O corpo do padre guerrilheiro Camilo Torres, ícone da esquerda colombiana, foi encontrado

Camilo Torres | Foto: Creative Commons

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09 Fevereiro 2026

Para o ELN, a recuperação dos restos mortais de Camilo Torres é uma vitória simbólica; para o Estado, é uma dívida histórica de verdade e reparação que finalmente começa a ser paga.

A informação é publicada por Religión Digital, 24-01-2026.

A identificação dos restos mortais do padre guerrilheiro Camilo Torres Restrepo, sessenta anos após sua morte, encerra um dos mistérios mais simbólicos do conflito colombiano e abre um novo capítulo na memória histórica do país. A descoberta, confirmada pela Unidade de Busca de Pessoas Desaparecidas (UBPD) e por uma equipe de antropólogos forenses, põe fim a décadas de relatos contraditórios e silêncio institucional sobre o paradeiro do padre que personificou a união entre a fé cristã e a revolução.

Descoberta forense após décadas de silêncio

Camilo Torres morreu em 15 de fevereiro de 1966, aos 37 anos, em seu primeiro combate após ingressar no Exército de Libertação Nacional (ELN), em uma área rural de San Vicente de Chucurí, Santander. O Exército recolheu seu corpo e nunca informou onde foi enterrado, tornando-o oficialmente um desaparecido e um dos casos emblemáticos de corpos ocultados nos primeiros anos do conflito.

Segundo Luz Janeth Forero, diretora da UBPD, o pedido de busca foi recebido em 2019 e, desde então, uma investigação está em andamento. Nos últimos dois anos, essa investigação combinou “verificação de fontes, revisão de documentos históricos, depoimentos e a aplicação de técnicas geomáticas, antropológicas e forenses”. Esse trabalho permitiu localizar e identificar o corpo em Santander, confirmando que se tratam, de fato, dos restos mortais de Torres.

Entretanto, o Instituto Nacional de Medicina Legal esclareceu que está analisando diversas amostras ósseas relacionadas ao caso, enquanto a UBPD insiste que a investigação fez "progressos significativos" que corroboram a identificação, embora continue a refinar as hipóteses para deixar a mínima margem de dúvida científica.

Da batina escondida ao campus universitário

Os restos mortais de Camilo Torres serão sepultados no campus de Bogotá da Universidade Nacional da Colômbia, onde o padre atuou como capelão , foi cofundador do primeiro departamento de sociologia da América Latina e compartilhou salas de aula com figuras como Gabriel García Márquez. O ELN solicitou repetidamente que seu corpo fosse ali depositado, considerando-o um ato simbólico: uma forma de “devolver Camilo ao povo” e reafirmar seu legado político e ideológico.

Durante anos, os guerrilheiros denunciaram que “a oligarquia e o seu Estado” tinham “sequestrado” o corpo do padre guerrilheiro, enquanto a sua figura se tornou um mito para a insurgência. O próprio Presidente Gustavo Petro afirmou que guarda a batina de Torres no Palácio Nariño e manifestou a sua disponibilidade para a entregar ao ELN como gesto de paz, instando a organização a retomar os ensinamentos do “amor efetivo” do padre face à violência agravada pelo narcotráfico e pela prolongação do conflito armado.

Um símbolo da união entre fé e revolução

Camilo Torres foi um dos pioneiros da teologia da libertação na Colômbia: sacerdote e sociólogo, formado em Leuven, influenciado pelo Concílio Vaticano II, pela Revolução Cubana e pelas realidades da pobreza urbana e da desigualdade rural. Ele defendeu uma interpretação do cristianismo enraizada na obrigação moral de transformar estruturas injustas e promoveu iniciativas de organização de base, como os conselhos de ação comunitária, que se tornaram núcleos de participação em bairros e comunidades rurais.

Sua entrada no ELN solidificou uma figura que transcendia sua biografia: para os guerrilheiros, Camilo personificava a justificativa ética da luta armada e a síntese entre fé e revolução; para amplos setores da sociedade, ele permanece um ponto de tensão entre o compromisso radical com os pobres e os limites da violência como ferramenta de mudança. Sua ideia de “amor efetivo” — um amor que vai além do mero sentimento, mas assume riscos pessoais em nome da justiça — ressoava com a ética revolucionária de Ernesto Che Guevara, cuja experiência cubana Torres interpretou como prova de que a revolução era uma possibilidade histórica e não apenas um slogan.

Memória, conflito e futuro

O fato de seu corpo ter vindo à tona agora, quando as negociações de paz entre o ELN e o governo estão suspensas e o grupo guerrilheiro tenta se reposicionar com apelos por um “acordo” que envolva toda a sociedade, acrescenta uma dimensão política à descoberta. Para o ELN, a recuperação dos restos mortais de Camilo Torres é uma vitória simbólica; para o Estado, é uma dívida histórica de verdade e reparação que finalmente começa a ser paga.

O sepultamento na Universidade Nacional transformará o local em um espaço memorial, não apenas para a esquerda colombiana, mas para todos que veem Torres como uma figura incômoda, porém essencial, para a compreensão da interseção entre cristianismo, revolução e conflito armado na Colômbia. Sessenta anos após seu corpo ter sido ocultado, o país se vê obrigado a confrontar não apenas os restos mortais do padre guerrilheiro, mas também as questões que o levaram às montanhas e que permanecem sem resposta até hoje: como combater a injustiça sem reproduzir a espiral de violência que, em última análise, consumiu tantas gerações.

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