05 Janeiro 2026
Ouvir Trump é incrivelmente triste. Como tantas pessoas podem achar que ser ignorante é algo decente? Como conseguimos desvalorizar a inteligência dessa forma?
O artigo é de Martín Caparrós, escritor e jornalista argentino, publicado por El País, 04-01-2026
Eis o artigo.
Se alguém lhe perguntasse o que é uma oração subordinada, imagino que o Sr. Trump diria: "Bem, qualquer mulher, é para isso que as mulheres servem" — ou algo parecido. Ele poderia até esclarecer que não se trata de sexismo: se lhe perguntassem o que é uma oração subordinada, ele diria: "Bem, qualquer homem, é para isso que eu sou o chefe, porra". Mas o problema com as orações subordinadas persiste: é evidente que o Sr. Trump, que ainda não aprendeu que as frases têm sujeito e predicado, jamais compreenderá essa pequena complexidade que qualquer criança usa: incluir uma oração subordinada em sua frase, algo que qualquer criança nos EUA faz.
É doloroso ouvi-lo. Ouvir ele massacrar a língua inglesa é incrivelmente triste: como um homem incapaz de articular oito palavras chegou a tal posição? A possível resposta é ainda mais triste: deve ser que em seu país existam 70 ou 80 milhões de pessoas que acreditam que falar assim é melhor, que falar assim é falar com seriedade, que é assim que homens de verdade falam, e elas se renderam à sua influência. Como tantas pessoas podem pensar que ser ignorante é ser decente? Como conseguimos desvalorizar a inteligência dessa forma? É cruel, mas ainda pior — muito pior — é a evidência de que um homem primitivo, semianalfabeto, vingativo, violento e desdenhoso comanda o maior exército que o mundo já viu.
E ele está disposto a usá-lo sempre que bem entender: está disposto a desconsiderar as leis, regras e acordos que seu país assinou porque sabe que seu exército é maior e não vê motivo para não usá-lo. Então, a pergunta volta a ser: como o mundo deu a esse homem mentalmente perturbado o poder de nos destruir? É isso que somos? Um bando de idiotas procurando a maneira mais idiota de acabar com tudo, de finalmente deixar nossa terra para as baratas?
O Sr. Trump agiu: enviou inúmeros aviões de guerra, helicópteros de ataque, navios de guerra e bonecos de treinamento para sequestrar um presidente estrangeiro — ilegítimo. Ele o sequestrou, junto com sua esposa, e agora os mantém sequestrados. Os líderes mundiais assistem, tentando disfarçar o terror: estão mais assustados do que envergonhados. E ele tagarela orgulhosamente, explicando que o prendeu por ser um "narcoterrorista" porque suas drogas mataram milhares de americanos. A explicação é digna de seu nível intelectual: seus compatriotas são viciados em drogas não porque têm problemas ou porque vivem em um país que cria esses problemas, mas porque estrangeiros malvados os drogam — e, portanto, ele precisa perseguir os estrangeiros para salvar os americanos. Perguntas, mais perguntas: o homem mais poderoso do mundo pode realmente dizer tamanha bobagem? Será que realmente conseguimos fazer de um tolo como ele o homem mais poderoso do mundo?
Alguns podem argumentar, usando narrativas ultrapassadas, que o ataque militar de Trump foi um erro terrível: ao sequestrar o líder desonrado, ele lhe estaria dando uma nova chance de vida. Agora, para alguns de seus compatriotas, Maduro será o mártir, a "vítima do imperialismo americano", e será legítimo para eles lutar por seu retorno ou por seus ideais com qualquer arma à disposição. Quem poderá dizer que eles não têm esse direito se seu país foi atacado por um exército estrangeiro com as armas mais modernas e letais? Em um continente onde a política não mais se vale da violência, o Sr. Trump a trouxe de volta à tona. Espero estar enganado.
O Sr. Trump não para de falar sozinho — o Dr. Freud ficaria perplexo — mas de todas as suas gafes, a melhor, a mais reveladora, foi quando chamou seu novo prisioneiro, o Sr. Maduro, de “ditador ilegal”. Na minha escola, quando eu era criança, me ensinaram que ser ditador era ilegal: que não pode haver “ditadores legais”. Parece que o Sr. Trump, com seu subconsciente à mostra, pensa diferente — e se alguém lhe diz o contrário, ele vai dar mais uma olhada no espelho.
O problema é o que aquele espelho lhe diz: que sim, ele é o maior e o mais forte, e qualquer um que se meta com ele verá o que acontece, porque ele é o maldito chefe, aquele que decide como o mundo é. Ele fez isso hoje, e ninguém disse uma palavra. Se permanecermos em silêncio, isso se tornará verdade, cada vez mais verdade. Não sei se reagir — nas ruas, na mídia, nas redes sociais, nos ministérios das relações exteriores — adiantará alguma coisa, mas não reagir é uma forma brutal de suicídio. Agora, de fato, é uma questão de vida ou morte.
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