Por que o vazamento de notícias sobre a mudança no arcebispado de Nova York deveria preocupar os católicos. Artigo de Steven P. Millies

Foto: Gunta Kupe/Pexels

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07 Janeiro 2026

O arcebispo de Nova York, dom Timothy Dolan recebeu dom Ronald Hicks durante uma coletiva de imprensa na Catedral de São Patrício, em 18 de dezembro, em Nova York. O papa Leão XIV nomeou Hicks arcebispo de Nova York. 

O artigo é de Steven P. Millies, publicado por NCR, 28-12-2025. 

Steven P. Millies é professor de teologia pública e diretor do Centro Bernardin na União Teológica Católica de Chicago. Seu livro mais recente, A Consistent Ethic of Life: Navigating Catholic Engagement with US Politics, foi publicado pela Paulist Press em 2024.

Eis o artigo.

O dia 15 de dezembro iniciou uma semana das mais incomuns para a Igreja Católica nos Estados Unidos. Uma publicação espanhola, Religión Digital, informou no fim daquele dia que o papa Leão XIV nomearia o bispo Ronald Hicks, de Joliet, Illinois, para suceder o cardeal Timothy Dolan como arcebispo de Nova York. Segundo a reportagem, a nomeação era esperada para o dia seguinte. Na realidade, ainda se passariam mais dois dias até que a nomeação finalmente viesse a público, enquanto católicos nos Estados Unidos especulavam intensamente.

Nomeações episcopais raramente vazam. Muitos novos bispos são nomeados todos os meses ao redor do mundo. A confidencialidade é mantida com notável eficácia, considerando que, para cada nomeação, o processo é longo e consultivo, e muitas pessoas sabem quais candidatos estão sendo avaliados. Isso funciona em parte porque a participação de todos no processo é limitada pelo chamado segredo pontifício: vazar informações constitui um pecado grave para alguém e pode acarretar penalidades segundo o direito canônico.

É chocante que a nomeação de Hicks tenha vazado, mas isso também levantou a intrigante questão de por que ela vazou.

Enquanto aguardávamos para saber se o rumor era verdadeiro, parecia ao menos possível que o vazamento da nomeação de Hicks fosse uma tentativa de inviabilizá-la e de constranger o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago. Cupich é o norte-americano mais influente no comitê do Vaticano que indica bispos para aprovação do papa, o Dicastério para os Bispos. Durante dois anos, Cupich trabalhou de perto na seleção da nova geração de líderes da Igreja com o cardeal Robert Prevost, que, até se tornar o papa Leão XIV, era o chefe do dicastério. Hicks é um protegido de Cupich.

No início deste outono, vários bispos dos EUA fizeram um movimento ousado para constranger Cupich depois que ele anunciou que homenagearia o senador Dick Durbin, que é católico, por sua vida inteira de trabalho em políticas de imigração nos Estados Unidos. Os bispos que se opuseram apontaram que Durbin também é favorável ao direito ao aborto e que homenageá-lo enviaria a mensagem errada. Leão interveio pessoalmente, parecendo ficar do lado de Cupich, mas, àquela altura, Durbin já havia recusado a homenagem.

Os opositores de Cupich estariam novamente em ação, vazando a notícia da nomeação para Nova York?

Um pouco mais de contexto histórico pode ajudar. Em sua votação de 2010 para a presidência da conferência episcopal, os bispos dos EUA romperam com a tradição e pularam o vice-presidente, o moderado bispo Gerald Kicanas, do Arizona, elegendo em seu lugar Dolan, visto como mais conservador. Essa demonstração desagradável de força bruta colocou os bispos em uma campanha de 15 anos para se oporem à cultura americana mais ampla e, como se viu depois, à direção que a Igreja tomaria. Francisco foi eleito papa pouco mais de dois anos depois, e a maioria dos bispos dos EUA permaneceu desalinhada com ele até sua morte.

Provocar turbulência com a nomeação de Leão para substituir Dolan — o último cardeal-arcebispo em atividade criado pelo papa Bento XVI — parece um movimento desestabilizador por parte daqueles que percebem que a Igreja nos EUA finalmente está se alinhando às prioridades de Francisco e de Leão.

Em entrevista à NBC News após a nomeação de Hicks, Cupich disse que seu ex-bispo auxiliar levaria um estilo diferente a Nova York, prevendo que Hicks dará prioridade a ser pastor, não uma figura midiática, em consonância com a visão de ministério de Francisco. Sem dizê-lo explicitamente, Cupich estava declarando o fim de uma era, um tempo caracterizado por guerras culturais e confrontação.

Embora não tenha sido o pior entre os bispos guerreiros da cultura, Dolan foi, ainda assim, um deles de modo consistente. Desde as disputas sobre liberdade religiosa na era Obama e a campanha Fortnight for Freedom iniciada sob sua liderança na Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, passando por sua bajulação servil ao presidente Donald Trump durante a pandemia de COVID-19, sua participação na comissão de liberdade religiosa de Trump e seu panegírico a Charlie Kirk, não se pode dizer que Dolan tenha apaziguado divisões ou promovido a paz — mesmo quando Francisco pediu explicitamente aos bispos dos EUA que buscassem “unidade”, “reconciliassem diferenças” e promovessem uma Igreja “na qual não habite divisão”.

Há ainda mais um motivo para pensar que algo está acontecendo nos bastidores. Todos os bispos católicos são obrigados pelo direito canônico a apresentar suas renúncias aos 75 anos, após o que o papa as aceita no momento que julgar oportuno. Ultimamente, os bispos têm permanecido cada vez mais tempo no cargo. O cardeal Seán O’Malley, de Boston, permaneceu até os 80. Cupich está prestes a completar 77. Um bispo brincou recentemente comigo dizendo que “78 é o novo 75”. Dolan tem 75 anos há apenas 10 meses, e não ouvimos relatos de quaisquer problemas de saúde incomuns.

Por que a história vazou? Provavelmente nunca saberemos. Dado que o efeito do vazamento foi transformar a substituição de Dolan, que seria uma notícia menos sensacional de um dia, em um assunto de uma semana inteira, ele pode ter vindo de qualquer um dos lados. Se essa foi a intenção, foi tão brutal quanto o que foi feito com Kicanas em 2010. Esse tipo de retaliação não serve a ninguém. Seja qual for a razão, nossa atenção precisa ir além de tudo isso e se voltar para o significado deste momento de transição à luz da história.

A Igreja Católica nos EUA enfrenta desafios extraordinários — queda na participação na missa, diminuição das vocações ao sacerdócio, a enorme escala e as consequências dos acordos financeiros por abusos sexuais cometidos pelo clero. Hicks estará na linha de frente de muitos desses desafios. Mas há outros também. Eles dizem respeito a todos na Igreja.

O maior desses desafios é acabar com a sensação entre os católicos de que um “lado” está vencendo ou perdendo. Divisores dominaram a Igreja por tempo demais. Geramos uma cultura de “influencerismo” católico on-line que envenenou a Igreja, torcendo-a em dois campos opostos presos a uma disputa aparentemente interminável, que pouco faz para promover o Reino de Deus, mas arrecada muito dinheiro e exerce notável influência política. Isso não era o que Francisco queria. Temos bons motivos para crer que também não é o que Leão, Cupich ou Hicks desejam.

Mas mais católicos precisam querer isso. Eles precisam parar de ouvir aqueles que dizem falar pela Igreja, mas que apenas a dividem. Seria melhor dar atenção aos pastores da Igreja cuja maior ambição é acompanhar e servir seu povo.

Temos cada vez mais desses bispos agora. Hicks é um deles. Muito sucesso a ele.

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