12 Fevereiro 2026
Um dos principais argumentos para deter o ímpeto da Comissão Europeia de “criar o maior espaço de mercado livre do mundo” com o Mercosul é a denúncia de muitas organizações agrárias e ambientalistas de que alimentos cultivados com agrotóxicos proibidos dentro da União Europeia entrarão na Europa. Mas por trás dessa concorrência desleal, esconde-se uma questão fundamental: quem fabrica esses produtos tóxicos que, depois, são utilizados na América do Sul? A resposta é paradoxal: uma parte significativa é fabricada na própria Europa.
A reportagem é de Gustavo Duch, publicada por Ara, 23-01-2026. A tradução é do Cepat.
Para confirmar o assunto, o grupo jornalístico Unearthed e a ONG suíça Public Eye solicitaram acesso às notificações de exportação que as empresas europeias devem realizar, de acordo com a Convenção de Roterdã. Embora esses dados sejam estimativas prévias à exportação real, constituem a fonte mais confiável. Segundo seu relatório, em 2018, cerca de 81.600 toneladas de agrotóxicos proibidos foram exportadas para 85 países não pertencentes à União Europeia. Logicamente, organizações como a sul-africana Women on Farms Project (WFP) denunciaram que o fato de grande parte dessas exportações ser destinada a países empobrecidos “revela uma forma de pensar racista e colonial”. E embora a Comissão Europeia tenha prometido deter tal prática, os dados de 2024 mostram um aumento de 50%, em comparação a 2018.
A organização Ecologistas em Ação analisou esse relatório com foco na Espanha, que, juntamente com a Alemanha e a Bélgica, lidera este comércio. Em 2023, quase 17.000 toneladas de agrotóxicos proibidos foram autorizadas para a exportação, com o Mercosul entre os destinatários. No total, 23 substâncias proibidas foram comercializadas, entre elas, fungicidas nocivos para o desenvolvimento fetal e inseticidas que provocam a morte de abelhas. E em nosso país [Espanha] também não podemos afirmar que deixamos de usá-los. Os relatórios anuais de detecção de agrotóxicos da Confederação Hidrográfica do Ebro não só nos alertam dos altos níveis de agrotóxicos nos rios, como também da presença de algumas dessas 23 substâncias proibidas.
Essas informações identificam as empresas que solicitam autorizações para exportar. Além de algumas empresas locais, aparecem multinacionais como Bayer e Corteva, e em outros países europeus, BASF e Syngenta. Nada é por acaso, pois estas quatro multinacionais controlam mais da metade de todas as vendas mundiais de agrotóxicos e lideram a produção dos mais controversos. Ao mesmo tempo, graças ao seu poderoso lobby, desempenham um papel determinante nas decisões políticas tomadas pela Comissão Europeia.
O verdadeiro problema com a expansão do livre comércio é que apenas as grandes corporações se beneficiam, independentemente de onde estejam localizadas. Seja exportando abacates do Chile para Catalunha, para, depois, reexportá-los para o norte da Europa, ou exportando soja do Brasil para a Catalunha, para transformá-la em carne suína que exportamos para o mercado chinês. E, como vimos, também a venda de agrotóxicos que tornam esse modelo possível.
O livre comércio é o álibi para um negócio tóxico, corporativo e com selo europeu.
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