Choque na Irlanda quando um túmulo contendo corpos de 800 bebês é descoberto em um abrigo religioso

Foto: Williamcrawley

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15 Julho 2025

  • O sepultamento foi encontrado em 2014 em um antigo tanque de esgoto.

  • As vítimas são filhos de mulheres que engravidaram fora do casamento e que foram presas a pedido do Estado irlandês e da Igreja Católica.

  • 56 mil mulheres solteiras e 57 mil crianças passaram por 18 desses lares na Irlanda entre 1922 e 1998.

A informação é publicada em Religión Digital, 14-07-2025.

Não há registros de sepultamento. Nenhuma lápide. Nenhum memorial. Nada até 2014, quando um historiador amador descobriu evidências de uma vala comum, possivelmente em um antigo tanque de esgoto, que se acredita conter centenas de bebês (quase 800) em Tuam, Condado de Galway, no oeste da Irlanda.

Agora, pesquisadores moveram suas escavadeiras para o gramado ao lado de um parquinho infantil em um conjunto habitacional na cidade. A escavação, com duração prevista de dois anos, começará na segunda-feira. Essa área era antigamente o lar infantil St. Mary, instituição administrada pela igreja que abrigou milhares de mulheres e crianças entre 1925 e 1961. Mais de 10 anos após a descoberta de uma vala comum contendo 796 bebês e crianças no local de um antigo abrigo religioso na Irlanda, chegou a hora das primeiras exumações, um processo que causou comoção em todo o país.

A historiadora irlandesa Catherine Corless, seguindo as primeiras pistas, conseguiu comprovar que várias crianças, desde recém-nascidos até crianças de 9 anos, morreram no abrigo Santa Maria do Bom Socorro em Tuam, cerca de 200 quilômetros a oeste de Dublin. Assim, ela descobriu o infame túmulo, apesar da grande resistência das autoridades.

Embora esta instituição para gestantes solteiras e seus filhos tenha sido destruída em 1972, a fossa séptica permaneceu intacta. Restos mortais de bebês já foram descobertos neste local durante as buscas iniciais realizadas entre 2016 e 2017. Mas o trabalho incansável de Catherine Corless facilitou a abertura de uma comissão nacional de inquérito sobre os abusos sofridos por mães e crianças nessas casas.

Em suas conclusões, divulgadas em 2021, a comissão destacou níveis alarmantes de mortalidade infantil nessas instituições, onde 9 mil crianças morreram, afirmou. No total, 56 mil mulheres solteiras e 57 mil crianças passaram por 18 desses lares na Irlanda entre 1922 e 1998. De acordo com os registros de óbitos, Patrick Derrane foi o primeiro bebê a morrer em St. Mary's, em 1925, aos cinco meses de idade. Mary Carty, da mesma idade, foi a últma, em 1960, relata a BBC. Nos 35 anos entre suas mortes, sabe-se que quase 800 outros bebês e crianças pequenas morreram lá, e acredita-se que estejam enterrados no que o ex-Taoiseach (primeiro-ministro irlandês) Enda Kenny chamou de "câmara dos horrores".

"Tire os bebês"

"Quando comecei este projeto, ninguém me ouvia (...) Eu implorava: tirem os bebês destes canos, temos que oferecer a eles o enterro cristão digno que lhes foi negado", disse o historiador de 71 anos.

Naquela época, mulheres que engravidavam fora do casamento eram presas ali a mando do Estado irlandês e da poderosa Igreja Católica, que administravam o complexo em conjunto.

Elas deram à luz antes de serem separadas dos filhos, que muitas vezes eram entregues para adoção. Rejeitadas pelas famílias e separadas dos filhos após o parto, muitas delas nunca souberam o que aconteceu com seus bebês.

"Éramos lixo de rua"

PJ Haverty, agora um homem idoso, passou os primeiros seis anos de sua vida no lugar que chama de prisão, mas se considera um dos sortudos. "Eu saí de lá", explica ele à emissora pública britânica. Ele se lembra de como as "crianças de casa", como eram conhecidas, eram rejeitadas na escola. "Tínhamos que chegar 10 minutos atrasados e sair 10 minutos mais cedo porque eles não queriam que falássemos com as outras crianças", observa. "Mesmo durante o recreio na escola, não podíamos brincar com eles; éramos isolados. Vocês eram lixo de rua".

Com a exumação agora planejada, espera-se levar verdade, justiça e reparação às vítimas de um dos episódios mais sombrios da história recente do país.

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