26 Fevereiro 2025
No dia 12 de fevereiro, Usbek & Rica organizou seu terceiro Clube do Livro na Livraria Jonas de Paris. Oportunizou entabular um diálogo com a socióloga Dominique Méda em torno do seu ensaio Une société désirable. Comment prendre soin du monde (Uma sociedade desejável. Como cuidar do mundo), publicado pela Flammarion.
A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 15-02-2025. A tradução é do Cepat.
“Sair da obsessão pelo crescimento”, “destacar as interdependências entre os seres vivos”, “mostrar e tornar visível o que seria uma sociedade sóbria”… Estes são alguns dos ingredientes que a socióloga Dominique Méda destila no seu último ensaio Uma sociedade desejável para finalmente cuidar do mundo. Tão pedagógica quanto impactante, esta obra traça um diagnóstico quase cirúrgico dos males da nossa sociedade e oferece, em filigrana, uma saída para as grandes crises do nosso século: a do trabalho, do Estado-providência e ecológica.
Só atacando de frente esta tripla crise, afirma a professora de sociologia de Paris Dauphine-PSL, seremos capazes de formar uma sociedade mais justa, “que permitiria aos seus habitantes respirar, alimentar-se de forma saudável, redescobrir os solos ricos e a qualidade gustativa das coisas, viver melhor, reconectar-se com um trabalho significativo”.
Um ideal que Dominique Méda compartilhou conosco durante a terceira edição do Clube do Livro de Usbek & Rica, organizado no dia 12 de fevereiro na livraria Jonas, em Paris, e da qual publicamos aqui uma transcrição.
No livro, a senhora regressa às causas da deterioração das condições de vida dos cidadãos e remonta a um período chave, a década de 1980, durante o qual ocorreu uma mudança ideológica. O que tão crucial aconteceu nessa época?
Devemos primeiro voltar à década de 1940 para compreender esta mudança ideológica. No final da Segunda Guerra Mundial, foi construído o chamado “Consenso de Filadélfia”, um eco da Declaração de Filadélfia adotada em maio de 1944 pela Conferência Geral da Organização Internacional do Trabalho. Este consenso estabelece o princípio de que os indivíduos devem ser protegidos contra si mesmos e contra os riscos sociais coletivos. E isto graças à proteção social que lhes permite enfrentar com tranquilidade os altos e baixos da existência.
Este consenso foi grandemente influenciado pelo famoso Relatório Beveridge de 1942, que teve uma influência decisiva no estabelecimento do Estado-providência e no qual o economista social liberal William Beveridge defendia que o Estado deve intervir para proteger os seus cidadãos. Uma concepção fortemente contestada pelo economista Friedrich Hayek que, em 1947, fundou a sociedade secreta Mont-Pèlerin, cujo objetivo era promover a economia de mercado. Hayek afirma que a intervenção estatal na vida econômica e social é uma coisa muito ruim. As suas ideias progredirão lentamente e o consenso de Filadélfia será aos poucos esquecido.
Na década de 1980, foi finalmente forjado o Consenso de Washington, que afirmava que o indivíduo não tem de ser protegido ou, se precisar, é por seguros privados. Consideramos então que o Estado não tem absolutamente nenhuma ideia do que é bom para os cidadãos e que não deveria intervir. Situação que Michel Foucault resumiu muito bem no seu curso sobre o nascimento da biopolítica no Collège de France (1978-1979) ao dizer que o pensamento neoliberal coloca o Estado sob a vigilância do mercado.
Desde então, ouvimos cada vez mais discursos apelando ao desmantelamento do Estado-providência. Fica então implícito que o indivíduo, quando protegido pelo Estado, perde vitalidade e energia, o que poderia levar a um empobrecimento geral da sociedade. Estas ideias criaram raízes primeiro nos Estados Unidos, antes de se espalharem pelo Reino Unido, onde Margaret Thatcher seria uma das suas figuras emblemáticas.
Hoje, parece-me que estamos no auge do pensamento neoliberal que vê o Estado como inimigo absoluto e defende a sua substituição por empresas com os seus acionistas, uma espécie de novos oligarcas.
É este pensamento neoliberal que está na origem das três crises que você disseca no seu ensaio: a do trabalho, a do Estado-providência e a ecológica?
De certa forma, sim. A partir do momento em que, na década de 1980, se afirmou que o Estado não deveria intervir na esfera econômica e social e que o mercado deveria poder desenvolver-se livremente, assistimos a uma crescente financeirização da sociedade. Este fenômeno é acompanhado pela desregulamentação, com os fluxos de capitais que circulam livremente e dirigindo-se para os Estados, exercendo uma pressão crescente sobre eles. Os Estados andam se comparando constantemente, analisando os custos de produção e de mão de obra. Ocorre um verdadeiro “benchmarking” global, levando as empresas a se deslocarem para países com baixos custos de produção, como a China. Esta dinâmica leva à desindustrialização nos países ocidentais e contribui para uma crise de empregos que ainda hoje persiste.
Recentemente tomei conhecimento do trabalho da socióloga estadunidense Joan C. Williams, autora do livro White Working Class. Overcoming Class Cluelessness in America (Harvard Business Review Press, 2019), em que analisa a vitória de Trump em 2016 — análise que continua relevante para compreender a vitória de 2024. Williams enfatiza que a desindustrialização dos Estados Unidos levou a uma explosão do desemprego e dos empregos precários, criando um sentimento de traição e desprezo entre a classe trabalhadora. Estes trabalhadores, incapazes de satisfazer adequadamente as suas necessidades, viam em Trump um representante preocupado com as suas questões, enquanto os Democratas pareciam mais preocupados com os interesses das elites, sem perceber a angústia das classes populares.
Esta situação faz eco ao que aconteceu na França em 2011, quando o think tank Terra Nova aconselhou o Partido Socialista a abandonar a classe trabalhadora, considerada estúpida e desconectada dos valores do partido, para se voltar para uma nova maioria eleitoral urbana com o objetivo de conquistar o poder. Este abandono contribuiu para a ascensão de partidos populistas, como Trump nos Estados Unidos ou o Rassemblement National na França. Portanto, a crise do trabalho alimenta o processo de extrema direitização da sociedade.
Por que centrou a sua atenção nas três crises, que são as crises do trabalho, do Estado-providência e da crise ecológica, em vez de se concentrar apenas nesta última, que diz ser a “principal ameaça” do nosso século? Serão estas três crises que, juntas, nos impedem de viver num mundo justo?
Na verdade, estas três crises estão intimamente ligadas. Na minha opinião, um tratamento sério da crise ecológica poderia ajudar a resolver parcialmente a crise do emprego e do trabalho. No que diz respeito à crise do emprego, como mencionei anteriormente, as deslocalizações agravaram profundamente o desemprego. Na França, há mais de 30 anos, a taxa de desemprego nunca foi inferior a 7 ou 8%. É particularmente elevada entre os jovens, atingindo 17% em 2023. 1,4 milhão de franceses, ou 12,8% dos jovens entre os 15 e os 29 anos, estão numa situação ainda mais complicada, chamada de NEET (“Nem no emprego, nem na educação, nem em formação”) [no Brasil: nem-nem]. Com outras palavras, estão fora do sistema: nem no emprego, nem nos estudos, nem em formação.
Há também uma crise do trabalho, muitas vezes subestimada na França. Ao falar sobre isso com líderes políticos, não é incomum receber respostas condescendentes. No entanto, muitos estudos destacam a escala desta crise. Por exemplo, em 2019, 37% dos trabalhadores empregados declararam que não se sentiam capazes de sobreviver na aposentadoria porque as suas condições de trabalho eram muito difíceis. É um número considerável. A França está entre os países com pior desempenho na Europa no que diz respeito à dificuldade no trabalho, seja em termos de posturas dolorosas, transporte de cargas pesadas ou exposição a vibrações – critérios que também foram removidos nas ordens de trabalho de 2017.
Finalmente, um sentimento de desprezo é amplamente sentido entre os trabalhadores. As nossas pesquisas quantitativas mostram que os franceses se sentem deixados para trás. Têm a impressão de que não têm o direito de serem ouvidos e que os seus esforços não são reconhecidos.
Como sairemos destas crises e quais são os projetos mais urgentes a empreender?
Devemos levar a sério a crise ecológica e iniciar uma transição ambiciosa o mais rapidamente possível. Essa transição exige uma transformação profunda da nossa economia, o que envolve uma maior sobriedade e a reconversão de muitos empregos. Será necessário reduzir ou mesmo encerrar determinados setores, especialmente aqueles que emitem elevados níveis de gases de efeito estufa, e desenvolver outros. Isto exige transferências em massa de mão de obra, o que suscita muitos receios entre os trabalhadores, preocupados com a possibilidade de perderem os seus empregos. É, portanto, imperioso antecipar estes desenvolvimentos, apoiar estas transições, através da realização de um trabalho aprofundado a nível setorial e territorial.
A boa notícia é que esta transição deverá, em princípio, gerar empregos. O Secretariado-Geral do Planejamento Ecológico produziu projeções que indicam que o planejamento ecológico poderá abranger quase 8 milhões de empregos e criar 200 mil a 550 mil empregos até 2030 em setores com grandes desafios, como a construção e a energia. Destes 8 milhões, 2,5 milhões serão de trabalhadores e técnicos. Esta é uma ótima notícia porque significa que pessoas com competências técnicas poderão encontrar empregos nestes setores.
A má notícia é que estes empregos dizem respeito a setores já tensionados. Isto significa que nem sempre atraem os trabalhadores e que será necessário tornar estes empregos mais atrativos, melhorando as condições de trabalho e a remuneração.
A minha ideia é que, se formos inteligentes, poderemos fazer desta transição ecológica um motor para a criação de empregos. E se formos ainda mais longe, poderemos até aproveitar esta transição para repensar o trabalho: torná-lo menos intensivo e reorganizá-lo de forma mais equilibrada. Isto poderia resultar em empresas mais ancoradas nos seus territórios, menos dependentes desta louca divisão internacional do trabalho. Este é o meu pequeno ideal.
No prefácio você diz que “precisamos de narrativas convincentes” para “projetar um novo universo”. Esta vontade de renovar a imaginação para envolver a população numa transição ecológica justa pode ser encontrada em vários ensaios. No entanto, muitas vezes nos encontramos sem um roteiro para moldar essas novas narrativas. Falta-nos imaginação?
Sim, mas eu diria que não é só isso. Não creio que seja suficiente simplesmente criar uma nova imaginação. É necessário mudar o nosso discurso. Até agora, o discurso dos ambientalistas e daqueles que fazem campanha pela transição ecológica tem sido por vezes percebido como moralizante, até mesmo punitivo. É importante reconhecer esta crítica. Neste momento, muitos sociólogos mostram como as classes trabalhadoras estão fartas de ouvir discursos como aqueles sobre a proibição dos carros nas grandes cidades. Houve erros, tanto no discurso quanto nas ações tomadas, a começar pela famosa taxa de carbono, que foi um dos gatilhos do movimento Coletes Amarelos.
Então acho que precisamos de novas narrativas, mas essas narrativas não precisam ser excessivamente gráficas ou idealizadas. O essencial é mostrar concretamente às pessoas os benefícios tangíveis que podem obter com esta mudança. Por exemplo, solos mais férteis, alimentos mais saudáveis, empregos locais e significativos... Em suma, devemos demonstrar de forma muito concreta, tanto para o indivíduo como para a comunidade, os benefícios desta transição. Mas, claro, esta não é uma tarefa fácil.
Mais adiante no seu livro, você diz que para ter sucesso na mudança para a sobriedade, que é um ponto central na luta contra a crise ecológica, precisamos de uma aliança de toda a sociedade e, de modo especial, do maior número possível de profissões. Além dos cientistas do clima e das ciências humanas, “precisaremos, diz, de engenheiros, especialistas em permacultura, artesãos de agroecologia, agrônomos… e políticos visionários”. Que lugar devemos deixar aos futuristas?
Não tenho certeza se precisamos de futuristas. Mas acho que é fundamental ter gente que arregace as mangas, gente que coloque a mão na massa.
Se fizéssemos as coisas corretamente, haveria uma infinidade de profissões para revitalizar. Estas não são necessariamente novas profissões a serem inventadas, mas profissões que já existem e que hoje não são suficientemente valorizadas. São profissões técnicas e manuais, que têm um papel fundamental a desempenhar nesta transição. Por exemplo, com a economia circular, haverá uma necessidade crescente de reparações. Poderíamos assim retomar formas de artesanato. Também poderíamos substituir os entroncamentos rodoviários por cinturões de hortas comerciais em torno de pequenas cidades. Há toda uma gama de profissões bem estabelecidas, que hoje estão em declínio ou são mal vistas, mas que poderiam ser revitalizadas e recuperar a sua relevância nesta nova economia.