25 Março 2025
A informação é publicada por Religión Digital, 24-03-2025.
Quando se supunha que ele ficaria internado por mais alguns dias, o anúncio surpreendente da alta médica e o retorno do Papa Francisco ao Vaticano, após 38 dias no hospital, trouxeram alívio a milhões de católicos e não católicos em todo o mundo.
Mas, ao mesmo tempo, colocaram em pausa setores ultraconservadores da Igreja e da política mundial – com simpatizantes de Donald Trump à frente – que já começavam a articular a escolha de um sucessor claramente ortodoxo.
É certo que uma coisa é o retorno do pontífice à residência de Santa Marta e outra é sua plena retomada das atividades.
Por enquanto, os médicos afirmaram, na coletiva de imprensa em que anunciaram sua alta, que ele terá “pelo menos dois meses de convalescença”, o que significa que deverá continuar por um longo período com “as terapias farmacológicas por via oral”, além da fisioterapia respiratória e motora.
Para isso, conforme explicaram, a residência está devidamente equipada.
Em outras palavras, como disseram os médicos, “a convalescença é uma fase de recuperação na qual ele não poderá ter os encontros habituais com muitas pessoas”. Isso significa que não poderá participar de atividades em grupo, o que levanta dúvidas sobre sua presença nas celebrações da Semana Santa, que começarão em 13 de abril. Afinal, ele acabou de superar uma pneumonia e de enfrentar – como agora se soube – “dois episódios críticos que colocaram sua vida em risco”.
Embora os médicos tenham dito que o Papa foi um bom paciente, ele próprio costuma afirmar o contrário. O cardeal argentino Víctor Fernández, muito próximo de Jorge Bergoglio, revelou que ele não queria se internar e que “foi convencido por amigos muito próximos”. No entanto, Francisco disse à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, quando ela o visitou no hospital, que os médicos o aconselharam a se cuidar, caso contrário, iria “direto para o céu”.
Mas a gravidade de seu quadro e a assistência respiratória que precisou receber com máscara e cânula nasal, sem chegar a ser intubado, não o impediram de continuar conduzindo a Igreja. De fato, no hospital, ele assinou uma dúzia de nomeações de bispos e declarações de santos, enviou diversas mensagens – incluindo uma de solidariedade aos atingidos pelas enchentes em Bahía Blanca – e decretou a continuidade, por mais três anos, de um processo de reformas internas.
Francisco está plenamente consciente de que, sempre que um pontífice adoece e precisa ser internado, não apenas disparam as especulações sobre seu possível sucessor, mas também não faltam discretos conciliábulos, sobretudo entre aqueles que desejam uma mudança de rumo na liderança da Igreja. No caso de Jorge Bergoglio, sua linha progressista provocou resistência entre os setores mais conservadores, especialmente nos Estados Unidos.
Em 2021, quando foi operado do cólon devido a uma estenose diverticular e passou 10 dias internado, ele declarou: “Algumas pessoas queriam que eu estivesse morto”. Francisco foi além naquela ocasião e, em uma expressão eloquente, afirmou que alguns dentro da Igreja “já estavam preparando um conclave”. Em outras palavras, alguns cardeais – que são os responsáveis por eleger o Papa – já estavam se organizando para escolher seu sucessor, mesmo antes de sua morte.
Houve questões que deixaram os mais conservadores de cabelo em pé, como a possibilidade de que católicos divorciados em nova união possam comungar (receber a hóstia consagrada) sob certas condições. Ou, pior ainda, que casais homossexuais possam receber individualmente uma bênção pastoral – ainda que não para sua união.
Além disso, o fato de o Vaticano ter aberto as portas para povos originários que praticam crenças ancestrais, como o culto à Pachamama, também foi algo difícil de digerir para esses setores. Sem falar nas críticas de Francisco a um capitalismo sem sensibilidade social e a um sistema financeiro absolutamente especulativo, que alarmaram os mais liberais.
Mas houve outras questões mais imediatas, como a recomendação de Francisco à Cúria Romana para que adote a austeridade e, por exemplo, evite o uso de carros de luxo. Mais ainda: que seja “uma Igreja pobre para os pobres”, afastada do poder e de qualquer manifestação de mundanidade contrária à essência do clero.
Por enquanto, os setores mais ortodoxos – talvez aproveitando a onda conservadora que atravessa o mundo – terão que esperar diante da incipiente recuperação de Francisco. E ainda precisarão ficar atentos, pois, como acaba de prever o cardeal Fernández, o Papa está prestes a iniciar “uma nova etapa na qual haverá surpresas”.