Feminicídios no RS: ‘Governo estadual não está dando prioridade à vida das mulheres’

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

30 Abril 2025

Após 10 feminicídios em um feriadão, representantes de entidades de defesa dos direitos das mulheres alertam sobre falhas na proteção.

A reportagem é de Marihá Maria, publicada por Sul21, 29-04-2025. 

O feriadão de Páscoa no Rio Grande do Sul foi marcado por uma onda de feminicídios, foram dez assassinatos de mulheres em apenas cinco dias. A sexta-feira (18) já havia registrado seis casos em um único dia, e a violência se prolongou ao longo do final de semana, com mais quatro feminicídios até a segunda-feira (21). Para representantes de entidades de defesa dos direitos das mulheres, a escalada de casos evidencia a gravidade da violência contra a mulher e alerta para uma insuficiência do Estado em garantir políticas efetivas de proteção.

“Uma tragédia anunciada”, é como descreve Fabiane Dutra, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDM), a série de feminicídios registrados no estado. Segundo ela, o feriado seria um momento de descanso ao lado dos filhos, mas acabou sendo dedicado ao atendimento dos casos, junto a outras voluntárias do conselho. Para Fabiane, a situação reflete o avanço do ódio contra as mulheres e a negligência do Estado em implementar políticas eficazes de prevenção à violência de gênero.

Como ela explica, os dez casos chamam a atenção, mas retratam situações que ocorrem diariamente. Para a presidente do Conselho, a sequência de medidas adotadas pelo Estado para limitar ou encerrar serviços de apoio no enfrentamento à violência contra a mulher ajuda a entender a escalada no registro desses crimes.

Entre os principais marcos desse desmonte, Fabiane destaca a extinção da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres, em 2015, que foi transformada em um departamento, agora vinculado à Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos. Ela relata que, desde então, diversos serviços foram encerrados ou esvaziados. O próprio CEDM chegou a ser desarticulado em 2019 e só retomou as atividades em 2023, após mobilização junto ao Ministério Público.

“Por isso que a gente tem a campanha pela volta da Secretaria de Política para as Mulheres. Porque uma secretaria consegue trabalhar nessa transversalidade, dialogando com outros secretários. Uma secretaria tem recursos humanos e financeiros que geralmente são suficientes ou pelo menos bem maiores do que de um departamento”, explica.

Fabiane também relembra o caso da Rede Lilás, encerrada em 2019 e reativada apenas em novembro de 2024. O espaço é voltado à articulação entre instituições e serviços públicos, com foco na organização do fluxo de atendimento às vítimas de violência e no desenvolvimento de ações e políticas de prevenção à violência doméstica.

A atuação da Polícia Civil também é apontada por Fabiane como ineficiente. Segundo ela, delegacias especializadas no atendimento à mulher vêm sendo fechadas em diversos municípios, e muitas das Salas Margaridas, espaços dedicados ao acolhimento de vítimas dentro das delegacias comuns, estão fechadas ou sem funcionamento profissional adequado.

Para Fabiane, o problema se manifesta em todas as esferas do poder público, municipal, estadual e federal. “Porque quem deveria nos garantir condições, recursos humanos e financeiros para enfrentar, que é a União, Estado, Município, por vezes vira as costas para a gente”, diz.

Márcia Soares, diretora executiva da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, também denuncia o desmantelamento da rede de atenção às mulheres em situação de violência no Rio Grande do Sul. “A rede foi praticamente destruída nos últimos anos, pelo governo federal que passou e por este governo estadual que infelizmente não está dando prioridade à vida das mulheres”, pontua.

Diante da repercussão da sequência de feminicídios, a Secretaria de Segurança Pública do Estado e a Polícia Civil anunciaram, em 24 de abril, novas medidas para proteção das vítimas. Entre as ações anunciadas está a solicitação de medida protetiva de urgência online, a realização de visitas domiciliares a agressores de mulheres, desenvolvimento de grupos de reflexão com os agressores e operações permanentes de capturas a partir de denúncias.

Na coletiva realizada para o anúncio das ações, o Chefe da Polícia Civil do RS, Delegado Fernando Sodré, classificou a situação dos casos de feminicídio no feriado como “um dia fora da curva” e afirmou que o estado apresenta queda nos registros desse tipo de crime.

No entanto, para Márcia, a declaração do delegado não retrata a veracidade da situação enfrentada no estado. “Não é ‘fora da curva’, esta é a curva e ela é ascendente. A gente percebe isso no país inteiro e inclusive no Rio Grande do Sul”, diz.

Na avaliação de Márcia, a perspectiva adotada pela Polícia Civil e pelo Estado se reflete nas medidas anunciadas, que são restritas e tratam o feminicídio apenas como um problema de segurança pública, desconsiderando as dimensões estruturais que envolvem a violência contra a mulher. “As medidas protetivas de urgência on-line é uma ação bastante importante, que a gente espera que atinja as mulheres, mas lembrando que isso depende de uma senha no Gov.br. Para algumas mulheres de classe média isso é possível, mas se a gente trata com mulheres de periferia, nós sabemos que esse acesso é muito restrito”, avalia.

Sobre a proposta de grupos de reflexão com os agressores, Márcia afirma ser uma estratégia interessante, mas que não é novidade. “Esses grupos, eles dizem que isso vai depender de ter disponibilidade de recursos humanos e materiais, não se pode anunciar uma questão como essa e dizer: ‘olha, ok, mas só vai acontecer se tiver disponibilidade’. A disponibilidade depende da priorização da questão para o governo”, pontua.

“Outra proposta interessante é a visita à casa dos agressores, acho que é uma estratégia bastante interessante. Mas a outra estratégia, de cumprir os mandados de busca e captura, os mandados em aberto, isso é obrigação da polícia para todos, isso não é uma questão só dos feminicídios, não é uma inovação, isso é obrigação da polícia”, complementa Márcia sobre as medidas anunciadas.

A deputada estadual Stela Farias (PT), coordenadora da Força-Tarefa de Combate aos Feminicídios no RS, também avalia que as medidas anunciadas são importantes, mas insuficientes diante da gravidade da situação. Ela afirma que, ao percorrer o estado, constatou o desmonte da rede de proteção às mulheres e a inércia do governo estadual frente à necessidade de ações urgentes de prevenção e enfrentamento aos feminicídios.

A deputada também aponta negligência do governo estadual em não adotar medidas urgentes de proteção às mulheres. Segundo ela, apesar de ter a responsabilidade de estruturar os órgãos de segurança e proteção, o governo Leite não realiza investimentos reais em políticas públicas voltadas à proteção da vida das mulheres.

Na última semana, as deputadas federais gaúchas Maria do Rosário (PT), Denise Pessoa (PT), Fernanda Melchionna (PSOL) e Daiana Santos (PCdoB) se reuniram com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, para discutir propostas de enfrentamento ao feminicídio no Rio Grande do Sul. De acordo com Lewandowski, o Ministério da Justiça destinou R$ 4 milhões ao estado em 2024, por meio do Fundo Nacional de Segurança Pública, para o combate à violência contra as mulheres, mas os recursos ainda não foram utilizados.

No dia 24 de abril, em resposta a questionamento da reportagem do Sul21, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) negou que os recursos não foram utilizados, mas, sim, que 73% dos recursos foram empenhados.

Após a divulgação da informação do ministro Lewandowski, a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) oficiou o governador Eduardo Leite, questionando os motivos que impediram a aplicação integral e imediata dos recursos federais. Ela também pediu esclarecimentos sobre como o montante será utilizado e se há um plano de ação específico para o enfrentamento da violência de gênero.

Leia mais