A Doutrina Monroe II e o espectro do narcoterrorismo

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05 Novembro 2025

“A visão dos assessores de Trump é uma Doutrina Monroe II. Os assassinatos ilegais em alto-mar fornecem imagens espetaculares para Trump, que está obcecado pela televisão, pois isto lhe permite esconder a realidade. O governo combate fantasmas, enquanto, hoje como antes, as vítimas são pessoas reais, com o Caribe se tornando o laboratório de testes do imperialismo estadunidense”, escrevem Miguel Tinker Salas e Victor Silverman, professores eméritos do Departamento de História, do Pomona College, em artigo publicado por La Jornada, 01-11-2025. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela aumenta a cada dia. Enquanto isso, o presidente Donald Trump permanece obcecado em ganhar o Prêmio Nobel da Paz, insistindo que negociou a interrupção das hostilidades entre vários países, inclusive de alguns conflitos que nunca existiram. Estas são ações de um presidente cada vez mais incapacitado ou fazem parte de uma estratégia que busca a derrota da esquerda na América Latina? Talvez ambas as possibilidades sejam possíveis. Parafraseando Karl Marx e Friedrich Engels, um espectro ronda os Estados Unidos: o espectro do narcoterrorismo.

Washington declarou que o objetivo de sua mobilização em massa no Caribe é interceptar o tráfico de drogas da América Latina para os Estados Unidos. Querem que acreditemos que para destruir 13 barcos e matar 57 pessoas que supostamente traficavam cocaína e fentanil é necessária a presença de 15% da força naval dos Estados Unidos, incluindo o maior porta-aviões do mundo, o Gerald R. Ford, vários destróieres, um navio de combate litorâneo e um submarino nuclear.

A força naval é apoiada por uma equipe de helicópteros no Panamá, e um esquadrão de caças F-35B, concentrado em Porto Rico. Os Estados Unidos também possuem bases militares em Cuba, El Salvador e Aruba, e contam com a ajuda explícita do governo de Trinidad e Tobago. Como se não bastasse, o Comando Sul também enviou bombardeiros B-52, capazes de transportar armas nucleares para sobrevoar a costa venezuelana. O presidente Trump também autorizou ações da CIA em território venezuelano.

O pretexto para destruir os barcos e matar seus tripulantes é que o seu destino final era o território dos Estados Unidos, a uma distância de 2.600 km, o que seria impossível sem inúmeras paradas para reabastecimento. A realidade é que o governo Trump não oferece a menor prova que indique que esses barcos tentavam chegar aos Estados Unidos.

O mais provável é que alguns pertencem a redes de pescadores e, sem dúvida, alguns seriam contrabandistas, que sempre atuaram no Caribe traficando mercadorias, gasolina ou migrantes. Como observou um pescador de Trinidad e Tobago: “nenhum traficante de drogas vai colocar 11 pessoas em um barco, se o objetivo for traficar drogas”.

Segundo Trump, os tripulantes são membros do Tren de Aragua, uma gangue criminosa que opera na Venezuela e supostamente representa uma força invasora sob as ordens do governo da Venezuela, cuja intenção é matar estadunidenses. Assim como fez com a Mara Salvatrucha, durante seu primeiro governo, Trump demonizou os imigrantes venezuelanos ao associá-los à gangue Tren de Aragua. No contexto internacional, o país e sua população também são demonizados, vistos como o principal inimigo dos Estados Unidos na América Latina. Essa postura de criar monstros agora se transforma em uma justificativa para atacar embarcações no Caribe.

O presidente Trump, seu principal assessor, Stephen Miller, e o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmam que os chamados narcoterroristas ameaçam a segurança dos Estados Unidos. Assim como no Iraque, onde os Estados Unidos promoveram falsamente a existência de “armas de destruição em massa” para iniciar uma guerra, no Caribe, usam o narcotráfico para justificar suas ações militares e pressionar a Venezuela e a Colômbia.

Segundo Trump, os barcos e seus carregamentos representam uma ameaça existencial aos Estados Unidos. Trump manipula esta posição para evitar ter que pedir ao Congresso uma declaração de guerra e, desta forma, ele e seu governo se convertem em juiz, júri e verdugo das pessoas nos barcos.

Sem muito sucesso, alguns congressistas democratas criticaram as ações de seu governo. Trump também recebeu críticas de setores inesperados. Advogados militares aposentados declararam que a execução dos tripulantes não só viola o direito internacional, como também a lei dos Estados Unidos. O almirante Alvin Holsey, comandante do Comando Sul responsável pelo destacamento no Caribe, renunciou, em meados de outubro, por discordar das ações letais do governo.

Em abril, o Conselho Nacional de Inteligência e outros serviços de inteligência nos Estados Unidos refutaram a posição de Trump, apontando que a Venezuela não produz cocaína, nem fentanil, e que o governo não controla o crime organizado. Sobretudo, confirmavam que as principais rotas de tráfico de drogas operam no Pacífico e não no Caribe. Posteriormente, o presidente e o vice-presidente do Conselho foram demitidos e a Casa Branca divulgou um relatório do FBI justificando suas ações.

Trump não possui uma estratégia sistemática; a maioria de suas ideias surgem da última transmissão da Fox News ou de suas interações com algum assessor ou empresário. No entanto, seus assessores, especialmente o secretário de Estado, Rubio, sim, afirmam ter planos que almejam “resgatar” a América Latina da esquerda. Rubio e seus parceiros tentam derrubar o governo da Venezuela. Também buscam influenciar nas eleições da Colômbia e, a longo prazo, seu objetivo é transformar os governos de Cuba, Nicarágua e até mesmo do México e do Brasil.

A visão dos assessores de Trump é uma Doutrina Monroe II. Os assassinatos ilegais em alto-mar fornecem imagens espetaculares para Trump, que está obcecado pela televisão, pois isto lhe permite esconder a realidade. O governo combate fantasmas, enquanto, hoje como antes, as vítimas são pessoas reais, com o Caribe se tornando o laboratório de testes do imperialismo estadunidense.

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