político. É necessário romper com a lógica que transforma direitos em mercadorias e construir políticas públicas permanentes, integradas e orientadas pela justiça social. Somente quando a moradia deixar de ser privilégio e se tornar realidade concreta para todos será possível afirmar que a promessa constitucional deixou o papel e passou a habitar a vida do povo brasileiro.
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