Ação contra Venezuela fratura direita religiosa no Brasil

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil | FotosPúblicas

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07 Janeiro 2026

"Até aqui, a liderança de Silas Malafaia conseguiu sustentar um equilíbrio delicado entre grupos distintos do campo evangélico, de igrejas históricas a neopentecostais — equilíbrio que se completava com a atuação de Michelle Bolsonaro entre mulheres. Esse arranjo, porém, parece ter se desfeito", escreve Juliano Spyer, em artigo publicado por Folha de S.Paulo, 05-01-2026 e reproduzido por André Vallias no seu Facebook, 06-01-2026.

Juliano Spyer é antropólogo e historiador, autor de Crentes (Record) e Povo de Deus (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate.

Eis o artigo.

Quais as consequências do ataque dos EUA à Venezuela para evangélicos brasileiros em ano eleitoral? A ofensiva pode aprofundar o cisma entre conservadores de direita.

O ano de 2025 terminou com o pastor Silas Malafaia elevando o tom ao criticar a indicação de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Flávio respondeu com gestos simbólicos: participou de cultos com o influenciador Pablo Marçal e com André Valadão, líder da Lagoinha Church.

Bolsonaristas raiz, independentemente da religião, reagiram de forma previsível à notícia de que os Estados Unidos atacaram a Venezuela e capturaram seu líder, o ditador Nicolás Maduro.

Jeffrey Chiquini, evangélico e advogado de Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro, escreveu nas redes: "Alguém avisa o Trump que Brasília fica a apenas 3 mil km de Caracas. Tem um cara aqui que chama Maduro de companheiro e que adoraria dividir hospedagem com ele".

Outra ideia recorrente é a de que a investigação contra Maduro, visando a seu julgamento, exporia vínculos com o governo petista. O deputado Nikolas Ferreira e o próprio Flávio Bolsonaro repetiram os mesmos argumentos.

Apesar disso, esse tipo de manifestação foi recebido com silêncio por parte das lideranças evangélicas em grupos de WhatsApp e redes sociais.

A narrativa de que os EUA "salvaram o povo venezuelano da ditadura" não ecoa fora das bolhas mais radicalizadas. Entre pastores e lideranças, predomina a percepção de que uma motivação errada não valida uma boa ação.

A imagem da bandeira americana celebrada em uma manifestação bolsonarista no segundo semestre volta à memória. Donald Trump aparece como um líder belicista e impulsivo, que age por interesses próprios e contribui para desequilibrar o continente.

A Aliança de Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina divulgou comunicado conclamando cristãos latino-americanos a "proclamar o direito de um país soberano à sua soberania e o direito de um povo de viver sem temor de ser invadido".

Líderes da Convenção Nacional Batista da Venezuela, historicamente ligados aos EUA e opositores de Maduro, também não celebraram a ação. Em nota oficial, pediram prudência e orações pelo país: "A crentes e não crentes, nossa exortação é que se mantenham atentos aos acontecimentos e promovam um clima de tranquilidade, primeiro no ambiente familiar e também na comunidade. Nessa ordem, os cristãos são chamados a ser bênção para os outros".

O episódio venezuelano não cria essas divisões, mas atua como catalisador de disputas que já vinham se acumulando no campo evangélico pelo menos desde as eleições de 2024.

Até aqui, a liderança de Silas Malafaia conseguiu sustentar um equilíbrio delicado entre grupos distintos do campo evangélico, de igrejas históricas a neopentecostais — equilíbrio que se completava com a atuação de Michelle Bolsonaro entre mulheres. Esse arranjo, porém, parece ter se desfeito.

Parte do centro evangélico aguarda agora a definição de quem será o outro candidato da direita a disputar a eleição presidencial deste ano.

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