18 Abril 2025
Os participantes da próxima eleição papal terão que prestar contas por suas ações, diz o especialista em abusos Hans Zollner. No entanto, ele vê com criticidade a recente denúncia contra seis cardeais no Vaticano.
A informação é publicada por katolish.de, 16-04-2025.
O especialista alemão em proteção infantil Hans Zollner acredita que o abuso sexual na Igreja Católica terá um papel importante na próxima eleição papal. Em entrevista publicada nesta segunda-feira pelo portal online húngaro telex.hu, Zollner afirmou: “Os cardeais que participarão de um futuro conclave terão que se perguntar como lidaram com os casos de abuso, o que fizeram ou deixaram de fazer com os agressores durante o processo canônico”.
Zollner também comentou explicitamente sobre a iniciativa da associação de vítimas de abuso SNAP, que apresentou, no fim de março, uma denúncia contra seis cardeais de destaque no Vaticano. A organização acusa os clérigos de terem encoberto ou não investigado adequadamente abusos sexuais cometidos por padres e funcionários da Igreja. Os cardeais citados nominalmente são: Peter Erdö, Kevin Farrell, Víctor Fernández, Mario Grech, Robert Prevost e Luis Tagle.
Zollner questiona a utilidade do procedimento adotado. “Não vejo nem a base legal para a atual iniciativa, nem acusações concretas”, disse o especialista em proteção infantil. Ele recomenda: “Em casos como este, a SNAP deveria seguir o mesmo procedimento adotado pela Igreja”. Isso inclui envolver as autoridades policiais, os tribunais e os ministérios públicos competentes. Só assim, segundo ele, é possível garantir que uma denúncia seja levada a sério.
Zollner sobre a prescrição: Igreja tem o dever moral
Zollner também apelou ao dever moral dos representantes da Igreja diante dos abusos. Segundo ele, a Igreja não pode esquecer que não se trata apenas de dar uma resposta jurídica aos casos de abuso. “Temos também o dever de oferecer uma resposta moral e espiritual”.
Estas declarações foram feitas no contexto da apuração judicial da violência sexual na Igreja Católica. “Perante um tribunal civil, os bispos costumam invocar a prescrição, enquanto as vítimas argumentam que a Igreja não deveria se valer desse recurso”, disse. Quem entra na via judicial recebe uma resposta legal para seu caso específico, completou o especialista. Por isso, é importante que as vítimas possam contar com assessoria bem informada e competente. A Igreja, segundo Zollner, deve criar um ambiente seguro para elas – e também procedimentos seguros. Como comunidade, a Igreja é responsável pelas vítimas e pelos abusos cometidos.
Zollner defendeu ainda uma comunicação aberta. “Cada relatório, cada forma de comunicação é importante. Precisamos falar sobre o fato de que esses casos de abuso aconteceram”. É essencial, afirmou, nomear exatamente o que ocorreu. “Os católicos devem ser capazes de encarar a verdade e admitir o que aconteceu. Só assim poderemos alcançar o perdão”. Portanto, o enfrentamento da questão exige um trato público e transparente.
Hans Zollner é jesuíta e diretor do Instituto de Antropologia da Universidade Gregoriana Pontifícia, em Roma. Ele também dirige o Centre for Child Protection (Centro para a Proteção de Crianças contra Abusos). Em 2023, ele se desligou da Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores após críticas ao funcionamento do órgão.
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