06 Janeiro 2026
"Na psique humana, o inconsciente está tão intimamente ligado ao consciente que não podemos conceber as 'infinitas confusões' do primeiro sem as 'distinções precisas' do segundo. Ambos, estruturalmente, "se apresentam" como um todo a ser analisado e como singularidade a ser composta: opostos em conflito e abraçados."
O artigo é de Andrea Carandini, professor italiano de arqueologia especializado na Roma Antiga, publicado por Corriere della Sera, 22-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
De tanto desestruturar sem equilíbrios, estamos nos reduzindo a zero. Resta a saudade ou o vazio, exceto a ciência e a tecnologia, que progridem isoladamente! Máquinas inteligentes triunfam, mas a humanidade dentro de nós virou uma luzinha: pequenos prazeres a serem satisfeitos imediatamente para acalmar a insensatez de um todo liquefeito onde nada mais se mantém, e no fim, somos infelizes! Três milênios de civilização chegaram ao fim, e agora? Contudo, nas dobras do tecido social esfarrapado, operam obscuros construtores de futuro, intercalando aos suspiros de cansaço embriões de solidez e duração. Deduzo disso que a realidade não coincide com a nossa interpretação dela, incluindo este desabafo.
Ao estudar a lenda de Roma por camadas (em quatro volumes da Fundação Valla), chegamos à versão oral essencial e compartilhada que data dos séculos VII e VIII. Nela, a história tende a desaparecer, engolida pelo mito; contudo, alguns lampejos de realidade sobreviveram... Assim, Rômulo, o primeiro rei de Roma, fundou uma cidade-estado no conjunto de bairros de Septimontium, mas tinha um gêmeo, eram filhos de uma princesa de Alba Longa, foram alimentados pelos reis divinos Pico, o pica-pau, e Fauno, o lobo/loba, e foram salvos pela Mãe dos Lares? Duvido: poderia muito bem ser um filho de um qualquer...
Da mesma forma, o Jesus "histórico" não coincide com o Cristo "ideal" delineado por Paulo e os apóstolos, em grande dificuldade após a sua morte: ele havia sido abandonado pelo pai celestial à infame cruz e havia anunciado a vinda do "reino de Deus" dentro de uma geração, o que nunca aconteceu. Sobre isso se discute desde o século XVIII. O último a tentar resolver a questão foi o Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger, ao afirmar que Jesus é Cristo; mas a questão é agora reaberta pelo teólogo Vito Mancuso em Gesù e Cristo, obra de 776 páginas dedicada a Piero Martinetti (Garzanti): um tratado sério, fascinante e inevitável. Será que a obra de Benedetto Croce, Por que não podemos não nos chamar de "cristãos" (1942), ainda é válida?
A consciência moderna sente repulsa pela ideia de que toda a humanidade tenha sido manchada pelo "pecado original" de Adão — desconhecido no Antigo Testamento e concebido por Paulo de Tarso nos anos 50 d.C. — e que, para lavar essa mácula, Cristo teve que ser sacrificado a um Deus que o "escolheu" para nos redimir, incapazes que somos de nos salvarmos seguindo a justiça e o amor — como Jesus, isento de tal pecado, havia pregado. A ideia atormentou até mesmo o Cardeal Carlo Maria Martini: "Eu não conseguia entender por que Deus permitiu que seu filho sofresse na Cruz... Eu culpava a Deus..." Mancuso agora responde a essa questão, primeiro identificando e datando o Cristo de Pedro e Paulo e, em seguida, revelando aquilo que com este contrasta, ou seja, quanto do Jesus histórico sobreviveu nas primeiras cartas de Paulo e nos Evangelhos. Sociedades imersas no sagrado exigem para serem compreendidas a epistemologia de um especialista em "mito-história".
No Evangelho de Marcos (c. 70 d.C.), Jesus não é filho de José nem do espírito de Deus, mas apenas "de Maria de Nazaré", contrariando o costume dos patronímicos na Palestina. Seria um rumor que circulava naquela aldeia sobre seu nascimento de um pai desconhecido? Além disso, Jesus chamava a mãe de "mulher" e demonstrava pouco apreço por ela, pelos seus quatro irmãos (que o consideravam meio desequilibrado) e pelas irmãs, aos quais preferia seus seguidores. Na verdade, é mais Cristo — e não Jesus — quem é concebido por José ou pelo espírito de Javé em Maria, e ainda por cima em Belém, o berço de Davi e dos messias...
Podemos imaginar Maria, que talvez havia saído de casa para se encontrar com algumas amigas, sendo arrastada e violentada... Então José, reconhecendo sua inocência, casou-se com ela e teve filhos e filhas. Contudo, por mais compreensivo que fosse como pai, ele foi incapaz de consertar em Jesus o trauma original de não ser seu filho, que ele sentia como uma impureza. Portanto, uma purificação se fazia necessária: a do Batista no Jordão.
Assim purificado, ele viu os céus se abrirem e uma pomba descer sobre ele: o espírito de Javé, que lhe pediu para profetizar e preparar o reino de Deus. Dessa forma, o vazio da função paterna foi preenchido pela paternidade infinita do único Deus, que inspirou nele a visão da iminente queda dos tronos do mundo, substituídos pelo reino de Javé, que elevou Jesus espiritualmente acima da humanidade — embora sem infringir sua singularidade — como "filho do homem". Dentro de uma geração, a história teria terminado em um incêndio e um juízo universal, razão pela qual era preciso tornar-se radicalmente e rapidamente bons para ser absolvidos ou condenados. Em vez disso, Jesus, rebelde contra o clero judaico aliado aos romanos, foi condenado como "rei dos judeus" e morreu na cruz em desespero: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?".
Além disso, o reino de Deus nunca veio, enquanto Nero ascendeu ao trono mais alto! Para os seguidores de Cristo, seguiram-se vinte anos de angústia devido à sentença de morte e à profecia que não se realizou; até que Paulo, em meados dos anos 50, interpretou a morte de Cristo como prevista, desejada, redentora do pecado original atribuído a toda a humanidade — não redimida antes de Cristo? — compensando com essa redenção o desaparecido reino de Deus. Sem essa visão — alheia ao Jesus histórico — o filho de Maria teria sido meramente um messias derrotado. Contudo, Jesus, idealizado como Cristo — vitorioso através dos séculos e no mundo graças a um instrumento de tortura transformado em símbolo de redenção — sente repulsa por uma moralidade alheia a um Deus que concede graça por meio do sacrifício humano.
Voltando a Benedetto Croce: hoje não podemos deixar de ser "jesuanos" e eventualmente "neocristãos", reconstruindo filologicamente Jesus e reinterpretando sua figura em consonância com a consciência que se desenvolveu ao longo dos últimos três séculos. O cristianismo concebido por Paulo perdeu sua força motriz na modernidade: havia ganhado o império — desconhecido de Jesus, focado na "eleita" Palestina — perdendo primeiro Jesus e, por fim, muitos de nós. Como arqueólogo, inclino-me para o submundo, entendido como estratificação terrena e humana a ser escavada, contraposta à espiritualidade do céu — mas, no caso de transcender, entre Paulo de Tarso e Vito Mancuso de Carate Brianza, escolho este último, com apenas uma diferença.
Para ele, a harmonia é o que faz funcionar a vida. Eu acredito, porém, que os organismos evoluídos funcionam graças a opostos que cooperam em conflito. A harmonia é uma temperança momentânea dos opostos que é seguida por uma nova desordem. Sem o mal, seríamos escravos do bem, em vez de livres para escolhê-lo. O próprio bem muda conforme as circunstâncias: amamos a paz, mas se alguém nos invade, nos armamos, e mesmo entre os bens há conflito, como entre justiça e liberdade. Assim, entre desejos e emoções inconscientes, entre sentimentos e razões conscientes, entre moral e transcendência espiritual, nos debatemos, às vezes afagados pela harmonia e às vezes atingidos pela dissonância. Até mesmo Johann Sebastian Bach é dissonância que se resolve em harmonia, e vice-versa.
Em suma, na psique humana, o inconsciente está tão intimamente ligado ao consciente que não podemos conceber as "infinitas confusões" do primeiro sem as "distinções precisas" do segundo. Ambos, estruturalmente, "se apresentam" como um todo a ser analisado e como singularidade a ser composta: opostos em conflito e abraçados.
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