“A sociedade está aceitando a pena de morte”: ato em SP pede fim de operação policial na Baixada Santista

Foto: unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Março 2024

Enquanto protesto denuncia a Operação Verão, que já matou 48 pessoas, Tarcísio vai a Israel para 'troca de tecnologias'.

A reportagem é de Gabriela Moncau, publicada por Brasil de Fato, 18-03-2024.

Sob o mote "Pelo fim da violência e do racismo policial", entidades do movimento negro, abolicionista e de familiares de vítimas da violência do Estado fizeram um ato no centro da capital paulista na noite desta segunda-feira (18). A reinvindicação é o fim da Operação Verão (também chamada de Operação Escudo), implementada pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e seu secretário de segurança pública, o ex-policial da Rota Guilherme Derrite, que está momentaneamente afastado da secretaria.

Desde que a intervenção policial se intensificou na Baixada Santista em 7 de fevereiro, como resposta à morte do sargento da Rota Samuel Wesley Cosmo, a polícia assassinou 48 pessoas. De acordo com o governo do estado, todas as mortes foram decorrentes de confronto. Moradores da região, entidades de direitos humanos, movimentos sociais e a Ouvidoria da Polícia atestam, no entanto, que a operação é marcada por torturas e execuções sumárias. A respeito do encaminhamento destas denúncias à ONU, o governador Tarcísio declarou: "não estou nem aí".

A manifestação se concentrou no Largo São Francisco, ao lado da Secretaria de Segurança Pública – que foi rodeada por grades e viaturas da Polícia Militar. A segurança da Faculdade de Direito – palco de um evento em defesa da democracia antes da eleição presidencial de 2022 - impediu que uma faixa do Movimento Negro Unificado fosse esticada na varanda do prédio.

"Quando a gente usa a pauta 'morreu porque trocou tiro', como é o relato da polícia, a sociedade está aceitando que exista pena de morte. A polícia é preparada para inibir sem ter que atirar, sem ter que matar. Hoje, não temos respeito dentro da nossa comunidade. Quem mora em situação de risco passa por constrangimento. A gente sabe que existe uma diferença muito grande do Morumbi, dos bairros nobres, pra nossa favela. Nossa favela para o estado pouco interessa", diz a rapper e ativista Andreia MF, moradora da Baixada Santista.

"Contra o genocídio", "não é operação, é chacina" e "é urgente interromper Tarcísio e Netanyahu" são alguns dos dizeres dos cartazes da manifestação. Nesta segunda-feira, o governador paulista chegou a Israel a convite do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. À imprensa, Tarcísio declarou que a visita visa estreitar relações e "trocar experiências para o desenvolvimento de novas tecnologias no Estado".

"A gente reivindica que a polícia faça o trabalho dela e não faz parte do trabalho da polícia matar as pessoas. E olha só quem morre, né?", ressalta a educadora popular Luana Oliveira, da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio. "A gente verifica que os BOs são inconsistentes, que têm informações mentirosas, que a polícia está entrando nas comunidades com mochila para plantar armas e drogas para justificar a matança que está acontecendo", denuncia.

"A polícia sob comando do Derrite e do Tarcísio contraria todos os protocolos. Não existe protocolo dentro de favela. Eles simplesmente invadem casas e matam pessoas. E é isso que a gente pensa que tem que acabar, chega de criminalizar a pobreza", defende Luana.

Com uma caixa de som, ativistas, parlamentares e mães de vítimas da violência policial alternaram falas denunciando a Operação Verão, que é a mais letal operação institucional das forças de segurança de São Paulo desde o massacre do Carandiru, em 1992.

"Para as pessoas da periferia não existe presunção de inocência. As pessoas já estão colocadas enquanto suspeitas dentro desse cenário que o Estado constrói. E no imaginário de boa parte da sociedade essas pessoas de fato são matáveis", afirma Fábio Pereira, da Amparar e da Frente pelo Desencarceramento de SP.

"Então aqui hoje estamos dialogando e trazendo a perspectiva daqueles que de fato são atingidos. Grande parte das pessoas que estão aqui são oriundas das quebradas, tanto da Baixada quanto de São Paulo e que estão colocando a sua cara para falar: 'a gente não quer mais isso'", ressalta.

Entre as entidades organizadoras do protesto estão Uneafro, Movimento Negro Unificado (MNU), Amparar, Frente pelo Desencarceramento de SP, Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Campo Limpo, Marcha das Mulheres Negras SP, Movimento Quilombo Raça e Classe, Fórum em Defesa da Vida, os mandatos Bancada Feminista (PSOL) e Quilombo Periférico (PSOL), entidades do PT, o PSTU e a Unidade Popular (UP).

Leia mais