15 Janeiro 2026
Para evitar o colapso de ecossistemas e a morte de milhões de pessoas devemos priorizar ações para aprimorar a governança e o florestamento de regiões marinhas-costeiras.
O artigo é de Juliana Di Beo, Paulo Horta e Rede Ressoa, publicado por ((o))eco, 14-01-2026.
Juliana Di Beo é bióloga e atua com comunicação científica para fortalecer a cultura oceânica na rede Ressoa Oceano.
Paulo Horta é biólogo, pós-doutor em Ecologia Marinha, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador do CNPq e membro da Rede Clima, do Instituto Coral Vivo e da IUCN (International Union for Conservation of Nature). Ao longo das últimas décadas tem se dedicado ao diagnóstico e à busca de soluções para a emergência climática e da crise da biodiversidade.
Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.
Eis o artigo.
Diversos ecossistemas como a Floresta Amazônica, a floresta boreal no hemisfério norte, as calotas polares do Ártico e os recifes de corais estão ameaçados de atingir o ponto de não retorno, definidos como o estágio em que um ambiente sofre uma perturbação que desencadeia uma mudança definitiva no sistema. Crescem as evidências de que eventos como secas na Amazônia, perda de gelo no Ártico e branqueamento de corais têm se tornado mais frequentes e intensos. Esses eventos causam grandes impactos como mortalidade em massa, perdas de biodiversidade e da capacidade de absorver e armazenar gases estufa, que podem condenar a humanidade a mudanças irreversíveis de longo prazo. Considerando que milhões de seres humanos dependem desses sistemas naturais, o ecocídio em curso representa o anúncio de um genocídio de dimensões muito maiores, da ordem de cinco vezes mais mortes do que as impostas pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial. O processo em curso, com todas as suas consequências – considerando a segurança hídrica, alimentar, sanitária e civil, está nos levando para um “holocausto climático”.
O aquecimento global e dos oceanos continuou sem cessar, atingindo valores recordes de calor em 2025, em resposta ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa e às recentes reduções nos aerossóis na atmosfera. Previsões recentes das emissões destes gases, reportadas pelo Sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC Sixth Assessment Report), nos colocam em uma rota de aquecimento de 2 ºC em não mais que duas décadas, caso os compromissos climáticos não sejam profundamente revistos com grandes reduções de emissão de gases estufa, especialmente no norte global até 2030.
Se nada for feito, em cerca 15 anos poderemos vivenciar o colapso dos recifes de corais de nosso planeta, os primeiros ecossistemas que poderão ultrapassar o ponto de não retorno. Branqueamento e mortalidade em massa já registrados em todos os mares tropicais do planeta, reforçam que as previsões relacionadas a um aquecimento de 1,5 ºC estavam bem fundamentadas devido às interações entre o aquecimento global, a acidificação dos oceanos e a poluição. Isso representaria uma inestimável perda de biodiversidade marinha e de meios de subsistência humana. Quais caminhos vamos traçar para evitar ou mitigar o pior cenário?
Durante a Conferência das Partes em Belém (COP30) o oceano ganhou um destaque sem precedentes, entrando na discussão da agenda climática. Entre as ambições ligadas à temática marinha apresentadas na COP30 está o Programa Florestas Marinhas para Sempre. A iniciativa é inspirada no Programa Florestas Tropicais para Sempre (TFF) e foi publicizada em 2025 para fortalecer a arrecadação de fundos para financiar ações coordenadas que resultem na conservação, mitigação de impactos e restauração dos ecossistemas da zona costeira e marinha. O programa também impulsionará e ampliará os impactos de iniciativas como o Desafio das Florestas de Algas Marinhas, ou mesmo as ações prioritárias pactuadas em Belém, em novembro do ano passado.
Entre essas ações acordou-se em ampliar soluções azuis para a resiliência climática, com o lançamento dos Planos de Ação Aquática (PAS), destacando os sistemas alimentares aquáticos e a aquicultura de algas como caminhos para elevar a resiliência de sociobiodiversidades marinhas costeiras frente ao aquecimento e acidificação do oceano. Como as florestas de algas marinhas absorvem carbono, elas mitigam os impactos da acidificação do oceano sobre organismos calcificadores e sobre o cultivo de moluscos, por exemplo. Fomentando a maricultura, portanto, podemos promover um florestamento costeiro, com desdobramentos positivos para a natureza, ao mesmo tempo gerar emprego e elevar a segurança alimentar, gerando meios de subsistência e potencializando restauração de ecossistemas.
Os planos fomentam a implementação de ações coordenadas para fortalecer a aquicultura multitrófica, com produção de biomassa que pode ser a base de biorrefinarias, para integrar alimentos aquáticos a produção de alimentos terrestres, fortalecendo a integração regional e as estratégias de combate a crise climáticas nacionais. Este processo deve ampliar o desenvolvimento de soluções baseadas em algas marinhas que contribuem para a mitigação, adaptação e proteção da biodiversidade, ao mesmo tempo que apoiam comunidades costeiras, inclusive considerando um importante recorte de gênero, jovens, pequenos produtores e a pesca artesanal.
Além dos PAS, outras iniciativas precisam ser priorizadas e incluídas em ações para aprimorar a governança e o florestamento marinhos-costeiros nos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), nas estratégias nacionais de desenvolvimento, assim como nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). O Plano para Acelerar os Sistemas Alimentares Aquáticos como Soluções Climáticas, liderado pela Transformação Azul da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Plano para Acelerar os Múltiplos Benefícios da Aquicultura de Algas, coordenado pela Iniciativa Global de Algas Marinhas das Nações Unidas (UNGSI) com parceiros estabelecem um roteiro compartilhado para ampliar o cultivo de algas marinhas a partir da promoção de inovação e de mecanismos de financiamento azul. Assim poderemos posicionar as algas como uma solução fundamental baseada na natureza para a resiliência climática e o desenvolvimento sustentável em ambientes marinhos-costeiros. Implementando ou organizando uma cadeia de produção e consumo devemos melhorar o acesso a mercados, financiamento e cadeias de valor inclusivas para comunidades costeiras, mulheres e jovens envolvidos com a conservação e restauração de florestas marinhas, ou mesmo o florestamento com fazenda de algas de sistemas marinhos-costeiros.
Estas ações já pactuadas podem ser os primeiros passos para assegurarmos um futuro justo para todas as florestas marinhas e suas sociobiodiversidades. Além das florestas de algas, outros ecossistemas, como recifes de corais, manguezais, marismas e gramas marinhas, são considerados florestas azuis porque podem alterar completamente a paisagem, se estender por uma vasta extensão na costa ou leito marinho e sustentar uma rica biodiversidade. Elas podem contribuir para armazenar carbono, reduzir os riscos de alagamentos, erosão costeira e manter a biodiversidade marinha ao fornecer alimento, abrigo e berçário para juvenis. Dessa forma elas contribuem para a pesca, o turismo, educação e para a ciência. Inclusive áreas aplicadas, como aquelas dedicadas ao desenvolvimento de fármacos, estão buscando inspiração e novas drogas em princípios ativos da biodiversidade que dependem de nossas florestas marinhas.
O Instituto Coral Vivo, com a participação de diferentes pesquisadores e instituições, continuará advogando para que o Programa seja incorporado nas ações do país e do nosso Ministério do Meio Ambiente (MMA) e, quem sabe, de forma global durante a COP31 na Turquia. Para isso, o Programa será novamente apresentado no Congresso Futuro, evento organizado pelo Senado Chileno e que deve contar com ampla audiência internacional. A possibilidade de implementação, que está em fase de análise pelo MMA, apresenta desafios especialmente relacionados ao financiamento. O orçamento aprovado pelo Congresso Nacional dificulta sua implementação no Brasil e eleva a necessidade de mudanças na orientação política do Congresso Nacional para corrigirmos essas prioridades o mais breve possível.
O Programa Florestas Marinhas para Sempre pode representar um novo capítulo na busca da implementação do Pacote Azul, que foi construído na COP30, caso entre em vigor. O pacote reúne diversas soluções baseadas nos ecossistemas das regiões costeiras e marinhas, acelerando a agenda oceânica (promovida pela Década do Oceano para proteger e usar o oceano de forma responsável) e elevando a soberania nacional. Conforme divulgado durante a COP30, o investimento estimado globalmente para pesquisas, projetos e ações relacionadas ao oceano é de aproximadamente US$ 116 bilhões por ano.
O Programa Florestas Marinhas para Sempre representa uma forma de fortalecermos e articularmos a captação de recursos para a implementação das ações do Pacote. O Programa inclui ainda um elemento de envolvimento da sociedade com a eventual criação de sistemas de pagamento por serviços ambientais ou mesmo uma renda universal para as sociedades ou comunidades envolvidas no programa. Ele representa ainda um forte elemento de comunicação, sinalizando para nossas sociedades que podemos ter nossas florestas marinhas como nossas aliadas no desenvolvimento de adaptação e mitigação climática. Em um contexto onde as principais economias do mundo dedicam cerca de 2,7 trilhões de dólares em gastos militares, esse montante reforça que não estamos tratando da falta de recursos e sim do erro na hora de priorizar os investimentos das nações.
É importante agora que a discussão sobre o Programa avance para que suas ações sejam implementadas.
A transição para longe dos combustíveis fósseis (“transition away from fossil fuels”) deve caminhar de forma complementar e articulada com às iniciativas que reúnem a parte da restauração e conservação marinha. A partir de Educação Ambiental e Letramento sobre a Cultura Oceânica, a sociedade precisa ser informada dos ciclos viciosos relacionados à exploração e queima dos combustíveis fósseis. Com sociedades melhor informadas poderemos reduzir os impactos da poluição por petróleo, seus derivados, assim como do próprio aquecimento e acidificação do oceano, elevando a resiliência de nossas florestas marinhas. Essa seria a melhor aposta para evitar o colapso de ecossistemas vitais para a humanidade, uma vez que a redução da exploração fóssil diminui a degradação de ecossistemas e a emissão de gases estufa e a conservação marinha aumentam a capacidade do planeta enfrentar as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.
Para atingirmos uma transição justa, gradual e efetiva é fundamental colocar o oceano no centro das discussões e dos financiamentos. Um grande avanço foi dado em 2025 em eventos como G20 e COP30 que colocaram o oceano no palco das discussões. Agora precisamos avançar rapidamente para nossos mares serem o palco das ações prioritárias. Temos a nosso favor a combinação de duas iniciativas propulsoras de mudança: a Década do Oceano e a Década da Restauração dos ecossistemas, sinalizando que precisamos chegar em 2030 fazendo a diferença para honrarmos os compromissos socioambientais e econômicos parte dos objetivos para o desenvolvimento efetivamente sustentável.
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