14 Novembro 2024
"No tribunal de meu pai é um livro de memórias da transição da infância para a adolescência, marcado por uma sucessão de imagens que são inconfundíveis por sua clareza", escreve Alessandro Zaccuri, autor e jornalista italiano, em artigo publicado por Avvenire, 08-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
No tribunal de meu pai, agora republicado pela Adelphi na nova tradução de Silvia Pareschi (p. 328, 20,00 euros), ocupa uma posição característica e ao mesmo tempo singular na obra do ganhador do Prêmio Nobel Isaac Bashevis Singer. Característica, porque oferece uma descrição viva e detalhada do judaísmo da Europa Central no início do século XX, evocando situações e personagens que lembram muitas das histórias de Singer. Mas também singular, porque nessa ocasião o escritor - nascido em 1904 em Leoncin, no território polonês, e falecido em Miami em 1991 - recorre pela primeira vez ao instrumento autobiográfico, do qual se servirá sistematicamente mais tarde. Até 1956, ano em que No tribunal de meu pai foi publicado em iídiche (a versão em inglês é dez anos posterior), a experiência pessoal do autor foi retrabalhada em uma narrativa de invenção que felizmente insiste em um núcleo bem definido de temas: engano, paixão erótica, traição, senso de culpa, transição de um ambiente tradicional para o contexto de uma modernidade secularizada que não deixa espaço para a fé em Deus.
SINGER, Isaac Bashevis. No tribunal de meu pai, Companhia das letras (Foto: divulgação)
De tudo isso, que é matéria de obras-primas como "O Mágico de Lublin", "Inimigos" e "Sombras sobre o Hudson", para citar apenas alguns dos títulos já incluídos no projeto coordenado por Elisabetta Zevi para a Adelphi, "No tribunal de meu pai" constitui a premissa indispensável. É graças a esse livro de memórias, de fato, que se pode apreciar a distância que separa o Singer da maturidade da criança que foi, garotinho observador vestindo uma túnica de cetim e com peiot (os longos cachos que descem das têmporas dos judeus ortodoxos) tão vermelhos quanto eram vermelhos os cabelos do rei Davi. A cena se passa principalmente na Varsóvia do início do século XX e, mais precisamente, na casa da rua Krochmalna, onde o pai do autor, o rabino Pinchos Mendel, realiza seu Bet Din, o “tribunal rabínico” que - lembra Singer - “era uma espécie de combinação de tribunal, sinagoga, casa de estudos e, se quisermos, divã de psicanalista, onde aqueles que sentiam perturbações na alma podiam vir desabafar”.
Os episódios buscados da memória de uma infância perdida e fabulosa levam a cada oportunidade a uma dessas diferentes dimensões. O rabino estuda e estuda, mas no final a solução que propõe é sempre a de um compromisso em partes iguais. Por mais estranho que possa ser, os participantes da disputa preferem acatar a enfrentar outro debate: tocam simultaneamente o lenço acenado pelo juiz e a decisão é aceita. Pinchos Mendel colocou de lado seus escrúpulos, pelo menos por um tempo, e mais uma vez conseguiu não enriquecer, ao contrário de outros rabinos mais hábeis em angariar a clientela ou mais inescrupulosos ao lidar com as autoridades. As histórias evocadas por Singer vêm, em sua maioria, desse microcosmo fora do tempo, mas enquanto na rua Krochmalna noivados são rompidos e testamentos maníacos são redigidos, enquanto um casamento de longa data culmina em um paradoxal divórcio e a santidade se manifesta nas ações de um humilde leiteiro, na Europa explode a Primeira Guerra Mundial, impérios desmoronam, na Rússia a revolução eclode e o czar engana o tempo cortando lenha. Será que, finalmente, chegou o tempo do Messias?
No tribunal de meu pai é um livro de memórias da transição da infância para a adolescência, marcado por uma sucessão de imagens que são inconfundíveis por sua clareza. Mas não se trata apenas do relato da formação do jovem Isaac, que, seguindo o modelo de seu irmão mais velho, Israel Joshua, também escritor talentoso e também incluído no catálogo da Adelphi, descobre o fascínio da cultura secular, tornando-se igualmente entusiasta de romances policiais e das revelações da ciência. Não menos importante, na estrutura do relato, é o componente coral, do qual participam os membros da família do garoto (um lugar de destaque vai para sua mãe Batsheba, extraordinariamente versada na arte da controvérsia doutrinária, sendo ela também filha de um rabino) e a multidão de personagens que transitam na soleira do Bet Din. A virada ocorre na última parte, quando, sob o choque da dissolução do antigo regime, o protagonista encontra abrigo na cidade de origem de seus pais. Aqui, em Bilgoraj, a miséria sofrida em Varsóvia dá lugar a um relativo bem-estar, e até mesmo os escrúpulos religiosos parecem perder sua força. Singer sente os primeiros turbamentos e, enquanto isso, penetra cada vez mais no labirinto que continuará a percorrer nos anos seguintes, na busca contínua de um Deus que escapa e a cuja distância não nos podemos resignar. Algum traço Dele, no entanto, permanece, como a poeira que o reboco esfarelado deixa sob as unhas do menino que começa a se questionar sobre os mistérios do mundo e do amor, sem ainda saber que, uma vez iniciada, a busca não pode mais ser interrompida.
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