Desarmar também a fome: o pão refém das guerras. Artigo de Maurizio Martina

Sistema agrícola de Gaza | Foto: Anadolu Ajansi

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06 Janeiro 2026

"A paz ainda é, em todos os lugares, um pré-requisito essencial para combater a fome; sem ela, nenhuma ação, nenhuma política, nenhum instrumento pode realmente possibilitar a saída das condições mais extremas de pobreza alimentar para milhões de pessoas", escreve Maurizio Martina, diretor-geral adjunto da FAO, em artigo publicado por Avvenire, 23-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Fome e guerra desde sempre andaram de mãos dadas. Pensávamos ter deixado para trás as imagens mais dramáticas dessa combinação devastadora criada pelo homem. Mas, infelizmente, os noticiários nos trouxeram de volta, e continuam a nos trazer, a manifestação concreta dessa espiral que afeta, em todos os lugares e na maioria das vezes, mulheres e crianças. Talvez seja verdade que as guerras do novo século, as "híbridas" e de última geração, sejam travadas com drones e satélites. Mas, no campo dos territórios devastados pelas armas, as emergências alimentares — assim como as emergências sanitárias — continuam sendo as frentes dramáticas enfrentadas por populações civis indefesas. A realidade nos conta que o mundo está vivenciando atualmente o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Direta ou indiretamente, mais de noventa países estão envolvidos, resultando em milhares e milhares de vítimas e milhões de deslocados.

A Save the Children denunciou mais de quarenta crises humanitárias ativas este ano, com oito milhões de crianças nascidas em zonas de guerra. Entre os contextos mais dramáticos, juntamente com o Sudão, está Gaza. A análise mais recente confirma que nenhuma área da Faixa está atualmente classificada como estando em estado de carestia, após o cessar-fogo. Esse progresso continua sendo extremamente frágil, já que a população continua a lutar contra a destruição massiva das infraestruturas e o colapso dos meios de subsistência e da produção local de alimentos. Sem uma expansão sustentada e em larga escala da assistência alimentar, dos meios de subsistência, da agricultura e da saúde, juntamente com o aumento do fluxo comercial, centenas de milhares de pessoas poderiam rapidamente voltar a sofrer com a fome.

De acordo com o relatório, pelo menos 1,6 milhão de pessoas continuam enfrentando altos níveis de insegurança alimentar aguda, incluindo mais de 100 mil crianças. Quatro províncias estão atualmente classificadas como em estado de emergência até abril de 2026. Essa fase ainda indica grave insegurança, caracterizada por grandes lacunas no consumo de alimentos, altos níveis de desnutrição aguda e alto risco de mortalidade. Embora o cessar-fogo tenha melhorado em parte as entregas de alimentos, ração, itens de primeira necessidade e importações comerciais essenciais, a maioria das famílias ainda enfrenta graves dificuldades.

Desde o cessar-fogo, mais de 730.000 pessoas foram deslocadas, muitas das quais vivem em abrigos improvisados e dependem fortemente de ajuda humanitária. Além disso, o acesso limitado a água, saneamento e serviços de higiene, assistência médica e a destruição generalizada de terras cultiváveis, rebanhos, atividades pesqueiras, estradas e outras infraestruturas críticas representam enormes desafios para a população e para os esforços de socorro em curso. Crianças abaixo dos cinco anos, juntamente com mulheres grávidas e lactantes, continuam entre as mais vulneráveis. Nenhuma criança atinge a diversidade alimentar mínima e dois terços sofrem de grave pobreza alimentar. Estima-se que as necessidades de recuperação e reconstrução de Gaza cheguem a 53,2 bilhões de dólares na próxima década. Isso inclui 4,2 bilhões para agricultura e sistemas alimentares, dos quais 1,06 bilhão de dólares são necessários para a recuperação a curto e médio prazo (até três anos). O setor agroalimentar de Gaza sofreu sozinho danos diretos de mais de 835 milhões de dólares e perdas econômicas de 1,3 bilhão, comprometendo a segurança alimentar, a taxa de emprego e a economia local.

Em Gaza, as restrições às importações e as limitações de acesso restringiram o fornecimento de insumos, levando a FAO a experimentar um modelo de assistência baseado no dinheiro, uma das poucas soluções viáveis para as famílias participantes, permitindo-lhes atender às necessidades urgentes de subsistência com dignidade e flexibilidade. Estamos ampliando a assistência em dinheiro para alcançar mais de 2.000 famílias de criadores de animais, permitindo-lhes comprar ração e proteger a produção essencial. Distribuímos mais de 2.000 toneladas de ração e quase 2.500 kits veterinários para aproximadamente 5.000 famílias de criadores, para ajudá-las a proteger os animais restantes. São gotas no oceano das necessidades primárias dessas comunidades. Mas, pelo menos, são gotas de esperança. A paz ainda é, em todos os lugares, um pré-requisito essencial para combater a fome; sem ela, nenhuma ação, nenhuma política, nenhum instrumento pode realmente possibilitar a saída das condições mais extremas de pobreza alimentar para milhões de pessoas.

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