Religiões pela paz. Artigo de Paolo Benanti

Foto: Canva Pro | Getty Images

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Julho 2024

"Portanto, precisamos de proteções éticas: precisamos de algorética. Mas isso deve ser feito com a contribuição concorrente da grande tradição de sabedoria humana que as religiões reúnem e transmitem. O evento AI Ethics for Peace (Ética da IA para a Paz) em Hiroshima reuniu líderes da maioria das religiões do mundo para assinar o Rome Call for AI Ethics. O evento foi promovido pela Academia Pontifícia para a Vida, pela Religions for Peace Japan, pelo Fórum Abu Dhabi para a Paz e pela Comissão para as Relações Inter-religiosas do Grão-Rabinato de Israel", escreve Paolo Benanti, frei franciscano da Terceira Ordem Regular, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e acadêmico da Pontifícia Academia para a Vida, em artigo publicado por Avvenire, 10-07-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Hiroshima é um lugar profundamente simbólico, pois testemunha as consequências de uma tecnologia destrutiva e a necessidade de uma busca duradoura pela paz. À tragédia da bomba atômica é associada a figura de Sadako Sasako, uma criança japonesa que tinha apenas dois anos de idade quando a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima em 06-08-1945. Após a explosão, Sadako não sofreu imediatamente nenhum ferimento visível, mas dez anos depois, em 1954, foi diagnosticada com leucemia induzida por radiação.

Durante sua hospitalização, Sadako começou a fazer cegonhas de papel usando a técnica do origami. Ela se inspirava em uma lenda japonesa segundo a qual aquele que dobrar mil cegonhas teria seu desejo atendido. Apesar da doença e da dor constante, Sadako conseguiu dobrar 1.300 cegonhas antes de morrer em 25-10-1955.

Seu desejo não foi atendido, mas sua determinação e esperança desde então têm servido de inspiração para inúmeras pessoas em todo o mundo. Após sua morte, amigos e colegas de escola iniciaram uma campanha de arrecadação de fundos para construir um monumento em homenagem a Sadako e a todas as crianças vítimas da bomba atômica.

Em 1958, foi inaugurado o Monumento pela Paz das Crianças no Parque do Memorial da Paz de Hiroshima, que retrata Sadako segurando uma cegonha dourada em direção ao céu. O gesto de dobrar cegonhas de papel se tornou um símbolo internacional de paz. Todos os anos, milhões de cegonhas de papel são enviados ao monumento de todo o mundo como um tributo e uma oração pela paz.

Nenhuma outra cidade encarna de forma tão vívida a urgência de garantir que a tecnologia seja uma força para o bem. Essa é uma mensagem central no Rome Call for AI Ethics. Cada um de nós conhece sua própria fragilidade e fraqueza diante dos grandes males que hoje assolam o mundo: somos como folhas de papel, dobradas pela história e pelos eventos das guerras que ainda hoje abalam o mundo. Tecnologias como as inteligências artificiais não fundam nem reduzem a cinzas as estruturas de concreto e tijolos em que vivemos, mas têm potencialmente a capacidade de destruir a própria cola da nossa convivência. As inteligências artificiais generativas podem fundir a nossa capacidade de convivência, podem corroer a nossa confiança no outro e nos transformar em inimigos: fora de qualquer controle ético, as IAs generativas têm o poder de “hackear” o nosso sistema operacional cultural.

Portanto, precisamos de proteções éticas: precisamos de algorética. Mas isso deve ser feito com a contribuição concorrente da grande tradição de sabedoria humana que as religiões reúnem e transmitem. O evento AI Ethics for Peace (Ética da IA para a Paz) em Hiroshima reuniu líderes da maioria das religiões do mundo para assinar o Rome Call for AI Ethics. O evento foi promovido pela Academia Pontifícia para a Vida, pela Religions for Peace Japan, pelo Fórum Abu Dhabi para a Paz e pela Comissão para as Relações Inter-religiosas do Grão-Rabinato de Israel.

Ele contou com a participação de figuras proeminentes, como o Rev. Yoshiharu Tomatsu, presidente da Religions for Peace Japan, Dom Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, Sheikh Abdallah Bin Bayyah, presidente do Fórum Abu Dhabi para a Paz, e do rabino Eliezer Simha Weisz, membro da Comissão para as Relações Inter-religiosas do Grão-Rabinato de Israel. Além dos líderes religiosos, estiveram presentes representantes de grandes empresas de tecnologia, como Microsoft, IBM e Cisco. Amandeep Singh Gill, enviado do secretário geral da ONU para a Tecnologia, e Eriko Hibi, a diretora do escritório de ligação da FAO no Japão, também participaram do evento.

Ao assinar o Rome Call nesse histórico evento multirreligioso, os líderes religiosos reafirmaram seu compromisso de garantir que a inteligência artificial seja usada para o bem da humanidade.

O evento enfatiza a ideia de que enfrentar os desafios postos pela IA exige um esforço coletivo e um trabalho contínuo de todas as partes interessadas, incluindo organizações, governos, empresas de tecnologia e instituições religiosas. Agora, depois da assinatura dos líderes das principais religiões do mundo, o Rome Call for AI Ethics representa simplesmente a maioria das pessoas no planeta. A Call baseia-se em seis princípios fundamentais: transparência, inclusão, responsabilidade, imparcialidade, confiabilidade, segurança e privacidade. Esses princípios são particularmente relevantes no contexto da IA generativa, um campo em rápido desenvolvimento com o potencial de revolucionar muitos aspectos da vida.

O Adendo de Hiroshima, apresentado durante o evento, destaca a importância de aplicar os princípios da Rome Call à IA generativa para garantir sua utilização responsável e ética. Entre outros aspectos, o Adendo enfatiza a necessidade de transparência, afirmando que o que é gerado pela máquina deve ser imediatamente reconhecível como tal. Enfatiza a inclusão, destacando que os instrumentos de inteligência artificial devem respeitar a diversidade das culturas, das tradições e dos idiomas humanos. O compromisso dos signatários da Call vai além da simples declaração de princípios éticos; se estende à responsabilidade para o desenvolvimento e a implementação da IA. Isso inclui a consideração do impacto de longo prazo dessas tecnologias sobre o meio ambiente e a sociedade. Hiroshima reuniu homens de boa vontade de todas as partes do mundo para realizar uma efetiva algorética. Agora cabe a cada um de nós responder a esse empenho global apresentando sua própria contribuição.

Leia mais