08 Janeiro 2026
"Nessa competição de quem tem 'mais e mais riqueza e poder', os Estados Unidos estão perdendo sua posição relativa nos dois tabuleiros, o do econômico e das relações transnacionais. O exemplo do BRICS é marcante: o projeto de deixar de lado o dólar como a moeda “oficial” das transações comerciais, que afetaria a economia norte-americana", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Stephen Miller, um dos principais assessores do presidente Trump, em uma entrevista no CNN sobre a invasão dos EUA à Venezuela e a possibilidade de Groenlândia ser o próximo, disse: “Vivemos em um mundo em que se pode falar sobre sutilezas internacionais e tudo mais, mas vivemos em um mundo, no mundo real... que é governado pela força, que é governado pela violência, que é governado pelo poder. Essas são as leis de ferro do mundo desde o início dos tempos”. E acrescentou, “Ninguém vai lutar militarmente contra os EUA pelo futuro da Groenlândia”. E eu poderia acrescentar, nem pela Venezuela ou outros países latino-americanos.
Parece que o tabuleiro da geopolítica internacional mudou ou está mudando radicalmente e, quando o tabuleiro e suas regras mudam, precisamos em primeiro lugar tentar entender o que está acontecendo. Há uma obra de Joseph Nye Jr, O paradoxo americano. Por que a única superpotência do mundo não pode prosseguir isolada (Unesp, 2002), que pode nos ajudar. Ele disse: “na era da informação global o poder se distribui como um jogo de xadrez tridimensional. O tabuleiro militar superior é unipolar, achando-se os Estados Unidos muito à frente dos outros países, mas o tabuleiro econômico do meio é multipolar, os Estados Unidos, a Europa e o Japão respondendo por dois terços da produção mundial [e em outra parte do livro diz, ‘com a probabilidade de a China, transformar-se num jogador importante ainda no começo do século’]; já o tabuleiro inferior, o das relações transnacionais que ultrapassam as fronteiras e escapam ao controle dos governos, tem uma estrutura de poder amplamente dispersa”.
Como um pensador norte-americano do sistema, ele estava preocupado com a manutenção do poder norte-americano no mundo e propôs o conceito de “soft power” (poder brando). “No meu ponto de vista, se os Estados Unidos quiserem conservar-se fortes, precisamos dar atenção também ao nosso poder brando. [...] O poder bruto se apoia tanto em induções (a cenoura) como em ameaças (o porrete). Mas existe um modo indireto de exercer o poder. Na política mundial, é possível que um país obtenha os resultados que quer porque os outros desejam acompanhá-lo, admirando os seus valores, imitando-lhe o exemplo, aspirando ao seu nível de prosperidade e liberdade. Neste sentido, é igualmente tão importante estabelecer a agenda na política mundial e atrair os outros quanto forçá-los a mudar mediante a ameaça ou o uso das armas militares ou econômicas”.
O que acontece quando essa política de atração e de ser o “modelo” do mundo se torna real? Isto é, o que acontece quando setores mais ricos de outros países do mundo se tornam muito parecidos com os ricos e poderosos dos Estados Unidos? As diferenças diminuem e, o mais importante, os mais eficientes das outras regiões do mundo (especialmente no campo das novas tecnologias) podem começar a se tornarem também poderosos ou até mesmo mais poderosos e ricos.
Nessa competição de quem tem “mais e mais riqueza e poder”, os Estados Unidos estão perdendo sua posição relativa nos dois tabuleiros, o do econômico e das relações transnacionais. O exemplo do BRICS é marcante: o projeto de deixar de lado o dólar como a moeda “oficial” das transações comerciais, que afetaria a economia norte-americana.
Nesse contexto, há, pelo menos, dois caminhos possíveis: reconhecer e aceitar as relações e pactos multilaterais, construídos dentro do horizonte de utopia moderna de um mundo mais pacífico e de desenvolvimento social para (quase) todos; ou reafirmar a tese antiga e sempre presente entre nós de que os seres humanos não são iguais, há superiores e inferiores. Essa tese da desigualdade fundamental entre pessoas e povos se expressa pelo critério do poder e vitória; enquanto que a tese da igualdade fundamental se expressa na noção de justiça social.
Nessa metáfora dos tabuleiros, passamos do tempo de “poder brando” para o de “poder duro (hard power)”. Essa política de Trump tem, como sempre, os seus partidários, os que defendem a desigualdade fundamental e porque se sentem ressentidos. Ressentidos porque a sociedade não lhes reconhece suficientemente a sua superioridade por serem machos, brancos, fortes, ricos, escolhidos por Deus... E o ressentimento leva à lógica da vingança e violência, sempre em nome de Deus ou do sagrado.
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